Bolsonaro cita ditadura, Forças Armadas e diz que faz "o que o povo quiser"

Marcelo Freire
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Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 11 de março de 2021 (Reprodução)
Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 11 de março de 2021 (Reprodução)

Na mesma semana em que o Brasil atingiu recordes de número de mortes diárias na pandemia e cidades e estados veem seus sistemas de saúde se aproximarem do colapso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atacou governadores e prefeituras pelo endurecimento de medidas de isolamento social.

Em sua live nesta quinta-feira (11), ele ainda citou a ditadura militar brasileira (1964-1985) e falou que as Forças Armadas estão "acompanhando o que está acontecendo. Ele disse que deve "lealdade" ao povo brasileiro e que faria "o que o povo quiser". "Nós vivemos um momento de 64 a 85. Você decida aí e pense o que você achou desse período", disse em um determinado momento.

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"Estado de sítio" no DF

Bolsonaro passou toda a live defendendo a atuação de seu governo no combate ao coronavírus e voltou a listar seus argumentos de que o lockdown causa desemprego, mortes e aumento de suicídios para justificar que as medidas não deveriam ser adotadas – apesar de a situação nos hospitais brasileiros estar perto de viver um colapso pelo número galopante de pessoas infectadas com o vírus.

O presidente iniciou o assunto questionando a opinião do médico Marcelo Morales, secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), sobre o lockdown. "Não combinei com ele, não sei o que ele vai falar. Se não quiser falar, deixa comigo", disse Bolsonaro a Morales.

Quando o secretário iniciou a sua fala – "falando tecnicamente, depende de cada momento e situação..." –, Bolsonaro interrompeu e começou a falar sobre o tema. "Estamos em um lockdown há um ano e o vírus continua aí."

Sua primeira crítica direta foi ao governo do Distrito Federal, que determinou um toque de recolher entre 22h e 5h, com possibilidade de multar as pessoas que desrespeitarem o ato. "Isso é um estado de sítio. E cabe a mim decretá-lo, com autorização do Congresso brasileiro. O que o governador do DF está fazendo, eu não posso fazer. Isso é um crime", atacou.

"Vou ficar sozinho nessa briga?"

Na sequência, Bolsonaro passou a pedir apoio da população. "É nos momentos difíceis que a nação tem que se unir. Quanto mais atiram em mim, de forma covarde, por parte da sociedade, mais você está enfraquecendo quem pode resolver a situação. Como eu posso resolver a situação? Eu tenho que ter o apoio. Porque se eu levantar a caneta e falar 'shazam!', eu vou ser ditador. Vou ficar sozinho nessa briga?", questionou.

"O meu exército, que eu falo o tempo todo, é o povo. Devo lealdade a todo o povo brasileiro, que é toda sociedade, inclusive o exército fardado. A vocês eu devo lealdade. Eu faço o que vocês quiserem, porque essa é minha missão como chefe de estado."

Depois, o presidente disse que "vocês sabem quem está errando no Brasil, e errando muito". "Cada decisão que tomam. E você, que quer ser um democrata, tem que acolher. Mas tem decisões que são absurdas, eu sei disso. Busco o diálogo com alguns e falo que o caldo vai entornar. Por mim? Vai entornar por parte de quem? O povo com fome, a pessoa com fome, perde a razão, topa tudo. Estamos segurando o Brasil. Estou antevendo um problema sério no Brasil."

Bolsonaro disse que não falaria qual seria esse problema porque não quer ser acusado de estimular a violência. "Mas teremos problemas sérios pela frente. E nós sabemos quem está provocando esse problema", disse, antes de repetir sua acusação de que o Supremo Tribunal Federal decidiu que estados e municípios são responsáveis por decretar medidas de combate à covid-19.

"Faço o que o povo quiser"

O presidente continuou seu discurso criticando as medidas de distanciamento social e afirmou ter como "garantir a nossa liberdade". "Eu sou o garantidor da democracia, tendo em vista a situação que está acontecendo no Brasil. Usam o vírus para te oprimir, para te humilhar, para tentar quebrar a economia", atacou, criticando em seguida da proibição de cultos religiosos e de jogos de futebol, determinada no estado de São Paulo. "Não podemos deixar isso acontecer. Eu sou a pessoa mais importante nesse momento. Faço o que o povo quiser. Devo lealdade ao povo", repetiu.

Em seguida, ele diz não querer ser tratado como "mito, messias ou herói nacional". "Quero apenas respeito, e entender o que posso fazer para evitarmos o caos. Assim se rouba liberdade de um povo", afirmou, atacando novamente o que chamou de "estado de sítio" no Distrito Federal. "Com um povo com fome batendo na cabeça, ninguém consegue exercer autoridade. É um caos. A quem interessa o caos no Brasil? Com quem que um governador negocia fora do Brasil, de forma explícita? Não vou falar nomes aqui. Quem tem o mínimo de inteligência consegue entender. O que está em jogo é a sua liberdade."

"Faço o que o povo quiser. E digo mais: sou chefe supremo das Forças Armadas. As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais... não é o momento de fazer isso. Se um general errar, paciência, vai pagar", disse o presidente, antes de citar a ditadura militar que governou o país por mais de 20 anos.

"Nós vivemos um momento de 64 a 85. Você decida aí e pense o que você achou desse período. Não vou entrar em detalhe aqui. Nunca fugi da verdade. Mas a verdade incomoda muita gente. Não vou mudar minha maneira de ser."