Bayern bateu Cruzeiro sob neve e confirmou seu 1º título mundial no Brasil

LUCIANO TRINDADE E BRUNO RODRIGUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para vencer a Copa Intercontinental (precursora do atual Mundial de Clubes da Fifa) de 1976 e conquistar o primeiro dos seus três títulos mundiais, o Bayern de Munique (ALE) venceu um jogo sob neve diante do Cruzeiro e depois viajou ao Brasil para confirmar a taça. Os bávaros, que estreiam às 15h desta segunda-feira (8) na edição de 2020 do Mundial, na semifinal diante do Al-Ahly (EGI), participaram pela primeira vez da competição naquele ano, contra os mineiros. Realizado no Estádio Olímpico de Munique em 23 de novembro, o primeiro jogo entre os vencedores da Libertadores e os campeões da Europa ocorreu sob um frio abaixo de zero, que provocou neve na cidade alemã, condição com a qual os brasileiros não estavam acostumados a jogar. "Alguns jogadores tiveram que tomar um golezinho, não sei se era um vinho quente ou um conhaque, para poder se esquentar", relembra o ex-meia Eduardo Amorim, titular na primeira partida com os alemães, à Folha de S.Paulo. "A gente ia tentar, nas características do campo, pelo menos um empate. Na neve, você vai dar um carrinho e queima toda a perna, era muito diferente." A delegação cruzeirense estava no hotel quando o goleiro Raul Plassmann recebeu um presente do camisa 1 do Bayern. "O [Sepp] Maier cedeu uma luva especial, porque ele [Raul] não tinha uma apropriada. Era tudo novo naquele Mundial, para eles e para nós", conta Amorim. O frio do Estádio Olímpico contrastava com o clima quente no vestiário do Cruzeiro, onde o técnico Zezé Moreira decidiu de última hora sacar o meia Dirceu Lopes, ídolo celeste e uma das referências daquele time. Ele havia se recuperado pouco tempo antes de uma lesão no tendão de Aquiles. "Eu treinei, joguei vários amistosos para recuperar a forma. Tinha certeza de que estava apto a jogar", afirma Dirceu. "Isso [ausência] influenciou no jogo. Os jogadores tinham um carinho muito especial por mim, ainda mais os que vieram da base." Do banco de reservas, ele viu os donos da casa abrirem 2 a 0, com Jupp Kapellmann e Gerd Müller. Lances em que nem as luvas novas do goleiro cruzeirense puderam ajudá-lo. "Quando eu entrei, já estava praticamente definido o jogo", reclama Dirceu. "E eu não tinha mais condições psicológicas com as coisas que aconteceram." No dia anterior ao duelo de volta, disputado no Mineirão em 21 de dezembro, jogadores e a diretoria cruzeirense travavam discussões sobre os valores da premiação que seria paga em caso de vitória. "Não era o momento para se fazer isso", admite Amorim. "Por incrível que pareça, foi o campeonato mais fácil que eu disputei e nós perdemos o título fora de campo". Apesar da derrota na ida, o ambiente externo parecia favorável ao Cruzeiro. O Mineirão recebeu um público de mais de 113 mil pessoas na decisão. "Ficou gente fora do estádio, sem conseguir entrar", recorda o ex-lateral uruguaio Pablo Forlán. O Bayern teve dificuldades para chegar a Belo Horizonte. Entre escalas desde a saída da Alemanha até o desembarque na capital mineira, foram mais de 20 horas de viagem. "Eles chegaram praticamente em cima da hora do jogo", relata Amorim. "Pensamos que era um grande trunfo para nós." Esse "nós" era formado por nomes como Jairzinho, campeão mundial com a seleção brasileira em 1970, Nelinho, Palhinha e Dirceu Lopes. Um esquadrão que havia conquistado a Libertadores de 1976 ao vencer o River Plate (ARG) na final. Nesse quesito, os alemães não ficavam atrás. O time de Munique contava com a base da seleção alemã campeã do mundo em 1974, com craques como Gerd Müller e Franz Beckenbauer, além do goleiro Sepp Maier, que seria o grande nome da final no Mineirão. Ainda que as discussões sobre o "bicho" tenham desestabilizado o Cruzeiro, quando a bola rolou a equipe mineira fez uma grande partida e criou várias chances de gol. Só faltou superar o camisa 1 do Bayern. "O Sepp Maier ganhou a partida. Eu nunca vi uma atuação de um goleiro como eu vi naquele jogo. Foi espetacular", diz Dirceu Lopes. "Fizemos de tudo para poder ganhar o jogo. Eles tinham vários jogadores perigosos: Müller, Beckenbauer, Rummenigge, Breitner. O Rummenigge caía para os dois lados. Não pudemos fazer um gol", acrescenta Forlán. O duelo terminou empatado em 0 a 0, garantindo o título mundial que se repetiria, já com outros formatos, em 2001 e 2013. Caso o Bayern confirme o favoritismo sobre o Al-Ahly, tentará o tetra diante de Palmeiras ou Tigres (MEX), na final marcada para quinta-feira (11), no Qatar. "Toda vez que tem Mundial de Clubes, eu lembro e fico triste por saber que o Cruzeiro podia trazido aquele troféu", constata Dirceu. Os mineiros também ficaram com o vice em 1997, derrotados novamente por alemães, dessa vez do Borussia Dortmund. "Para ser vice-campeão, é preciso chegar lá. E não é fácil. Há de se ganhar uma Libertadores. Dão menos valor a esse campeonato, mas tem seu valor. O caminho vai marcando a recompensa", diz Forlán.