'BBB 21': o que está acontecendo com Lucas Penteado e a sociedade?

Marcela De Mingo
·6 minuto de leitura
Lucas Penteado tem sido excluído da vivência e maltratado desde a festa de sexta-feira (29) (Foto: Instagram / Lucas Penteado)
Lucas Penteado tem sido excluído da vivência e maltratado desde a festa de sexta-feira (29) (Foto: Instagram / Lucas Penteado)

Pois é, o que parecia ser um respiro em tempos tão complexos, virou quase uma exposição de crueldade. O 'Big Brother Brasil 21' começou há uma semana e não sai dos assuntos mais comentados do Twitter. No entanto, longe de ser um entretenimento saudável, vimos muitos usuários nas redes sociais revoltados com uma única questão: o tratamento recebido por Lucas Penteado.

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A participação do brother já começou complexa - na festa da última sexta-fera (29), bebeu demais, falou bobagens e propôs união dos participantes pretos contra os brancos da casa. Sim, a causaria por parte dele foi grande, mas quem nunca errou - ainda mais por beber demais - que atire a primeira pedra.

Desde então, a casa se uniu, sim, mas contra o próprio Lucas. No que parece ser uma cruzada contra o participante, Karol Conká virou inimiga número 1 nas redes sociais por excluir Lucas da convivência em grupo e, inclusive, dizer que ele só poderia comer depois que ela saísse da mesa.

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Estamos vendo, ao vivo, como funcionam situações de terror psicológico - o que rendeu, inclusive, pedidos de expulsão de Karol do programa, na última segunda-feira (1º). Há de se pensar outra coisa também: como é cruel e complexo, depois do ano que todos tivemos, ver os efeitos diretos e tão escancarados do confinamento na saúde mental de alguém.

Já falamos sobre isso outras vezes. No ano passado, observamos de perto os comportamentos de Gabi, que claramente contava com a presença de um desregulamento emocional. Houve, inclusive, conversas sobre como ela não pôde levar os medicamentos que tomava para a casa e continuar o tratamento contra a depressão.

Lázaro Ramos, aliás, usou o seu perfil no Instagram para comentar o caso, em um texto absolutamente empático, que explica como é possível ver o sofrimento do participante daqui de fora e que os sinais vão além de uma noite com bebida demais e filtro interno de menos.

"Ver você com a cabeça tomada pelo que parece ser alopécia, que é essa doença causada pelo estresse, dá angústia. Ver você passar da euforia para esse desespero e solidão, dispara vários gatilhos como falei no texto anterior, mas saiba que sua família te ama e tem muita gente que está compreendendo o que você está passando e enviando energias para que você possa aguentar firme e sair desse programa maior do que quando entrou", escreveu ele.

De fato, os sinais estão ali e vemos, ao vivo, como o confinamento pode mexer com o emocional de uma pessoa e como ela, sem suporte, pode espiralar para sensações de tristeza, solidão e desespero. Se, na vida cotidiana, o medo da exclusão, de não sermos aceitos e de passarmos a vida sozinhos já é o suficiente para abalar o emocional de qualquer pessoa - não à toa, a depressão é uma das doenças mais incapacitantes da atualidade, segundo a Organização Mundial da Saúde -, o que dirá em um ambiente totalmente controlado, em que a única forma de continuar no jogo é se unindo às outras pessoas?

Em 2020, cada um de nós percebeu os efeitos de viver o seu 'BBB' particular. As ligações para serviços de apoio emocional, como o CVV, tiveram um aumento significativo durante o período de quarentena, em maio passado. Os números de denúncias de violência doméstica cresceram 50% em cidades como o Rio de Janeiro. Ainda não é possível mensurar, totalmente, o impacto que o isolamento terá em crianças que estão em idade de socialização, crucial para o seu desenvolvimento. Aliás, pode-se facilmente colocar a "culpa" de tudo isso em cima do isolamento, mas ele segue sendo necessário para a contenção de uma pandemia que, só no Brasil, já causou mais de 200 mil mortes - a questão, de fato, não é essa.

Ela começa com algo mais simples e direto: governança (ou falta dela). Depois, precisamos olhar para as pessoas: a saúde mental e a educação que recebem, o que se reflete na sua capacidade de identificar violências e como lidar com as próprias emoções. Dizem que terapia é um bem necessário a todas as pessoas, independentemente de questões de saúde mental, mas falar sobre o assunto ainda é tabu. No fim das contas, uma pessoa mentalmente abalada, como Lucas claramente parece estar, fica cada dia mais vulnerável diante de comportamentos reativos que não acolhem sua dor, mas a consideram "abuso" (palavras da própria Conká, diga-se de passagem).

Entra em cena Projota, ídolo de Lucas, que, em uma conversa sincera, disse o que ninguém mais se propôs a dizer: que a terapia é necessária e que se o participante precisar de ajuda para fazer um tratamento psicológico ao sair da casa, ele banca.

Errar, todo mundo erra. É impossível, ao final do dia, seguir absolutamente à risca todas as regras que o mundo propõe, sem quebrar uma delas sequer. Até porque certo e errado são conceitos relativos que mudam de pessoa para pessoa, por isso, se já é difícil seguir as próprias regras, que dirá fazê-lo de acordo com as regras dos outros. O pedido de desculpas de Lucas foi abafado pelo cancelamento interno de pessoas que, veja só, estão fazendo de tudo para não serem canceladas pelo olhar público - missão essa que, de fato, não foi bem-sucedida.

Racismo

Impossível não citar também uma questão que, infelizmente, é estrutural no Brasil. O racismo. Enquanto participantes como Fiuk entram no confinamento aparentemente bem resolvidos, com uma carga de cuidados emocionais e tratamentos para transtornos de atenção, por exemplo, a comunidade preta, muitas vezes, passa longe desse mesmo conhecimento.

"Qual diagnóstico se dá para um homem negro cujas sequelas são violências advindas do racismo? Reformulo a pergunta: com qual idade, você pessoa preta, achou um profissional negro que entendesse suas subjetividades? Pessoas brancas entram nos realities já sabendo de seus transtornos, até nisto eles estão em vantagem", escreveu Nerie Bento, supervisora de curadorias do Centro Cultural São Paulo no Instagram. "Então o que resta? Acharmos que Lucas se perdeu no personagem, que tudo aquilo é forjado? Um menino da luta dos secundaristas, slammer, ator, que dias antes estava tentando falar sobre um quadro de depressão e foi interrompido pela Juliette branca, virou a coitada perseguida por Lumena e ai ele escolheu criar o caos, quando o único plano dele lá dentro é conseguir comprar a casa para mãe? Não acredito nisto!"

Para uma sociedade racista, o homem preto que perde o controle das próprias emoções é considerado um perigo e, como tal, deve ser excluído e abandonado.

Sua assessoria de imprensa, por exemplo, o deixou à mercê da internet, uma prova clara e concreta dessa visão. O acolhimento anda em falta e, de novo, depois do ano que todos tivemos, é cruel demais observar tamanha falta de empatia, vinda de tantas fontes diferentes. Se pudermos aprender qualquer coisa com esse 'BBB' é que o isolamento, seja ele físico ou mental, não faz bem a ninguém. As dores precisam ser acolhidas para que a solução se apresente e o desejo por mudança aconteça, mas isso só vai acontecer todos nós abaixarmos um pouco a bola da nossa arrogância de todos os dias e nos propusermos a ouvir antes de falar.

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