Bacurau é um filme manifesto sobre o preconceito contra as pessoas pobres

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Bacurau é um filme manifesto sobre o preconceito contra as pessoas pobres
Bacurau é um filme manifesto sobre o preconceito contra as pessoas pobres

Imagem: Bacurau/Reprodução


Por Veyzon Campos Muniz

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A pobreza, para além de uma condição de carência econômica, se constitui como um estigma que edifica arquétipos de indivíduos desprovidos de dinheiro, mas também bestiais, burros e simplórios.



A erradicação da pobreza, com efeito, corresponde a uma pauta de preocupação interna e externa voltada, de um lado, à indução do crescimento e do empoderamento econômico das pessoas e, de outro, à desconstrução imagética da figura do necessitado de toda ordem. Em plano constitucional, consagra-se a superação da pobreza e da marginalização como objetivo fundamental republicano (artigo 3º, III, da Constituição Federal). A agenda 2030 estabelecida pela ONU, por sua vez, reconhece a existência universal de pessoas pobres e advoga pela implementação de ações e políticas de redução de desigualdades estruturais que favorecem o aprofundamento do empobrecimento.


O estímulo a setores da economia direcionado à geração de postos de trabalho, o investimento em infraestrutura social e física de qualidade e a promoção de níveis mínimos de bens e serviços essenciais são estratégias apontadas como elementares à efetividade da erradicação da pobreza, em todas as suas formas e em todos os lugares, enquanto objetivo de desenvolvimento sustentável (ODS-01). Fato é que iniquidades econômicas diante de recursos escassos, sem práticas de transformação socioeconômica, imobilizam a população pobre na pobreza.


Bacurau emerge, assim, tanto como um instrumento prático de combate à pobreza, quanto como um manifesto fílmico de antiestigmatização das pessoas pobres. O projeto, como pontua em seu epílogo, gerou mais de oitocentos empregos, alertando, oportunamente, à importância da indústria do cinema nacional e seu valor econômico – em oposição a manifestações do governo federal que vêm questionando a relevância e o impacto positivo do aludido setor.


A narrativa remete a um futuro próximo, centrando-se no cotidiano da comunidade de uma pequena cidade sertaneja no oeste pernambucano que se vê abalada pela morte de sua matriarca e, posteriormente, alarmada pela percepção de que desapareceu dos mapas. O primeiro ato do filme apresenta o local, suas mazelas (como a falta de água e a ausência de suprimentos) e a péssima gestão pública municipal. Tony Júnior (Thardelly Lima) é a antítese do que se espera de uma autoridade política. Se, quando do planejamento e execução de políticas públicas, entende-se que a observância à cidadania e à dignidade humana constituem norte de atuação, o prefeito, com a disponibilização de livros ultrapassados e remédios vencidos, mostra-se um verdadeiro exemplo de gestor “insustentável”. Trata-se de uma caricatura da realidade de tantas cidades brasileiras, ele desdenha do povo, ignora seus deveres legais e obrigações funcionais e assevera a condição de pobreza da população.


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Destarte, no bar da cidade, uma forasteira de moto (Karine Teles) questiona: “Quem nasce em Bacurau é o que?”, sendo prontamente respondida por uma criança: “Gente!”. Essa é a síntese: quem nasce em Bacurau, no Nordeste ou no Brasil é gente. São pessoas cujos direitos são normativamente assegurados, mas cotidianamente vilipendiados. A produção, dirigida e roteirizada por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vencedora do Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes de 2019, retrata de modo genuinamente cru e fantasticamente realista a nossa gente pobre, que é resistente (não bestial), perspicaz (não burra) e simples (não simplória). Bacurau apresenta um cangaço futurista que, capitaneado por Lunga (Silvério Pereira), reage ao ataque “alienígena” e promove justiça capital – ao mesmo tempo em que reflete o período confuso, dramático e instável que o país atravessa.


Instituído, desde 1992, como Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza, o 17 de outubro foi pensado como uma celebração aos êxitos estatais na retirada de pessoas da pobreza. Uma data de reafirmação do compromisso das sociedades e das instituições públicas e privadas no combate às desigualdades socioeconômicas ainda em nossa geração, contribuindo efetivamente para um futuro igualitário e sustentável.


Porém, na contramão da expectativa trazida pelo reconhecimento da data, segundo relatório do Banco Mundial (2019), constatou-se que a pobreza no Brasil aumentou de 17,9% da população em 2014 para 21% em 2017, ou seja, a partir do parâmetro de rendimento individual de até US$ 5,50 por dia, observou-se que há cerca de 44 milhões de pessoas em condição de pobreza. O montante dos extremamente pobres, no mesmo período, igualmente se elevou de 2,8% para 4,8% da população.


Ocorre que, em razão das instabilidades políticas e econômicas atuais, se estima uma tendência de aumento desses índices. Afinal, percebe-se um Brasil empobrecido pelo processo crescente de marginalização econômica, assim como por uma governança totalmente débil na reação e enfrentamento de tal realidade.


Por conseguinte, erradicar a pobreza não é e nunca será exterminar as pessoas pobres e essa talvez seja a lição mais superficial e fácil de ser apreendida ao assistir Bacurau. Todavia, em tempos complexos, o que parece óbvio precisa ser salientado. Como bem indica a frase na placa turística da cidade fictícia, nesse 17 de outubro, “se for (comemorar), vá em paz”.


Veyzon Campos Muniz é Doutorando e Mestre em Direito


Referência:

- Banco Mundial. Effects of the business cycle on social indicators in Latin America and the Caribbean: when dreams meet reality. Disponível em: http://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/31483. Acesso em 05 de abril de 2019.

- Goffman, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988.

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