Biden, um afago para a América again: 4 imagens que construíram o democrata que venceu

Leticia Quatel
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No calendário das efemérides globais, o dia 7 de novembro de 2020 será o dia mundial da derrota de Trump para Biden. Na história das eleições, talvez, essa tenha sido uma das mais maniqueístas sob o ponto de vista da construção da identidade de figuras políticas por meio da imagem.

O mundo parece ter se sentido afagado e ficado satisfeito com a vitória apertada de Joe Biden, que se tornou o 46º presidente da maior potência mundial, os Estados Unidos. “É uma passagem para fazer história, um repúdio a Trump e uma nova página para a América”, escreveu Hillary Clinton, que concorreu com Donald Trump nas eleições de 2016, em sua conta no Instagram.

O Duelo Biden x Trump, certamente, não pareceria se tratar de escolhas tão opostas se não fosse a identidade construída e a forma como foram intensamente retratados. É muito provável que o que separa Biden de Trump é mais uma questão de modos e de comportamento aparente do que, de fato, de propostas e vieses ideológicos. E ainda assim, a vitória de Biden foi o suficiente para o mundo respirar, pois na verdade seu significado parece estar mais ligado com a queda de Donald Trump do que com qualquer outra contribuição que Joe Biden possa trazer para a nação norte-americana e para o mundo.

Biden nem assumiu a cadeira ainda. Não temos como arriscar sobre como o seu histórico como presidente dos Estados Unidos, mas podemos analisar o discurso estético e imagético que pode, sim, ter ajudado a elegê-lo somado a uma série de outros contextos.

Enquanto Donald Trump se agarrou em uma imagem truculenta, hostil e tosca – mas que funcionou, tanto que ele foi eleito em 2016 e não ficou muito longe da vitória em 2020, Biden vem com uma construção de identidade imagética oposta. “O Biden, diferentemente do Trump, é retratado ou publicado como sendo uma figura acolhedora, um pai, está sempre sorrindo e de braços abertos, o que é um sinal de abertura para o outro”, diz Simonetta Persichetti, crítica de fotografia e professora do curso de jornalismo e do mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero.

Trump vem de um histórico conhecidamente arrogante. Ganhou fama pelo jargão dito de forma virulenta “You’re fired!” (em Português, “você está demitido”) no reality show “The apprentice” (O Aprendiz). Biden carrega tragédias pessoais. Perdeu a primeira esposa, Neilia Hunter, e sua filha de um ano em um acidente de carro quando saíram para comprar uma árvore de Natal. Seus dois filhos ficaram gravemente feridos, mas sobreviveram ao acidente. O mais velho, Beau, morreu vítima de câncer em 2015. Além disso, Biden carrega em seu histórico político a vice-presidência no aclamado governo de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, e hoje, traz Kamala Harris, a primeira mulher negra eleita vice-presidente do país norte-americano. São contextos muito decisivos para a construção identitária destes políticos. Fica mais fácil ter uma simpatia pelo Biden.

Fica muito evidente que a construção da identidade de Joe Biden e de Donald Trump se deu de forma bastante maniqueísta. Isto é, independentemente de propostas e ou vieses ideológicos, um ganhou a conotação de vilão, Trump, enquanto o outro, Biden ganhou, a aura de mocinho e salvador da pátria. Esse reducionismo tende a ser perigoso, pois pode nos tirar a criticidade a respeito de uma determinada personalidade. “As imagens, em seus diversos contextos e sistemas onde são veiculadas, operam discursivamente produzindo modelos identitários, suscitando sentimentos, desejos e motivações. Elas ajudam a moldar a percepção do eleitor sobre um determinado candidato”, afirma Rodrigo Sanches, doutor em psicologia pela USP e pós-doutorando em Comunicação. Em síntese, “Toda e qualquer imagem é uma construção a partir de um viés ideológico. Não existe imagem inocente, muito menos na política”, diz Simonetta.

O que se pode analisar é que o discurso estético e imagético conta muito. Ganhou um homem, aparentemente, sóbrio, simpático e acolhedor, pelo menos do ponto de vista da imagem. Talvez a vitória de Biden seja mais uma vitória pela estética do que pela política. “Em uma campanha eleitoral, na maioria das vezes o candidato é retratado de acordo com uma série de artifícios comunicativos. Estratégias de comunicação são empregadas para vender uma ideia, um conceito, um personagem”, diz Rodrigo Sanches. Nos resta agora é compreender, nos próximos anos, como será a figura de Joe Biden frente à maior economia do mundo com a consciência de que a imagem é uma importante fonte documental, mas que não é nenhum atestado de prova da verdade absoluta. “Há um abismo entre o ser humano e o político com a consciência de que nem tudo o que se vê é. As imagens não retratam a realidade pura e simplesmente, mas fragmentos da realidade”, afirma Rodrigo.

O que fica claro é que a estética é, sim, um ponto decisivo sobre muitos aspectos da vida e da história, especialmente na política.

REUTERS/Jonathan Ernst
REUTERS/Jonathan Ernst

“O Biden, diferentemente do Trump, é retratado ou publicado como sendo uma figura acolhedora, um pai, está sempre sorrindo e de braços abertos, o que é um sinal de abertura para o outro”, diz Simonetta Persichetti.

REUTERS/Elijah Nouvelage
REUTERS/Elijah Nouvelage

Fica muito evidente que a construção da identidade de Joe Biden e de Donald Trump se deu de forma bastante maniqueísta. Isto é, independentemente de propostas e ou vieses ideológicos, um ganhou a conotação de vilão. Fica mais fácil ter simpatia pelo Biden.

REUTERS/Elizabeth Frant
REUTERS/Elizabeth Frant

O que se pode analisar é que o discurso estético e imagético conta muito. Ganhou um homem, aparentemente, sóbrio, simpático e acolhedor, pelo menos do ponto de vista da imagem.

REUTERS/Shannon Stapleton
REUTERS/Shannon Stapleton

Biden carrega em seu histórico político a vice-presidência no aclamado governo de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, e hoje, traz Kamala Harris, a primeira mulher negra eleita vice-presidente do país norte-americano. São contextos muito decisivos para a construção identitária destes políticos.