Baixo orçamento e estudo de mercado: como o CSA montou o elenco para a Série A

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CSA renovou elenco para temporada 2019
CSA renovou elenco para temporada 2019

Por Rafael Brito e Josué Seixas

Imagine passar quatro anos observando um jogador e propor o contrato quatro meses antes da apresentação. Às vezes, é uma aposta que dá muito errado: jogador fica sem ritmo, não rende, a torcida cobra e ele vai embora. Ninguém fica sabendo desse esforço. Só que também dá certo.

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Em dezembro, a contratação do zagueiro Luciano Castán foi confirmada oficialmente. Ele saiu do Al-Khor, do Qatar, quatro meses antes. O técnico Marcelo Cabo conhecia o jogador desde 2015, e o pré-contrato foi assinado em agosto. Ele é o jogador que segue o exemplo do começo dessa reportagem e que está dando certo. Foi personagem de destaque na decisão do Alagoano. Elencos são feitos assim, com observação.

O desejo de retornar ao Brasil era grande. Doze anos fora, com uma rápida volta de seis meses nesse período. Conversa vai, conversa vem... Um lado cede de um jeito, o outro lado abre mão, e as partes chegaram ao acerto salarial. Enfim, o atacante Patrick Fabiano voltou ao Brasil e é o artilheiro do CSA no ano. Elencos são feitos assim, com diálogo.

A disputa por posição estava pesada. Diego, Vitinho, Everton Ribeiro... Gabigol, De Arrascaeta, Bruno Henrique... Negociar e confiar no potencial era importante, mas não bastava. O momento no antigo clube era determinante ao empréstimo. Flamengo queria dar ritmo de jogo, o CSA precisava de um camisa 10, e Matheus Sávio foi contratado. É o motor do time. Elencos também são feitos assim, com oportunidade de mercado.

O CSA está na semana de estreia da Série A. Volta à competição após 31 anos e tem um objetivo claro: garantir a permanência. Para bater a meta, diretoria e comissão técnica precisam resolver uma equação. Montar um time forte, com um dos mais baixos orçamentos da Primeira Divisão.

A previsão de receita do clube para a temporada é de R$ 40 milhões. A maior fatia é dos direitos de transmissão da Série A, que paga inicialmente R$ 22 milhões. Números altos, históricos para o CSA, mas ficam abaixo de concorrentes do próprio Nordeste. O Fortaleza estima uma receita de R$ 56,7 milhões nesta temporada, e o Ceará um orçamento total de R$ 70 milhões.

Alta rotação no elenco

Com a diferença na receita, o CSA dividiu o planejamento de reforços da temporada em duas partes. A primeira para o Campeonato Alagoano, Copa do Brasil e Copa do Nordeste, com a maioria de contratações de baixo custo. A segunda parte ficou próximo do começo da Série A, com maiores investimentos. A divisão fez o número de reforços chegar a 29 na temporada, mas sete já saíram.

Assim, Marcelo Cabo remontou o time durante os quatro primeiros meses e espera contar com os reforços para o Brasileiro. O lateral Armero, os volantes Naldo e Bruno Ramires e os meias Madson e Maidana não puderam ser inscritos no estadual, por exemplo.

“Tem aparecido bastante jogadores, a oferta de jogadores ao CSA está grande, mas temos que ter critério porque já temos 80% do grupo definido. Agora, pontualmente, vamos trazer de acordo com a necessidade”, explicou o técnico.

Peça por peça

Conversamos com Marcelo Cabo para entender os critérios de contratação para a Série A e ter a resposta de como um elenco é formado. “Procuramos ter um perfil de time de intensidade, velocidade, um time reativo, porque a Série A demanda muito isso, principalmente, nós que somos um time emergente. Então, procuramos trazer com esse perfil”, explicou o técnico.

Peça por peça, Cabo comentou como foi a procura e como pretende usar os reforços. O conhecimento do mercado e das características do jogadores, com as passagens por outros clubes, é um dos fatores na escolha dos nomes.

“Eu conhecia o Marcelo Cabo, que me falou bem da estrutura do CSA. Trabalhei com ele no Figueirense, em 2017, onde eu estava em uma fase boa, e ele, confiando no meu trabalho dessa época, me trouxe e estou tendo sequência e oportunidade de estar ajudando”, disse o atacante Robinho, que chegou por empréstimo do Fluminense.

Separamos 13 nomes, com a explicação do treinador, para entender o processo de formação do grupo.

João Carlos (goleiro): “Já havia trabalhado comigo no Nacional, de Minas Gerais, em 2014. Conhecia bem e havia acompanhado ele aqui (no CRB, ano passado)”.

Apodi (lateral-direito): “Hoje, ele me mostra uma faceta que eu não conhecia, que é o poder de marcação. Ele também tem uma bola aérea boa, com uma impulsão, e é o nosso escape pela direita”.

Luciano Castán (zagueiro): “Joguei contra ele em 2015, quando ele estava no Paraná, e vinha acompanhando. Tecnicamente, muito bom, com saída pela esquerda e qualificação no passe”.

Gerson (zagueiro): “Vi na base do Botafogo, em 2010, e estava acompanhando enquanto ele estava na Polônia, Coreia do Sul... Temos um banco de dados e vamos monitorando”.

Carlinhos e Armero (laterais-esquerdos): “Os dois também são opções para o meio-campo, com o Armero mais conservador na linha de defesa, e o Carlinhos mais agudo. Trouxemos dois jogadores com características diferentes, mas que se

Naldo (volante): “Conheci ele no Joinville. É um zagueiro que virou volante. Nós precisávamos aumentar a estatura da equipe, um jogador de intensidade de marcação alta e que sabe sair jogando”.

Bruno Ramires (volante): “Ele tem um pouco mais de saída, tem uma chegada maior e uma recomposição muito boa pela passada que tem. Observamos ele ano passado durante a Série B, mas ele foi para a Ponte Preta”.

Madson (meia): “Foi oportunidade de mercado. Conhecia ele desde a base do Volta Redonda, em 2007, na Segunda Divisão do Carioca. Conheço muito bem o baixinho e vamos dizer que ele se preparou bem no Fortaleza para jogar no CSA”.

Maidana (meia): “Conheço o Maidana da MLS. Ele jogou três anos lá e vínhamos monitorando porque camisa 10 no futebol brasileiro é muito difícil. Temos o Matheus Sávio, mas precisávamos de um contraponto. Mal comparando, ele tem uma característica de um D’Alessandro, Dátolo... Um meia canhoto, com último passe bom, aproxima bem da área, organiza e circula bem a bola”.

Matheus Sávio (meia): “Foi uma outra oportunidade de mercado. Nós temos um bom relacionamento com o Flamengo, o Carlos Noval, o diretor de futebol, é meu amigo particular e eu tinha tentando levar o Matheus para o Atlético-GO em 2017, mas não consegui. Ele é muito jovem, potencial desde a base. O jogo taticamente dele é espetacular. Ele recompõe bem, marca, chega para criar e às vezes se desgasta mais que o normal por ser completo. Matheus, daqui uns dois, três anos, vai ser um dos principais camisas 10 do futebol brasileiro”.

Robinho (atacante): “Trabalhei com ele no Figueirense. Ele tem a característica do drible, de organizar o time pela esquerda, com poder de finalização grande.”

Patrick Fabiano (centroavante): “Eu levei o Patrick para o Kuwait, em 2009 para 2010. Na verdade, fui contratado, ele havia sido contratado e encontrei ele pela primeira vez na Bósnia. Ele era um joia bruta, que fomos lapidando e terminou como artilheiro. Depois, ele teve sua sequência de carreira, construiu um salário alto no futebol árabe e todas as vezes que tentei trazer ao Brasil ficou inviável. A diretoria fez um esforço, ele abriu mão de parte do salário pelo sonho de voltar a jogar no Brasil, os filhos dele ter a oportunidade de ver jogando no Brasil. Ele entrou no campo com o filho para receber a medalha do título Alagoano e disse que é a realização de um sonho”.

Como funciona a observação

A comissão técnica do CSA tem um banco de dados para mapear o mercado de reforços e os adversários. Auxiliar, Gabriel Cabo é um dos responsáveis por fazer a análise. “Trabalhamos aqui com indicações e com o nosso próprio banco de dados, cerca de 300 jogadores, com perfil ou potencial de Série A, B, C e D, potencial internacional também. Pego um nome no banco de dados, de acordo com o que queremos, passo para a diretoria e minha função termina nesse momento”, explicou.

As transmissões das partidas na internet são um dos meios para analisar os reforços, junto das estatísticas e números, que são a parte fria da metodologia. “Hoje, temos muitas ferramentas para ver um jogo completo, que é uma parte mais real, um todo. Com a globalização, fica muito fácil. Sempre tem uma câmera filmando jogo de 2ª ou 3ª divisão. Vendo se o jogador atende à necessidade partimos para uma visão macro ou análise in loco, que para mim ainda é o mais importante”, comentou o auxiliar.

Gabriel é filho de Marcelo Cabo. Ele parou a carreira de jogador por problemas médicos em 2016, aos 22 anos, mas seguiu no futebol. “Sou auxiliar direto do Marcelo, mas peguei o gancho da análise de desempenho. Fiz o curso da CBF Academy, outros cursos paralelos também, porque é um gancho interessante para estudar futebol e procuro me especializar”.

Leia o blog Futebol Nordestino no CSA

Atual elenco do CSA

Goleiros: João Carlos, Jordi, Fabrício e Alexandre Cajuru

Laterais: Apodi, Celsinho, Carlinhos, Armero e Rafinha

Zagueiros: Luciano Castán, Gerson, Ronaldo Alves, Leandro Souza, Rony e Lucas Dias

Volantes: Dawhan, Naldo, Amaral, Bruno Ramires e Mauro Silva

Meias: Matheus Sávio, Maidana, Didira, Madson, Victor Paraíba, Jhon Cley e Lucca Motta

Atacantes: Patrick Fabiano, Cassiano, Robinho, Manga Escobar, Gersinho e Lohan

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