Bandeira vê Flamengo campeão mundial e admite erros

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Bandeira foi presidente do Fla de 2013 a 2018 (Thiago Ribeiro/Agif)
Bandeira foi presidente do Fla de 2013 a 2018 (Thiago Ribeiro/Agif)

Lá se vão quase dez meses desde que Eduardo Bandeira de Mello deixou a presidência do Flamengo. E, depois de um longo tempo longe dos holofotes, o dirigente de 66 anos conversou com o Blog por quase uma hora, pelo telefone, para fazer um balanço das seis temporadas como presidente. Ele apontou acertos, reconheceu erros, explicou por que vendeu Paquetá antes da hora, encheu a bola de Vinícius Júnior... e deu suas impressões sobre o “novo Flamengo”, que tem empolgado tanto a ponto de causar a impressão de que o título do mundial, contra o Liverpool, é extremamente palpável.

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BLOG: Qual o sentimento do senhor ao ver o Flamengo brigando por dois títulos?
EDUARDO BANDEIRA DE MELO: Dois, não! Três. É bem possível que sejamos campeões do Brasileiro e da Libertadores. Estou bem confiante. E o Liverpool (no Mundial de Clubes) é freguês (risos).

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Segue acompanhando o time?
Vou a quase todos os jogos no Maracanã. Irei, inclusive, contra o Atlético-MG. Ninguém fica sabendo porque vou na arquibancada mesmo, como faço desde os tempos de criança. E, como torcedor, tenho gostado muito de tudo o que o time faz em campo.

Qual a participação do senhor neste momento de alta do Flamengo?
Não sou a pessoa mais indicada para avaliar. Pode ter gente que ache que eu tenho participação, vai ter quem ache que não... Mas estou muito feliz com a receptividade das pessoas nas ruas. Todas que me procuram agradecem bastante, são carinhosos... Até torcedores de outros times dizem que gostariam de algo parecido no clube deles.

Como avalia os primeiros nove meses da gestão do Rodolfo Landim?
Tenho acompanhado tudo muito à distância. Só espero que a administração seja feita de forma perene e o Flamengo siga sendo administrado com os mesmos princípios de responsabilidade e profissionalismo.

Mas há algo que preocupe em relação aos rumos do novo Flamengo?
Não estou acompanhando em detalhes, então não gostaria de fazer acusações irresponsáveis como sofri no meu tempo. Não tenho provas, nem evidências de coisas que ouvi falar. E é normal seguir o que deu certo. É extremamente possível, porque a casa está em ordem.

O Flamengo aumentou de R$ 18 milhões por mês para R$ 22 milhões o custo com salários de 2018 para 2019. É um crescimento natural?
Quanto mais o clube ficar poderoso, mais vai gastar com futebol. É absolutamente normal. A questão é não dar um passo maior do que aquele que você pode. Nos seis anos da nossa gestão, o Flamengo diminuiu seu endividamento de R$ 800 milhões para R$ 300 milhões. Se aumentar um pouco neste ano, não vejo problema. Pode ser uma estratégia. O problema é se subir a dívida ano após ano.

A grande crítica a sua gestão é em relação à falta de títulos importantes - em seis anos, o Fla só venceu a Copa do Brasil de 2013 e os estaduais de 2014 e 2017. Por que tão pouco?
Eu gostaria que o Flamengo tivesse ganhado mais do que ganhou, é natural. O importante é que eu fico tranquilo, porque fiz o melhor possível e deixei o clube em condição de ganhar tudo. Se não ganhamos lá, é uma pena. Mas daqui para frente, vamos recuperar isso.

Faltou o que para que coisas maiores fossem conquistadas?
É preciso lembrar que, antes, a gente brigava para não cair. O torcedor gritava “Libertadores, qualquer dia estou aí”. E parou de cantar isso porque passamos a estar todo dia na Libertadores. Virou coisa recorrente. Também batemos o recorde de pontuação do clube no Brasileiro por pontos corridos em 2016 e 2018. É inegável que o Flamengo mudou de patamar durante a nossa gestão.

Cogita um dia voltar a se candidatar à presidência?
Não tenho essa intenção. Cumpri minha missão e fiz o melhor que pude nos seis anos em que estive lá. Desde que deixei a presidência, nem tenho participado da vida política do clube. Não tenho mais qualquer vontade, até porque minha família sofre até hoje.

Sofre com o quê?
Por causa de uma série de problemas. Por exemplo: tentaram me expulsar do clube, alegando que entrei na Justiça contra o Flamengo, o que não é verdade. Inclusive, isso não prosperou e acabei deixando pra lá. Mas essa tentativa de expulsão chateou demais meus filhos e meus pais, que já são velhinhos...

Qual a responsabilidade da antiga gestão no incêndio que matou dez atletas das categorias de base no Ninho do Urubu?
Não gostaria de estar tocando nesse assunto.

Que nota daria para sua administração?
Sou a pessoa menos indicada para isso e respeito qualquer avaliação. Mas me orgulho de muitas coisas que eu e meu grupo conseguimos, como por exemplo reduzir a dívida do Flamengo de R$ 800 milhões para R$ 300 milhões. Não fiz nada sozinho e, se hoje, sou cumprimentado na rua, tenho de dividir os méritos com muita gente.

Qual foi o ponto alto da sua gestão?
Tem uma série de coisas muito positivas. Deixamos dois centros de treinamento excelentes, transformamos as categorias de base, acabamos com as dívidas trabalhistas... eram mais de 600 ações e nosso departamento jurídico conseguiu reduzir para quase nenhuma.

E do que o senhor se arrepende?
Não teria trocado tantos técnicos (foram 13, levando em consideração que Dorival Júnior esteve duas vezes, no começo e no fim da gestão). Algumas dessas demissões foram bem difíceis. Se pudesse voltar no tempo, hoje por exemplo eu não teria demitido o Zé Ricardo, o Maurício Barbieri... e o Dorival teria ficado para 2019. Só o demitimos da primeira vez, no início da administração, porque ele ganhava muito.

Vinícius Júnior, Paquetá, Léo Duarte... A venda de atletas, especialmente da base, se tornou em 2018 e 2019 a maior fonte de receita do Flamengo. Isso é mérito ou acaso?
Muito mérito nosso. Nos anos 80, o Flamengo foi campeão mundial com seu time formado pela base. Mas com o tempo perdemos isso. Tanto que nem no Rio éramos referência quando nosso grupo assumiu. Esse posto era do Fluminense. A ponto de a última venda boa ter sido do Renato Augusto (ele foi para o Leverkusen em 2008 e rende € 6 milhões). Passamos a investir em 2013 e começamos a colher os frutos no fim do segundo mandato. Hoje, o Flamengo tem atletas em todas as categorias de base da seleção.

O senhor não se precipitou ao vender o Paquetá em outubro? Foi para evitar que o Flamengo fechasse 2018 com déficit?
Não, de jeito nenhum. A venda foi também para conseguir motivar o jogador até o fim do ano. Já existia uma certa pressão da parte dele, por causa de seus 21 anos, alguém que não vinha das camadas mais favorecidas da sociedade e tinha a oportunidade de arrumar a vida dele e de duas gerações com a ida para o Milan.

Mas o valor de € 35 milhões não poderia ser melhor se a venda fosse adiada?
Negociamos o Paquetá por um valor próximo da multa, que era de € 45 milhões. Sem contar que existem uma série de gatilhos que podem aproximar essa negociação dos € 45 milhões. Inclusive, o Flamengo já deve ter recebido algo, por causa das partidas como titular disputadas pelo Paquetá no Milan e por causa das convocações para a Seleção Brasileira.

Quanto o Vinícius Júnior ajudou o Flamengo a alcançar os € 45 milhões na venda para o Real Madrid?
Ele ajudou demais, até por toda a ligação que tem com o Flamengo. A multa dele era de € 30 milhões e conseguimos vendê-lo por € 15 milhões a mais depois da disputa entre Barcelona e Real Madrid. Os empresários do Vinícius também foram super corretos com o Flamengo.

O Flamengo deve ficar com o Maracanã ou construir um novo estádio?
Eu sempre disse que o Maracanã jamais poderá existir sem o Flamengo. É perfeitamente possível que ele seja rentável na mão do Flamengo, apesar de ter sido mal concebido. Nós chegamos a fazer um plano comercial, mas nunca conseguimos convencer os governadores do Rio a anularem a licitação de 2012 e fazerem uma nova. Agora, ainda que de forma provisória, se conseguiu a administração e tudo leva a crer que o Flamengo será o concessionário em termos definitivos nesse novo edital. Aí, com 30 anos com a administração do estádio, dá para fazer uma série de intervenções que são necessárias.

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