Uso de cloroquina contra malária garantiria imunização no Norte, apostava Bolsonaro

Matheus Pichonelli
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Brazil's president Jair Bolsonaro reacts after the swearing-in ceremony of the Brazil's Tourism Minister Gilson Machado, amidst the Coronavirus (COVID - 19) pandemic at Planalto Palace on December 17, 2020 in Brasilia. (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)
O presidnete Jair Bolsonaro. Foto: Andre Borges/NurPhoto (via Getty Images)

Em março de 2020, quando já havia registros e testemunhos, em diversas localidades, dos estragos causados pelo coronavírus mundo afora, Jair Bolsonaro apostava alto que, por aqui, não havia o que temer. Seus auxiliares diretos prognosticavam que a covid-19 mataria menos do que a gripe comum.

O presidente lembrava que o brasileiro mergulhava no esgoto e “nada acontecia” com ele.

Para tranquilizar os compatriotas, o capitão anunciava: “tem a cloroquina na área”.

E citava, como exemplo de sucesso do medicamento, a região norte. Em encontro com apoiadores, no fim daquele mês,ele até tomava o cuidado ao frisar que os números eram pequenos ainda e havia pouca amostragem estatística. Mas previa: as contaminações na região estavam pequenas porque grande parte da população usava cloroquina para combater a malária. “Então tá vacinada”, disse, rindo não se sabe de quê.

O vídeo foi resgatado pelo meu amigo Gustavo Villas Boas, estudante do sétimo período de medicina da UFMG. Na época, ele já alertava que a fala do presidente era uma crime contra a saúde pública.

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Dez meses depois, o colapso do sistema de saúde em Manaus, maior cidade da região norte --que não estava nada “vacinada” com cloroquina-- dá a dimensão da irresponsabilidade dos gestores públicos que mentiram e/ou venderam falsas promessas para manter a normalidade num momento que exigia esforços extraordinários --esforços boicotados dia sim, dia não, pelo governo que agora precisa recorrer a aviões a Força Aérea dos EUA para garantir que os pacientes tenham acesso a cilindros de oxigênio para sobreviver ao novo surto. Um surto que poderia ter sido evitado se autoridades sanitárias tivessem sido ouvidas desde o começo da crise.

A ideia de limitar a circulação em tempos de festa de fim de ano evitaria que o vírus se propagasse mais rapidamente, o que levaria a um aumento brusco de internações em um sistema já fragilizado de atendimento. Dito e feito. Hoje faltam de cilindros de oxigênio para atender as vítimas de uma doença que ataca preferencialmente o sistema respiratório, transformando os hospitais em verdadeiras câmeras de asfixia.

Uma das principais fornecedoras de oxigênio para o governo do estado informou que tenta viabilizar a importação do produto da Venezuela para suprir a alta demanda, hoje três vezes superior ao que as empresas nacionais conseguem entregar.

Bolsonaro e equipe não aprenderam nada em dez meses de pandemia. Em sua live da semana passada, por exemplo, o presidente seguia colocando em dúvida a eficácia da vacina e apostava ainda na cloroquina, uma ideia-fixa que antes dava lugar à obsessão pelo nióbio.

Em seu perfil no Twitter, o jornalista Thomas Traumann relembrou uma série de postagens de políticos ligados ao bolsonarismo celebrando o resultado da pressão para que o governador Wilson Lima (PSC-AM) voltasse atrás em seu plano de decretar de lockdown quando a situação já apontava para a tragédia. “A pressão do povo funcionou em Manaus”, celebrou a deputada Bia Kicis.

Sua colega Carla Zambelli compartilhou um vídeo de Alexandre Garcia e chamou a reação da população contra o lockdown de despertar de um gigante. “Todo poder emana do povo”, vibrou também o deputado Eduardo Bolsonaro.

“Manaus tem queda importante dos óbitos desde julho, mostrando imunidade coletiva (de rebanho) em formação e se manteve assim até o último dia do ano. As escolas reabriram em setembro e não houve alteração da curva de óbitos”, garantia o ex-ministro Osmar Terra, espécie de oráculo para assuntos sanitários no entorno do presidente.

Eram todos “cúmplices” da tragédia, como resumiu Traumann na postagem.

Segundo o Simeam (Sindicado dos Médicos do Amazonas), a falta de oxigênio nos hospitais de Manaus já matou ao menos 19 pacientes entre a noite de quarta e a manhã desta quinta-feira (14).

“É um cenário de terror”, resumiu o presidente do sindicato, Mario Rubens Macedo Vianna.

Que os arquitetos desse cenário sejam devidamente responsabilizados por seu trabalho ao longo da tragédia anunciada.