Avanço do coronavírus pela Zona Norte de São Paulo exemplifica o abandono do SUS

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Falta de protocolos de atendimento nas Unidades Básicas de saúde e crise política no governo corroboram para um panorama onde os mais vitimados pela doença são negros e pobres.
Falta de protocolos de atendimento nas Unidades Básicas de saúde e crise política no governo corroboram para um panorama onde os mais vitimados pela doença são negros e pobres.

Texto: Ygor Damasceno Edição: Nataly Simões

Três meses após a cidade de São Paulo ter confirmado o primeiro caso de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, a Brasilândia, bairro onde aproximadamente 50% dos moradores se autodeclaram como negros, apresenta o maior número de mortes e as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) dão sinais sobre a falta de políticas públicas que visam combater à transmissão comunitária em regiões periféricas e densamente ocupadas pela população negra e pobre. As crises no governo federal colaboram para a dificuldade de articulação do Sistema Único de Saúde (SUS).

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De acordo com levantamento da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que detalha os números de mortes por Covid-19 por bairro, entre os dias 30 de abril e 14 de maio a Brasilândia teve um salto de mais de 50% no número de mortes. Segundo o relatório, o distrito totaliza 156 óbitos, o maior número em toda a cidade. Dos 18 distritos que compõem a Zona Norte, metade viu as mortes aumentar mais de 50% no período. Mais da metade dos bairros da região também ultrapassou a marca de 100 casos confirmados ou suspeitos da doença.

Na maior cidade da América Latina, uma pesquisa do Observatório Covid-19 feita em parceria com a gestão do município mostra que pessoas pretas têm 62% mais chances de morrer por coronavírus do que as brancas, enquanto os pardos têm risco 23% maior. De acordo com o quesito identitário utilizado pelo Instituto Brasileiro de Estatística e Pesquisa (IBGE) para o Censo Demográfico, somando pretos e pardos, negros moradores de São Paulo têm 85% mais chances de morrer caso sejam infectados por coronavírus.

O avanço da crise humanitária pelas periferias e favelas do município preocupam o poder público devido à dificuldade de promover o isolamento social entre pessoas em situação precária de moradia e empregabilidade, além do baixo alcance de atendimento da saúde pública nessas regiões.

Na linha de frente do combate ao vírus, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do território não demonstram indícios de ações coordenadas para a prevenção da doença pela região. Das 11 unidades de atendimento localizadas entre os bairros de Santana, Jaçanã, Brasilândia e Jardim Fontalis, somente duas souberam relatar seus protocolos de atendimento para casos onde há suspeita do vírus

“Nós recebemos essas pessoas e temos um procedimento de atendimento do lado de fora da unidade, com um técnico de enfermagem que checa o estado clínico do paciente e, caso necessário, o conduz  para um setor isolado, exclusivo para portadores do coronavírus. Dividimos o lugar em duas partes: uma só para esse tipo de atendimento e outra para as questões diárias, como a vacinação e outros serviços básicos. Todos estamos utilizando os equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários e isso tranquiliza a gente sobre o risco”, contou o atendente de uma das Unidades Básicas de Saúde contatadas, próxima à Brasilândia.

Sobre ações voltadas à precaução, apenas um dos centros de atendimento apontou a realização de workshops com habitantes de sua área de abrangência para a conscientização sobre a doença.

“A UBS tem esse papel de dar orientação para as pessoas e fazer busca ativa. Esse é o equipamento de saúde que tem, por conta do programa Saúde da Família, mapeamentos e cadastros de onde as pessoas moram. Não é em todas as regiões ou municípios que há uma cobertura boa, mas em determinadas regiões existe esse mapeamento do território. Portanto, se aparece um caso grave dentro de uma comunidade, a UBS precisa buscar os contatos, ir até lá, dar as orientações necessárias e tentar reforçar o isolamento social”, explica o médico Daniel Dourado, mestre em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo (USP).

O direcionamento para a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e a afirmação de que trocas de informações desse tipo só são permitidas pessoalmente foram as respostas mais comuns entre as UBSs que não souberam responder às perguntas. A assessoria de imprensa da SMS não respondeu aos questionamentos da reportagem, assim como a Coordenadoria Regional de Saúde Norte. 

Para Dourado, falta uma estratégia de comunicação mais eficaz ao sistema de saúde brasileiro. “É uma dificuldade de comunicação que passa por esse momento que estamos vivendo, de muita desinformação rolando com esse monte de besteiras que circulam por aí. Existe uma dificuldade de articulação, mas também existe a dificuldade de a pandemia ter chegado em um momento em que a sociedade está muito fragmentada. Para além da dificuldade propriamente política que já existe, também temos essa de comunicação”, avalia o médico.

Obras do Hospital Municipal da Brasilândia. Foto: Heloisa Ballarini
Obras do Hospital Municipal da Brasilândia. Foto: Heloisa Ballarini

O atendimento no SUS

As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) são a porta de entrada para o Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é que o paciente tenha um atendimento básico gratuito e de fácil acesso, em clínicas próximas à residência. Essa cobertura mais generalista supre as necessidades de cerca de 80% dos motivos que levam a população a procurar um médico, segundo o site oficial do Governo Federal. 

Após a triagem nos postos médicos, o paciente poderá ser encaminhado a atendimentos especializados - a depender do grau de complexidade e emergência do atendimento. De acordo com o fluxo de funcionamento do sistema, os pacientes podem ser encaminhados para as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Atendimento Médico de Especialidades (AMEs), Atendimentos Médicos Ambulatorial (AMAs) ou hospitais municipais, estaduais e federais. 

Segundo levantamento da rede Nossa São Paulo, junto ao Ibope Inteligência, 69% dos paulistanos concordam que, sem o SUS, as consequências da pandemia seriam piores.  “O papel da UBS é fundamental no tratamento da Covid-19 porque sabemos pelos estudos epidemiológicos que já estão mais consolidados e cerca de 80% dos casos atendidos são leves. Ou seja, esse público não precisa procurar pronto-socorro e nem hospital, já que não vai precisar de leito. O foco precisa ser em evitar que os 80% transmitam a doença, a fim de diminuir a contaminação comunitária.” pontua Dourado.

As prefeituras são as principais responsáveis pelo funcionamento do SUS nas cidades, pois a maior parte dos equipamentos de saúde que o compõem são controlados pelo órgão municipal. O governo estadual arca com questões que ultrapassam as possibilidades dos municípios e exigem maior complexidade, como tratamentos para tumores/cânceres e sistema urinário, que necessitam de maior tecnologia envolvida, como afirma o portal Dráuzio Varella. O governo federal, através do Ministério da Saúde, por sua vez, é fundamental para o sistema por ser o principal investidor financeiro e por elaborar as políticas públicas de saúde em âmbito nacional, que serão desenvolvidas pelas secretarias de saúde estaduais e municipais. 

Também é o Ministério da Saúde quem contrata os médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, psicólogos e assistentes sociais, distribuindo-os para todos os estados e municípios por meio dos programas Mais Médicos e Médicos do Brasil.

Maioria dos dependentes do SUS são negros

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Medicina, Família e Comunidade indica que 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) são negros. De acordo com dados de boletins epidemiológicos do Ministério de Saúde, entre 10 de abril e 08 de maio, o percentual de mortes por Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) entre pessoas brancas diminuiu 16,8%, enquanto entre pessoas negras houve um aumento de 17,3%. Negros totalizam 50,1% dos mortos pela SRAG. A Covid-19 é uma das principais responsáveis pela doença respiratória neste momento.

Infográfico feito por Taynara Cabral com dados sobre a cor/raça dos mortos por Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) no Brasil, com base nas estatísticas divulgadas pelo Ministério da Saúde.
Infográfico feito por Taynara Cabral com dados sobre a cor/raça dos mortos por Síndrome Respiratória Aguda (SRAG) no Brasil, com base nas estatísticas divulgadas pelo Ministério da Saúde.

Segundo um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ), diabetes e hipertensão são dois dos principais fatores de risco para as pessoas que contraem o novo coronavírus. No Brasil, a diabetes incide 9% a mais entre homens negros do que entre os brancos. Quanto às mulheres negras, o número de diabéticas é 50% maior do que entre as brancas. O médico Drauzio Varella alerta que pressão alta é um dos problemas mais comuns à população negra brasileira, por fatores genéticos. Em 2017, a Universidade de Campinas (Unicamp) realizou uma pesquisa que concluiu que os negros têm mais dificuldade em tratar a hipertensão arterial do que os brancos. 

O médico Daniel Dourado também atua como pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Direito Sanitário da USP e tem acompanhado os impactos da Covid-19 a partir da perspectiva da desigualdade social. Para ele, a situação dos negros no Brasil é ainda mais grave que a dos Estados Unidos. “A gente vê uma expressão da desigualdade, da exclusão e do racismo na pandemia. É possível ver que a estrutura da nossa sociedade vai sendo revelada justamente pela maneira como estão lidando com as coisas”, pondera.

Crise política e sanitária

Desde a chegada da Covid-19 no Brasil, embates entre Jair Bolsonaro (Sem partido) e sua equipe de governo a respeito de quais medidas deveriam ser adotadas para a enfrentar a pandemia foram promovidas em público. Declarações como “é só uma gripezinha”, “não sou coveiro” e “sou Messias, mas não faço milagres” têm feito o presidente ocupar as manchetes dos principais jornais do país e do mundo.

Há também a participação de Jair Bolsonaro em manifestações populares contra a as medidas de distanciamento social, apoiadas  pelo chefe de estado e que, segundo especialistas, dificultam o trabalho de prevenção à disseminação do vírus. Outra rivalidade provocada por Jair Bolsonaro foi com relação aos governadores e prefeitos de todo o país que decidiram adotar as medidas de proteção aconselhadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O presidente os culpa pela crise econômica que está por vir e pela já alta taxa de desemprego entre a população, como resultado da adesão à quarentena nos estados e municípios.

“Como a gente não tem uma liderança bem definida, que apoie e que dê o suporte necessário, tem muita gente que não acredita [no coronavírus]. Acha que não tem essa história. O governo brasileiro está abrindo mão das relações com a  OMS, o que é uma loucura” diz o médico Daniel Dourado.

Presidente Jair Bolsonaro passeia de jet ski pelo Lago Paranoá, próximo ao Palácio da Alvorada, no dia 9 de maio, quando o Brasil atingiu a marca de 10 mil mortes causadas pela Covid-19. (Foto: Twitter/Reprodução)
Presidente Jair Bolsonaro passeia de jet ski pelo Lago Paranoá, próximo ao Palácio da Alvorada, no dia 9 de maio, quando o Brasil atingiu a marca de 10 mil mortes causadas pela Covid-19. (Foto: Twitter/Reprodução)

As diferenças de pensamento sobre o melhor caminho para combater a Covid-19 protagonizaram uma das maiores crises do governo Bolsonaro na pandemia: A saída do ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM) do comando do Ministério da Saúde, junto com toda a equipe que estava sob sua coordenação, e em seguida, a de Nelson Teich, médico oncologista escolhido para dirigir o Ministério em seu lugar. 

O novo ministro assumiu o cargo no dia 17 de abril e logo foi alvo de críticas dos secretários de saúde dos estados por não se disponibilizar para o diálogo com quem lida mais proximamente com as consequências da crise sanitária provocada pela Covid-19 A demora do Ministério da Saúde quanto ao envio dos insumos necessários para o combate ao coronavírus também criticada, assim como a demora para tornar públicas as estratégias para o combate à pandemia.

Poucos dias antes de completar um mês à frente do Ministério da Saúde, em 15 de maio, Nelson Teich pediu demissão do cargo. As motivações para a saída foram as mesmas de Luiz Henrique Mandetta: as pressões do presidente Bolsonaro para que a droga cloroquina seja oficializada como medicamento para o tratamento do coronavírus no país e também pelo afrouxamento das medidas de distanciamento social. 

Um estudo realizado pela revista científica The BMJ comprovou que a hidroxicloroquina não é mais eficiente no combate ao vírus do que os tratamentos padrão (sem o medicamento). Além disso, a pesquisa demonstrou que o remédio pode causar efeitos colaterais graves, como aceleramento dos batimentos cardíacos.

Sobre o distanciamento social, um relatório do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCRP) mostrou que na cidade do interior paulista há um baixo nível de circulação do vírus devido às medidas preventivas empregadas pela prefeitura junto aos hospitais e imprensa. De acordo com a pesquisa, dos mais de 590 mil habitantes da cidade, somente 1,21% (8.305) estão infectados com o vírus.

O Ministério da Saúde aguarda há mais de 25 dias pela oficialização do sucessor de Nelson Teich. Após a publicação do Diário Oficial da União (DOU) do dia 3 de junho, veio à público a escolha do general Eduardo Pazuello para o cargo de ministro interino da saúde. O militar trabalhou como secretário-executivo da pasta durante a gestão Teich e assumiu o comando logo após a saída do médico, enquanto um novo nome ainda não havia sido escolhido para o cargo. Em 20 de maio, cinco dias após a saída de Nelson Teich, o então ministro interino assinou um novo protocolo que permite e indica o uso da hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19 desde os primeiros sintomas da doença. 

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