Barros chegou ao Palmeiras para ser dirigente mais discreto que Mattos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Anderson Barros, 53, tem uma expressão para definir seu estilo de trabalho. Ele se autodenomina um "facilitador de processos". Dentro do Palmeiras, o diretor de futebol é visto como a antítese de Alexandre Mattos.

Por ser tão diferente do seu antecessor, conseguiu o emprego no final de 2019.

Ironizado por não usar WhatsApp e criticado por parte da torcida algumas vezes pelo que se considerou a ausência de reforços de peso (abundantes na era Mattos, que durou de janeiro de 2015 a novembro de 2019), Barros tem no currículo um título da Copa do Brasil, um Paulista e uma Libertadores em dois anos.

No próximo sábado (27), o Palmeiras volta a definir o título continental. Enfrenta o Flamengo, em Montevidéu.

O dirigente recusou todos os pedidos de entrevista da reportagem. Argumentou que o seu estilo de ficar nos bastidores dava certo e ele não mudaria.

A reportagem conversou nas duas últimas semanas com funcionários da Academia de Futebol, pessoas ligadas ao presidente Mauricio Galiotte, jogadores e empresários para traçar o perfil de um cartola que, se for preciso, aceita levar a culpa por decisões tomadas por outros.

Isso aconteceu quando se cogitou a contratação de Hulk, em janeiro de 2021. O atacante disse aceitar reduzir (mas não muito) o salário de cerca de R$ 2 milhões mensais que recebia na China. O negócio não foi adiante porque a ordem era fechar as torneiras e não gastar demais.

Abel Ferreira não queria o reforço. Não por sua qualidade técnica, mas porque o time estava prestes a decidir o título da Libertadores contra o Santos e a chegada de um jogador tão caro poderia influir no ambiente.

Ficou a imagem de que a "culpa" foi de Barros.

Ele foi indicado por ter fama de manter bons ambientes entre os atletas nos clubes em que passou desde que começou no futebol, no Flamengo, em 2004. Depois disso, passou por Figueirense, Coritiba, Vasco e Botafogo.

A ideia com a sua chegada era evitar alguém midiático como Mattos, que, incentivado pela própria diretoria palmeirense, transformou-se em nome mais famoso no clube do que a maioria do elenco. A pedido de Galiotte, chegou a fazer comercial do Avanti, programa de sócio-torcedor. O Palmeiras vendeu camisetas com a caricatura do diretor.

Para o bem e para o mal, o estilo de Mattos era se intrometer em diferentes aspectos da vida do clube. E venceu assim. Ganhou dois Brasileiros (2016 e 2018) e uma Copa do Brasil (2015). Mas por causa de uma sequência de maus resultados, proibiu funcionários do clube de usar a academia do centro de treinamento, por exemplo.

O desgaste seria inevitável e o responsável pelo futebol acumulou desafetos. Quando a hora de mudar chegou, a diretoria procurou alguém de perfil diferente. Achou Barros.

O substituto prefere fazer as refeições nas concentrações ou no CT em horários diferentes dos jogadores. Se precisa estar no mesmo ambiente, escolhe uma mesa distante, para dar liberdade ao grupo.

A recusa em usar o WhatsApp é por não gostar de conversas digitais. Prefere resolver por telefone ou, de preferência, pessoalmente.

Após o episódio em que Luiz Adriano mandou a torcida palmeirense calar a boca na partida contra o Sport, funcionários do alviverde ficaram alarmados pelo atacante não entender a gravidade da situação. Barros telefonou-lhe em seguida e, sem jamais alterar o tom de voz, explicou o problema que o centroavante havia criado e porque não poderia acontecer novamente.

O jogador disse ter entendido e lamentou a própria reação -ao ser substituído no clássico contra o São Paulo, há duas semanas, aplaudiu o público que o xingava no Allianz Parque e causou nova polêmica.

Anderson Barros nunca está no meio da roda de jogadores ou, como os boleiros dizem, "na resenha". Mas os atletas e empregados da Academia ressaltam que o diretor está sempre presente e, de longe, a observar o que acontece, com as mãos nos bolsos da calça.

O cartola sabe ter a imagem, para parte da torcida, de ser "devagar". A queixa é quanto a contratações. A resposta de Barros é tão simples que mesmo associados e conselheiros do clube, acostumados com os anos de bonança no mercado de transferência, se recusam a acreditar: ele não tem a chave do cofre.

A ordem que recebeu foi frear os gastos e utilizar mais jogadores das categorias da base. Ao mesmo tempo, garantir que eles não saíssem de graça ou por valores abaixo do aceitável, algo que aconteceu em algumas oportunidades na gestão de seu antecessor.

Aos poucos, achou um jeito de negociar nomes caros e pouco aproveitados, como Lucas Lima, Diogo Barbosa, Vitor Hugo e Borja. Deyverson foi e depois voltou. Quando Viña foi vendido por 11 milhões de euros (R$ 69 milhões pela cotação atual), o Palmeiras foi ao mercado para contratar Jorge e Piquerez.

Importante também para a diretoria foi manter o orçamento para acomodar a volta de Dudu, então emprestado para o Al Duhail, no Qatar. Um retorno que não era oficial, mas todos no Palmeiras sabiam que aconteceria. A ida do atacante ao Oriente Médio ainda rendeu 7 milhões de euros (R$ 44 milhões) ao clube.

Quando o colombiano Santos Borré, então no River Plate-ARG, foi cotado, Barros lembrou a Galiotte que a possível contratação receberia cerca de R$ 1,1 milhão por mês. E quando Dudu voltasse?

Ele conquistou pontos com funcionários e elenco por nunca ser visto nervoso ou gritando. Outro diretor palmeirense lembrou que quando Barros renova contratos de meninos da base, não tira fotos com eles para postar nas redes sociais.

O responsável pelo futebol é visto alegre após as vitórias e os títulos, mas nunca empolgado demais, segundo testemunhas. Em 2014, quando trabalhava no Coritiba, seu filho Pedro Paulo morreu ao cair da janela do apartamento onde a família morava, na capital paranaense. O pai estava em Chapecó, para uma partida do Brasileiro.

Quando soube de um profissional de imprensa que havia perdido um filho, ele pediu a profissionais da comunicação do clube para que conseguissem o telefone do jornalista, assim poderia ligar para prestar solidariedade.

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