Em 20 anos, você terá um coração biônico: separe (muito) dinheiro

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Roy Batty, o replicante de 'Blade Runner': filme se passa em 2019, mas ciborgues ainda estão longe da realidade (Foto: Reprodução)
Roy Batty, o replicante de 'Blade Runner': filme se passa em 2019, mas ciborgues ainda estão longe da realidade (Foto: Reprodução)

Por Matheus Mans

Esqueça o personagem de Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro ou o clássico RoboCop, de 1987. Apesar de ser uma inovação vinda diretamente da ficção científica, os “ciborgues” estão cada vez mais humanos e próximos da realidade. As impressoras 3D aprimoraram próteses e avançaram na criação de tecidos biológicos feitos em laboratório, nas duas áreas mais investidas da biotecnologia.

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“Com a realidade da impressão 3D, já vemos protótipos de órgãos artificiais. E na área de próteses, já temos dispositivos biônicos funcionais e com forte inovação tecnológica", explica Paulo Noronha Lisboa Filho, pesquisador associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) especialista em síntese química de nanopartículas.

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O dinheiro, entretanto, tem sido um dos principais entraves para a popularização dessa fusão de medicina e tecnologia. As próteses mais avançadas, que praticamente substituem um braço ou uma perna, são caras demais para sair dos laboratórios. Já os órgãos ainda encontram dificuldades em sua elaboração, tamanha a complexidade do corpo humano.

Entre os especialistas consultados pelo Yahoo, a projeção mais otimista para que você tenha um coração ou um fígado criado em laboratório seja, no melhor dos cenário, de 20 anos. A pesquisa sobre órgãos impressos precisa sair das universidade e ganhar o mercado. Startups e grandes empresas precisam encontrar meios de levar inovação barata e inteligente para a tecnologia. Se esse é “pulo do gato” ainda não aconteceu com as próteses biônicas, o horizonte dos tecidos parece ser ainda maior.

“É muito complicado imprimir uma coisa e falar que ela está pronta para substituir o fígado, o pulmão, o coração de alguém. É muita responsabilidade”, continua César Funchic. “Além disso, como vai ser a regulação dessa história? Quem vai fiscalizar médicos e cientistas brincando de ser uma divindade? É complicado. Tem muita água para rolar ainda por aí”.

Já Shaochen Chen, pioneiro em pesquisas de impressão 3D e professor de nanoengenharia na Universidade de San Diego, ressalta que será preciso ter parcerias com governos. Mas que o cenário é positivo. “É um futuro brilhante. As pessoas viverão mais e melhor. Tenho certeza de que tecidos humanos serão impressos nos laboratórios”, finaliza.

Próteses sensíveis

O grande ponto das próteses biônicas é o fato de que elas, apesar de mecânicas, atuam no organismo do paciente de maneira natural e integrada. Ou seja: a pessoa consegue fazer movimentos delicados e ter um controle maior. Além disso, algumas empresas já atuam no sentido de dar sensibilidade. Por meio de conexões diretas com o cérebro, as próteses são “sentidas” pelo paciente. Assim, funcionam como se fossem extensões naturais.

Nicolelis faz os últimos ajustes no exoesqueleto que ajudou a dar o pontapé inicial da Copa do Mundo, em 2014 (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)
Nicolelis faz os últimos ajustes no exoesqueleto que ajudou a dar o pontapé inicial da Copa do Mundo, em 2014 (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

Apesar de diversas empresas, startups e universidades desenvolverem a tecnologia ao redor do mundo, o grande destaque é brasileiro. O cientista Miguel Nicolelis é reconhecido internacionalmente pelo seu projeto Andar de Novo, que tem desenvolvido próteses biônicas nos últimos anos. O ápice de Nicolelis foi na Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, quando um paraplégico, munido da prótese, deu o chute inicial do evento de futebol.

Vários outros casos surgiram de lá pra cá no laboratório de Nicolelis. No meio deste ano, dois pacientes com paraplegia crônica "foram capazes de caminhar com segurança, apoiados em 70% do peso do próprio corpo, acumulando ao todo 4.580 passos", segundo estudo publicado pelo brasileiro. É um grande avanço. No entanto, especialistas do setor ainda alegam que falta muito para que as próteses saiam de dentro dos laboratórios.

“O trabalho do Nicolelis é absolutamente irretocável. Não tem ninguém no mundo que faça algo como ele”, afirma o pesquisador em novas tecnologias biológicas, César Funchic. “Mas não podemos deixar de destacar que o custo é muito, muito alto. É uma solução que ainda tem dificuldades para sair pra rua, pra vida. Acredito que muito dinheiro ainda precisará ser injetado para que isso aconteça. Será que alguém fará isso? Daremos esse passo?”.

Alternativas viáveis

Enquanto as soluções de Nicolelis são desenvolvidas a custos altos e longos prazos, outras startups e institutos de pesquisa avançam em próteses mais simples a partir de impressoras 3D. São menos complicadas, com design mais interessante e adaptáveis à cada paciente.

Um desses casos é o Programa de Extensão Mao3D, coordenado pela professora Maria Elizete Kunkel, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Centro de Reabilitação Lucy Montoro, de São José dos Campos. O programa desenvolve próteses customizáveis para crianças e adolescentes. Isso faz com que o uso de próteses se torne um processo mais sensível e amigável.

“O Mao3D segue um movimento internacional de fazer próteses por impressão 3D para crianças. Como a ONG eNable, dos Estados Unidos, elas podem ser adaptadas e personalizadas com desenhos coloridos ou super-heróis”, explica a coordenadora. “Hoje, somos o programa que faz o desenvolvimento e doação de próteses para crianças no país”.

Outra startup de próteses que tem chamado a atenção é a Figment Face, que produz próteses 3D para o rosto de pacientes. A empresa escaneia o rosto e depois produz a prótese, para ser o mais parecida possível com a pele e com o formato de rosto da pessoa. Dessa maneira, a startup consegue reduzir entre 20% e 30% o valor praticado no mercado nacional e internacional para próteses faciais.

“Hoje, nós focamos em biomodelos de próstata e próteses faciais. Com o tempo, as próteses se tornarão cada vez mais personalizadas e atualizadas com valores competitivos, a área da biotecnologia aumentará a velocidade da inovação em campos de menor regulamentação”, conta Bárbara Artioli, fundadora da startup.

Um coração biônico para chamar de seu

Além das próteses, talvez não demore muito até que você tenha um órgão criado em laboratório. Para isso, cientistas usam impressoras 3D de um jeito diferente. No lugar dos polímeros, como usual, entram as biotintas — uma espécie de hidrogel que, após a impressão, recebe um banho de células do tecido a ser produzido. Aos poucos, o material “se torna” o tecido do órgão.

A Universidade de Tel-Aviv, em Israel, é uma das mais bem-sucedidas na técnica. Em março deste ano, uma equipe de cientistas apresentou um protótipo de coração humano impresso. Tinha tecido humano, vasos sanguíneos e tudo mais. O único problema é que o órgão era do tamanho de uma cereja. 

Primeiro coração vascularizado foi impresso em abril de 2019, por cientistas da Universidade de Tel Aviv (Foto: REUTERS/Amir Cohen)
Primeiro coração vascularizado foi impresso em abril de 2019, por cientistas da Universidade de Tel Aviv (Foto: REUTERS/Amir Cohen)

O órgão batia, mas não bombeava sangue. E os vasos, após testes, se mostraram frágeis e precários. Ainda está distante do coração humano.

“Tel-Aviv foi a que chegou mais longe. E, ainda assim, o que eles apresentaram está anos-luz do ideal. Vejo duas décadas de testes para esse coração de coelho se transformar em algo”, afirma o professor de biotecnologia, Ricardo Félix. “O próximo passo em Israel, depois disso, é ir para o mercado fazer pesquisa aplicada. De novo, chegamos ao dinheiro”.

Já a principal empresa do setor, e que está tentando vencer a transição entre laboratórios e mercado, é a sueca Cellink. A startup já consegue imprimir tecido humano, seja de órgãos ou de peles, em alguns poucos minutos — um nariz com pele feita em laboratório, por exemplo, fica pronto em não mais do que 30 minutos. Mas os usos são restritos.

Erik Gatenholm, fundador da empresa, conta que a maioria das aplicações biomédicas em tecidos impressos em laboratórios são usados unicamente para testes médicos, cosméticos e farmacêuticos. Enquanto isso, a empresa também comercializa biotinta e impressoras para mundo todo. “O desafio é mudar a medicina”, disse ao Yahoo

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