Bairros da periferia de SP com mais negros acumulam mais mortes por Covid-19

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Casos do novo coronavírus na capital paulista aumentaram 290% entre negros e 198% entre brancos; segundo médico, dados revelam os efeitos do racismo estrutural na saúde pública. Foto: Getty Images
Casos do novo coronavírus na capital paulista aumentaram 290% entre negros e 198% entre brancos; segundo médico, dados revelam os efeitos do racismo estrutural na saúde pública. Foto: Getty Images

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões 

Os bairros com mais moradores negros na cidade de São Paulo acumulam os maiores números de mortes decorrentes da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Até o dia 22 de junho, a capital registrou 12.549 mortes em decorrência do vírus e cinco bairros das periferias concentram 1.321 dos óbitos. Sapopemba (300), Brasilândia (277), Grajaú (267), Jardim Ângela (240) e Capão Redondo (237).

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De acordo com o Mapa da Desigualdade, elaborado pela Rede Nossa São Paulo e divulgado no final de 2019, os cinco distritos concentram uma população de negros - pessoas que se autodenominam como pretas ou pardas - maior que a média da capital, que é de 32,1%. A porcentagem de moradores negros nesses bairros é de 41,7% em Sapopemba, 50,6% na Brasilândia, 56,8% no Grajaú, 60,1% no Jardim Ângela e 53,9% no Capão Redondo.

Para o médico Yuri Alencar, vice-presidente do Instituto Luiza Mahin, a morte de negros durante a pandemia revela os efeitos do racismo estrutural na saúde pública. “Quando há sobrecarga dos serviços de maneira que a demanda é maior que a capacidade de atendimento, e na ausência de legislação que estabeleça critérios objetivos para elencar pacientes com prioridade de atendimento (há critérios científicos mas não são amparados por legislação específica), a escolha pode vir a ser subjetiva ou amparada por crenças pseudo científicas oriundas do período eugenista, como a de que somos naturalmente mais fortes e resistentes”, explica Alencar.

O município de São Paulo registrou 415.834 casos de síndrome gripal e síndrome respiratória aguda até o dia 16 de junho,as duas doenças respiratórias estão diretamente ligadas ao Covid-19. Deste total, 293.670 casos, tinham a indicação de raça ou cor do paciente. Em 126.637 dos casos, o paciente era negro, o que corresponde a 43,2%, uma proporção de 10 pontos percentuais acima da população negra da capital paulista, de 32,1%.

Os dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram que 114.118 negros foram diagnosticados com síndrome gripal e 12.529 com síndrome respiratória aguda. Em janeiro, antes da pandemia, foram 29 casos de síndrome gripal entre negros. Já em abril, foram 15.748 registros entre negros. Em maio, o número pulou para 61.450 casos, um crescimento de 290% na comparação com o mês anterior. Na primeira quinzena de junho, foram 36.259 novos casos entre a população negra da capital paulista. 

Entre os pacientes brancos, foram 33 casos de síndrome gripal em janeiro e o número saltou para 19.888 casos em abril. No mês de maio, foram 59.334 pacientes brancos, alta de 198% na comparação com abril.

“Em contextos normais, sem pandemia ou grandes desastres, já morremos mais por doenças evitáveis. É fato que estamos morrendo mais, proporcionalmente [na pandemia]. Isto se deve a iniquidades de saúde que em contexto de crise são escancaradas”, avalia o médico Alencar.

Casos graves

Dos dez bairros com o maior número de casos graves da Covid-19, com internação por síndrome respiratória aguda, sete são na periferia da Zona Sul. O maior número é no Jardim Ângela, com 919 casos até o dia 9 de junho. No Jardim São Luiz, foram 795 casos, e outros 760 no Capão Redondo. O Grajaú segue logo atrás com 750 internação. 

Já Na Brasilândia, Zona Norte, o total de internações por síndrome respiratória grave chegou a 795, o segundo distrito com mais casos na cidade. Em Sapopemba, na Zona Leste, o quarto bairro com mais casos, foram 794 internações. Nas periferias da cidade, a oferta de leitos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é menor. Cerca de 60% das vagas em UTI estão em bairros onde vivem menos de 10% dos paulistanos.  


O Alma Preta procurou a Secretaria Municipal de Saúde e questionou sobre políticas de saúde para a população negra na pandemia da Covid-19; A reportagem também questionou sobre a subnotificação de informações raciais em um terço dos registros de pacientes. Até a publicação deste texto, a pasta não se posicionou.

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