Boleiros pelo mundo: da oportunidade em uma liga pequena à seleção da Armênia

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Marcos Pizzelli atua pela seleção da Armênia há mais de dez anos (Divulgação)
Marcos Pizzelli atua pela seleção da Armênia há mais de dez anos (Divulgação)

Por Rodrigo Herrero (@rodrigoherrero)

Todo jogador que busca ter sucesso na carreira sonha não apenas em jogar no exterior, mas também vestir a camisa da Seleção Brasileira e representar milhões de compatriotas dentro de campo. Mas às vezes a vida vai por caminhos pouco imaginados e, de repente, surge a chance de defender outra seleção, outra bandeira.

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Foi o caso de Marcos Pizzelli, 34 anos, que há 10 defende as cores da Armênia. Atualmente no Aktobe, do Cazaquistão, o brasileiro naturalizado armênio atuou por cinco temporadas na liga armênia e já defendeu a seleção do leste europeu por mais de 60 partidas, anotando 10 gols. Conhecido e prestigiado pelo público local, Pizzelli demonstra toda a gratidão por essa relação construída após muitas temporadas.

“A Seleção da Armênia é meu xodó, tenho um carinho todo especial pelo país. Por mais que no início tenha sido complicado, foi um pessoal que me deu uma oportunidade, a federação sempre me apoiou, tenho amigos na Armênia até hoje”, conta.

Mas como deixa clara a fala do rapaz nascido em Piracicaba, mas criado em Leme, no interior de São Paulo, o começo foi muito difícil e quase a história tomou rumo diferente. Após conquistar o título da quarta e última divisão do Campeonato Paulista pelo São Carlos em 2005, Pizzelli, então com 22 anos, e outros companheiros foram levados para a Armênia por um empresário e ex-jogador armênio.

“O primeiro ano foi horrível tanto para viver como em termos de futebol. A qualidade de vida é muito distante da que existe na Europa Central, foi um choque cultural muito grande. Já tinha um brasileiro no time, o Renato de Moraes, e ele falava um pouco a língua local e foi uma mãe para a gente. Ele ajudava na comunicação, seja para acertar o contrato, comer, ir no mercado. Os produtos no mercado vêm todos da Rússia e eu não tinha ideia do inglês, menos ainda do russo, até para comprar sal era difícil. Fiquei três meses sozinho. A princípio eu queria voltar, mas o meu time, o Ararat Yerevan, e o São Carlos fizeram um grande esforço para que eu permanecesse. Depois a minha noiva veio, aí ficou melhor”, relata.

As coisas melhoraram para o brasileiro a partir do segundo ano também dentro do campo. O desempenho começou a dar resultados e tudo passou a dar certo. Em 2007 ele foi o artilheiro do campeonato e, no ano seguinte, também foi um dos destaques, ajudando o Ararat Yerevan a conquistar a Copa da Armênia. Em 2009, já no Pyunik, foi campeão nacional e da copa, conquistando o bi das duas competições em 2010. Diante do crescimento do seu futebol e da possibilidade de naturalizá-lo apenas após três anos jogando no mesmo país – hoje a regra obriga há pelo menos cinco anos –, a Federação de Futebol da Armênia fez o convite para Pizzelli ingressar na seleção.

“A seleção da Armênia estava em um período transição entre 2008 e 2010, alguns jogadores estavam se aposentando. E nisso estava surgindo uma nova geração, muito boa, como é o caso do Mkhitaryan que defende o Arsenal, entre outros. E como o campeonato local não tem muita visibilidade ao se comparar na região com o Cazaquistão e com a Rússia, achei uma boa oportunidade me naturalizar, também pelo fato de poder disputar partidas na Europa Central, seria interessante para a minha carreira. E de fato foi, pois se eu não tivesse me naturalizado, não teria chegado aonde cheguei”, afirma o atleta que depois passou pelo futebol ucraniano, russo, grego, saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

Com Pizzelli, Mkhitaryan e outros jovens jogadores em crescimento, a Armênia conseguiu fazer bons papéis nas eliminatórias para a Eurocopa de 2012 e para o Mundial de 2014, dentro, claro, do que é possível para o pequeno país de pouco mais de 3 milhões de pessoas e que fica no extremo leste da Europa.

“Nós batemos vários recordes. Foi a primeira vez a seleção ganhou por quatro gols de diferença e que fez mais de 10 pontos nas eliminatórias (17 na qualificatória para o torneio europeu e 13 na eliminatória mundial). Nesse período da seleção eu ganhei destaque. E ao contrário do clube, na seleção a adaptação foi tranquila, porque eu já entendia melhor o idioma, tinha tradutor”, lembra.

De fato, na fase classificatória para a Euro-2012, a Armênia ficou a quatro pontos da repescagem e ainda aplicou quatro gols em três partidas: jogando em casa fez 4 a 0 sobre Andorra e 4 a 1 na Macedônia. E fora dos seus domínios anotou 4 a 0 na Eslováquia. Nas eliminatórias para o Mundial do Brasil o desempenho foi inferior, longe de qualquer chance de classificação, mas a equipe conseguiu bater a Bulgária em casa e a República Tcheca fora (ambos por 2 a 1) e ainda aplicar sonoros 4 a 0 sobre a Dinamarca fora de casa.

Recentemente, a seleção começou a disputa da Liga das Nações, nova competição da UEFA, com vitória por 2 a 1 sobre o Lichtenstein, em casa, e derrota por 2 a 0 para a Macedônia, fora. Um dos gols da vitória na estreia, aliás, foi anotado pelo brasileiro.

“Está uma euforia enorme na Armênia porque é uma chance para as seleções em baixa no ranking. Trocaram o presidente da federação e a liga local aumentou o número de times e o limite de estrangeiros para tentar melhorar a qualidade da liga. A expectativa é a melhor possível, já que a competição é tiro curto, então, é uma chance e tanto, mas o é grupo nivelado e com jogos equilibrados”, revela Pizzelli, direto da Armênia, em entrevista feia um dia antes da estreia vitoriosa em casa.

Como os brasileiros que jogam atualmente veem a liga e a vida na Armênia

Walmerson em atuação pelo Banants Yerevan (Divulgação)
Walmerson em atuação pelo Banants Yerevan (Divulgação)

Apesar de ainda ser pequena, a liga armênia tem buscado crescimento nos últimos anos e conta com a participação de mais estrangeiros nos clubes, além, é claro, de brasileiros, que continuam com as portas abertas no país.

“As pessoas gostam muito do futebol brasileiro pessoal e isso facilita para a gente que chega no país. E o armênio é um povo alegre. Quando estou no táxi o motorista pergunta de onde sou e quando falo que sou brasileiro eles ficam felizes e começam a perguntar coisas, falar do Rio de Janeiro, do Carnaval. É um povo bem tranquilo e que gosta de brasileiro”, conta o atacante Walmerson, 24 anos, que está no segundo ano no futebol armênio.

Walmerson foi para a Armênia após conquistar o estadual do Mato Grosso em 2016 pelo Luverdense. Primeiro ele jogou no Gandzasar e depois foi transferido para o Banants, onde está atualmente. Um dos motivos para essa mudança foi a estrutura encontrada no time da capital Yerevan. “Eu troquei de clube por causa da estrutura. O Banants tem uma estrutura que muito time no Brasil não tem, até equipes de Série A não tem, campo, centro de treinamento, estádio, a estrutura é muito boa e o salário é pago em dia”, analisa.

Mas apesar da evolução e da estrutura, o futebol armênio ainda precisa evoluir dentro de campo para se destacar no cenário internacional, ao menos é o que pensa o atacante Fagner, 20 anos, que chegou no país no começo do ano e é companheiro do Walmerson no Banants.

Fagner durante treino na Armênia. Foto: Divulgação
Fagner durante treino na Armênia. Foto: Divulgação

“O jogo é um pouco fraco, pois eles trabalham mais a parte física, força. Armênio só sabe correr e marcar, na técnica é difícil. O bom é que consigo eu consigo me diferenciar. Brasileiro tem um peso grande aqui, porque eles acham que todos são craques, então a responsabilidade é maior. Quando erra, a cobrança também”, afirma Fagner.

Fagner foi para a Armênia sozinho tentar se firmar profissionalmente e conseguir uma boa proposta no futuro para dar continuidade em sua carreira que está apenas iniciando. Com apenas 20 anos, ele sofre um pouco para se adaptar à nova realidade e revela um outro lado da vida do jogador brasileiro na Armênia.

“No começo foi ruim porque eu nunca tinha viajado para fora, foi difícil por causa da comunicação. Quando cheguei não conseguia falar inglês. Agora estou estudando e consigo me comunicar mais facilmente. Mas na rua é um pouco estranho porque as pessoas ficam reparando em você, algumas ficam com medo porque não tem muitos negros e morenos por aqui. E é ruim porque de repente você passa por duas pessoas conversando na rua e elas ficam olhando e você não entende a língua para saber o que estão falando”, observa.

Em compensação, Fagner encontra um certo aconchego no centro de treinamento do Banants, onde mora com outros jogadores e tem ainda acesso à piscina e à academia do clube, fazendo com que ele permaneça mais tempo ali dentro. Trata-se de um verdadeiro caldeirão cultural, já que ele compartilha o dia a dia com dois ganeses e um francês, que também residem no clube. “É uma convivência boa, ficamos todos juntos. São culturas diferentes, mas acaba sendo uma oportunidade de aprender um pouco também, sobre a cultura, a língua”, diz.

O problema de morar no clube é se adaptar à comida, uma das grandes reclamações dos brasileiros que jogam no exterior. “Foi difícil se adaptar, pois eles não comem feijão e você sabe como brasileiro é. Eles comem mais frango, macarrão, bastante sopa. E no CT tem que comer o que eles dão. Frango e macarrão não é ruim, ruim é comer isso todo dia. Só quando vou num restaurante, aí encontro outras variedades, carne assada, mas não tem churrasco como no Brasil”, afirma Fagner, que pensa sem e destacar no Banants para poder comprar um apartamento e levar os pais que ficaram no Brasil.

Walmerson diz ter encontrado feijão na Armênia, mas reconhece que o sabor não é o mesmo do que é feito no Brasil. E além da alimentação, ele também sofreu para entender o idioma armênio. Mas foi o frio o que mais o atrapalhou no começo.

“O frio começa em outubro, mas dá para aguentar. Só que a partir de dezembro começa a nevar e em janeiro fica bem forte. É um frio bem complicado, chega nas extremidades do corpo, congela tudo, fere a boca, o nariz, dói o rosto, é terrível. O bom é que fazemos a pré-temporada no Chipre, na Turquia, em lugares com uma temperatura melhor e, ao voltar, pelo menos já parou de nevar, mas o frio continua. Tanto que nos cinco, seis primeiros jogos as partidas acontecem em gramado sintético porque o gramado está todo queimado”, destaca.

Casado e com uma filha de quatro meses, Walmerson passou um tempo sozinho na Armênia devido ao nascimento do bebê. Com a família completa novamente, ele busca aproveitar o tempo livre que tem entre os jogos e treinos para curtir as duas e sai pouco na capital Yerevan. “Eu sou bem caseiro, então quando tem alguma folga a gente até sai, vamos ao shopping, a um restaurante, mas é mais comum a gente ficar em casa, assistindo algum filme. Não é uma cidade tão desenvolvida, mas tem tudo o que você precisa e é muito tranquilo e seguro”, comenta.

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