Bolsonaro chama contaminações de "conversinha" e inaugura segunda onda negacionista

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro holds a box of chloroquine outside of the Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil, July 23, 2020.REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

A dois dias da votação, cabos eleitorais se espalham e se aglomeram por vários cantos da cidade. Aquela campanha que prometia ser contida, baseada na comunicação online e no distanciamento social, já desandou.

Quem precisa se deslocar, a trabalho, ou para buscar compras, vira e mexe se assusta quando alguma mão ou cabeça sem máscara praticamente ENTRA pelas janelas dos carros espalhando perdigotos, panfletos e santinhos. A bomba relógio está armada, e há razões para se preocupar com o saldo de quando a disputa acabar.

Mas a avanço de novos casos de coronavírus em ao menos nove capitais, conforme mostrou o jornal O Globo, não parece franzir a testa de Jair Bolsonaro -- como não fizeram franzir as 163 mil mortes na pandemia até aqui.

Há dúvidas, de fato, sobre como os novos casos serão classificados. Segunda onda? Ou rescaldo da primeira, que encolheu mas nunca se extinguiu?

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Enquanto a nomenclatura está em disputa, o presidente já deu início à segunda onda de declarações irresponsáveis.

Depois de dizer que:

-coronavírus fazia estrago na Itália porque era uma espécie de Copacabana, só pegava velhinhos, e não faria cócegas por aqui;

-que pessoas com histórico de atleta, como ele, não corriam risco, e no máximo enfrentariam uma gripezinha;

-que na região Norte, uma das mais devastadas pelo vírus, poucos morreriam porque já a população já tomava cloroquina contra malária e estava imunizada;

-que vacinação não era obrigação do Estado e os testes da opção mais avançada causava morte;

-que a cloroquina era a solução milagrosa para a enfermidade;

-que milhares de pessoas morreram, fazer o que, todo mundo vai morrer um dia;

Depois de tudo, Bolsonaro voltou à carga com declarações proféticas para minimizar a situação. Para ele, segunda onda é “conversinha” e, caso aconteça, tem de ser enfrentada para a economia não quebrar. Tratando-se de quem o pronunciou, o “enfrentamento” aqui se resume a vida normal e provável boicote a qualquer esforço por isolamento social.

Dias antes, o presidente havia declarado que “tudo agora é pandemia” e “que tem que acabar com esse negócio” antes que o Brasil vire um país de “maricas”.

Enquanto isso, palavrões como “lockdown”, “UTIs lotadas” e “platô” voltam a assombrar o léxico de um país que mal saiu da primeira onda.

A depender do presidente, uma nova epidemia toma corpo. A epidemia de declarações irresponsáveis que beiram o negacionismo.

Resta saber se aprendemos alguma coisa entre março e novembro.