Eugênio Bucci: "Imprensa tradicional errou ao tratar Bolsonaro como um candidato normal'

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(Foto: Getty Images)
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O Brasil passa por uma das mais graves crises de sua história. A pandemia do novo coronavírus já matou mais de 45 mil pessoas aqui e a curva da doença continua a se manter em níveis altos. Para piorar, o presidente Jair Bolsonaro vive às turras com o Congresso e o STF, num momento de tensão quase nunca visto.

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Como o Brasil sairá de todo esse processo? A democracia está ameaçada? O jornalista e professor da USP, Eugênio Bucci, conversou com o Yahoo Brasil e tentou trazer mais clareza para esse momento turbulento de nossa história. Confira:

Yahoo: A democracia no Brasil está ameaçada com Bolsonaro?

Eugênio Bucci: Há mais de um ano venho falando isso. O editorial do Financial Times falou disso. A Economist vem apontando problemas nesse sentido. Não se trata mais de uma opinião isolada desde a eleição de 2018. Surgiram várias manifestações em abaixo-assinados e outros tipos de declarações. Várias pessoas de diferentes orientações e correntes de opinião vêm manifestando essa preocupação. Existe o risco, sim. A democracia está inteira, mas ficamos numa situação mais difícil. As instituições, dia a dia, ficam comprometidas. O Ministério da Educação, Itamaraty e o Ministério da Saúde estão sendo tomados por crenças e fanatismos que se sobrepões aos fatos. Instituições de Estado começam a ser infectadas por essa moléstia, por esse ideário autoritário. E existe o risco de se aprofundar com o tempo.

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Y: Existem semelhanças entre os protestos de 2013 e os de agora?

EB: Existem semelhanças entre as jornadas de junho de 2013 e as jornadas antirracistas dos EUA. Há sete anos, percebemos o engajamento rápido e instantâneo. E só foi possível com redes sociais. Existia uma ira represada há muito tempo que explodiu com um fato. Foi uma fagulha que incendiou o resto. No Brasil, em 2013, foi a precariedade do transporte urbano. As jornadas dos EUA de agora aconteceram por causa de mais uma morte de um negro pela polícia local. As manifestações têm uma gênese um pouco diferente. Não existe a menor duvida que o movimento vai crescer nos próximos meses.

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Y: No que a imprensa acertou e errou na cobertura do governo Bolsonaro?

EB: Não existe uma resposta que abarca toda a imprensa. Não podemos generalizar. Um erro que aconteceu na maior parte dos veículos mais tradicionais (Folha, Estadão, O Globo, Zero Hora e os grandes telejornais), foi dar um tratamento a Jair Bolsonaro como se ele fosse um candidato normal, Desde o começo ele se apresentava como um candidatura contra a democracia. Nas eleições em regimes comuns, candidatos têm a proposta de fortalecer o regime democrático. Bolsonaro elogiava tortura, ditadura e hostilizava a imprensa. Falou que as urnas eram fraudadas e ameaçou não aceitar o resultado caso perdesse. Se negou a ir a debates e a maneira como ele fazia era afrontosa. A imprensa não identificou esse fato. Foi uma candidatura contra a democracia brasileira. É o que está acontecendo hoje. A imprensa brasileira, que é de qualidade, demorou a perceber o fato e isso prejudicou a cobertura. Não era um candidato como os outros. Isso postergou um esclarecimento, uma situação muito grave no Brasil. Agora perceberam e estão esclarecendo os fatos à sociedade brasileira.

Y: Com a recriação do Ministério das Comunicações, o que acha que pode mudar nessa política do governo? E como classifica a atual, visto que você passou pela área no governo Lula?

EB: Certamente vai mudar. O ministro Fábio Faria (PSD-RN) parece ter bom trânsito no Congresso. Há alterações sensíveis que foram adotadas, entre elas a incorporação da EBC, agora vinculada ao Ministério das Comunicações (MC). Isso significa que o MC será demandado pelo presidente como um ministério com alinhamento ideológico. A comunicação do governo vai ganhar cada vez mais influência se for misturada com o MC. Verba publicitária terá mais ingerência do MC. Vai ganhar calibragem e potência. Isso pode ser uma mudança para o mal, mas ainda é cedo para dizer.

Y: Como acha que tem sido o combate às fake news no Brasil? Alguma sugestão para punir quem distribui esse tipo de conteúdo?

EB: O risco de uma legislação que possa responsabilizar as plataformas sociais é quebrar a privacidade e criar um regime de vigilância terceirizado nas plataformas, o que vai ser um fator inibidor do debate público. É evidente que as fake news que vêm sendo distribuídas hoje são fruto de atividades sem transparência. Existe um ocultamento da origem dessas fake news. É desleal e pode até conter ilegalidade. É por isso que o inquérito do STF vem causando tanto rumor. E vale destacar que ele vem se desenrolando dentro dos trâmites legais.  

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