Atual campeã chegará ao Qatar como favorita, mas enfrenta turbulência dentro e fora de campo

***ARQUIVO***PARIS, FRANÇA, 06-03-2018, 21h05, CHAMPIONS LEAGUE, PSG X REAL MADRI ESPORTES: Marcelo (Real Madri) e Mbappe (PSG). (Foto: Ricardo Nogueira/Folhapress)
***ARQUIVO***PARIS, FRANÇA, 06-03-2018, 21h05, CHAMPIONS LEAGUE, PSG X REAL MADRI ESPORTES: Marcelo (Real Madri) e Mbappe (PSG). (Foto: Ricardo Nogueira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Uma equipe vencedora, com um técnico experiente e algumas das maiores estrelas do futebol mundial. A França tem todos os ingredientes de uma favorita ao título na Copa do Mundo. Mas a atual campeã chegará ao Qatar com muitas dúvidas. Dentro e fora de campo. Neste ano, os franceses entraram em campo seis vezes pela Liga das Nações -competição que reúne as seleções europeias nas Datas Fifa-, e venceram apenas uma vez. Foram dois empates e três derrotas, duas delas para a Dinamarca, rival no Grupo D do Mundial.

"Foi um choque, sem dúvidas. A seleção francesa está em um momento de reflexão. Pelo elenco que eles têm, não era para essas derrotas terem acontecido", afirma Juninho Pernambucano, ídolo do Lyon, que vive na França e acompanha de perto o futebol do país. "Mistura o Lloris, que talvez esteja em sua última Copa, com jovens como Lucas e Theo Hernández, Upamecano, Kimpembe. Tem um meio-campo muito forte, com Kanté, Tchouameni, o Pogba caso se recupere. Na frente, tem muita força: além de Mbappé, Benzema e Griezmann, você ainda tem jogadores muito rápidos pelas pontas, como Diaby, Koman, Dembele", enumera Juninho, escalando um time inteiro de jogadores de alto nível.

Essa força do elenco francês tem sido colocada à prova recentemente. Nos amistosos de setembro, a seleção chegou a ter 12 desfalques. Paul Pogba, titular no título de quatro anos atrás, ainda é dúvida para a Copa. Kanté, Koundé e Benzema chegarão ao Qatar tendo perdido parte da temporada por problemas físicos.

"Se falarmos de potencial e de quantidade de bons jogadores, a França é a número 1. Ultimamente, esse potencial não tem se transformado em resultados. Só que a França sempre tem uma coisa: quando chega com bons resultados à Copa do Mundo, joga mal; e quando chega cheia de problemas, como agora, joga bem", explica Florent Torchut, jornalista da France Football.

COMO JOGA A FRANÇA?

O técnico Didier Deschamps vai à Copa do Mundo sem ter um esquema tático definido para a seleção francesa. Não se trata propriamente de uma dúvida, mas de estratégia: ele costuma escolher o sistema de jogo em função do adversário. Na Eurocopa de 2021, foram três desenhos diferentes em quatro jogos.

A formação usada nos duelos mais recentes tem sido a 3-5-2. O sistema com três zagueiros centrais tem sido muito frequente no futebol europeu --Kylian Mbappé, maior estrela da equipe, joga assim no Paris Saint-Germain sob o comando de Christophe Galtier.

Na seleção francesa, foi a forma que Deschamps encontrou para jogar com Mbappé e Benzema, sem que nenhum deles precise se deslocar para as pontas. O ataque pelos lados do campo é feito pelos alas, que podem ser laterais de origem ou meias abertos, como no caso de Kingsley Coman.

"O Deschamps sabe que a diferença de qualidade dentro elenco é pequena, então ele sempre prepara o time para o próximo jogo, ele tem variações", explica Juninho Pernambucano. Uma dessas variações é o 4-4-2, mantendo uma dupla no ataque, mas abrindo a possibilidade de ter jogadores mais ofensivos pelos lados do campo, como Dembelé ou Diaby.

Entre tantas mudanças e variações, é complicado prever qual seria o time base dos franceses para a estreia no Mundial. E tantas dúvidas podem atrapalhar até mesmo os jogadores, como explica Cláudio Caçapa, brasileiro que fez carreira na França e hoje é auxiliar técnico do Lyon. "O fato de não ter um time definido atrapalha. São muitas mudanças de posição, muitas funções diferentes para alguns jogadores, e isso é algo preocupante", afirma.

Para o jornalista Florent Torchut, a seleção francesa ainda não se acostumou ao novo esquema tático. "Às vezes parece que os jogadores não entendem muito bem o seu papel em campo. A posição de ala não é parte do DNA do futebol francês; tem hora que eles não sabem se é pra subir, ou quando têm que voltar".

PONTOS FORTES

Quantidade nem sempre é qualidade. Mas, nos últimos anos, o futebol francês tem sido capaz de produzir ambos. Os jogadores do país estão espalhados pelas principais ligas da Europa e, mais do que isso, ocupam posições de protagonismo e dão ao técnico Didier Deschamps um leque de possibilidades muito amplo para convocar e escalar a equipe.

Encontrar exemplos deste "problema" do treinador não é difícil. A posição de zagueiro é um exemplo: ele tem como opções Raphäel Varane (Manchester United), Presnel Kimpembe (PSG), Jules Koundé (Barcelona), William Saliba (Arsenal), Ibrahima Konaté (Liverpool), Dayot Upamecano (Bayern), Wesley Fofana (Chelsea) e Benoit Badiashile (Mônaco). Oito nomes para possíveis cinco vagas na convocação e duas ou três no time titular.

O mesmo exercício poderia ser feito em outras posições. "Talvez não apenas no gol", afirma Florent Torchut. Ainda assim, os franceses têm o capitão Hugo Lloris, Mike Maignan, titular do Milan, e Alphonse Areola, do West Ham.

Essa quantidade de jogadores de alto nível é o que diferencia a França de qualquer outra seleção europeia, segundo Juninho Pernambucano. "São muitos jogadores bons. Hoje, não tem outro país no mundo com um elenco tão forte. Dá pra fazer uma seleção até com os jogadores que não foram convocados".

Os números confirmam essa sensação de que há muitos jogadores franceses espalhados pelas grandes ligas europeias. O país é o líder em estrangeiros na Premier League (31), na Bundesliga (38) e no Campeonato Italiano (34). Apenas na Liga Espanhola os franceses (19 jogadores) ainda são superados por argentinos (31) e brasileiros (22).

NAS QUATRO MAIORES LIGAS DO MUNDO

Premier League (Inglaterra): 31 jogadores (1º país com mais estrangeiros)

Bundesliga (Alemanha): 38 jogadores (1º país com mais estrangeiros)

La Liga (Espanha): 19 jogadores (3º país com mais estrangeiros)

Serie A (Itália): 34 jogadores (1º país com mais estrangeiros)

PONTO FRACO

A quantidade de jogadores de alto nível e de opções de Deschamps para escalar a seleção francesa é diretamente proporcional ao maior desafio do treinador campeão do mundo: gerenciar as relações entre as estrelas do elenco. Egos inflados, antigas rivalidades e até uma disputa por dinheiro criaram um ambiente tenso entre os Bleus.

Esse ambiente ruim não chega a ser novidade. Em 2010, a França caiu na primeira fase do Mundial em meio a um motim de jogadores contra o então treinador Raymond Domenech. No Brasil, em 2014, foi a vez das famílias dos jogadores reclamarem do hotel escolhido para recebê-las no Rio. Recentemente, o episódio mais famoso foi o de Karim Benzema, excluído da seleção durante 6 anos, por envolvimento em um esquema de chantagem contra o colega Mathieu Valbuena.

De volta à seleção, Benzema continua no centro das polêmicas. A relação com Olivier Giroud, titular e campeão em 2018, está longe de ser boa. E a parceria com Mbappé também ficou estremecida depois que o jovem atacante disse "não" ao Real Madrid e escolheu continuar no PSG.

Mbappé também provocou mal-estar em setembro, antes dos últimos amistosos de preparação, ao recusar-se a participar de uma sessão de fotos com os colegas. O astro do PSG alegou que não estava recebendo direitos de imagem na seleção - nenhum dos colegas recebia, e todos participaram do evento.

"O maior problema da França pode ser não saber gerenciar o excesso de sucesso. Quando não conseguem gerenciar bem isso, se o grupo não tiver uma relação limpa, se os jogadores não chegarem com o coração aberto, isso pode ser complicado", afirma Juninho Pernambucano. "Os jogadores vão chegar a esta Copa com objetivos diferentes. Alguns já foram campeões, outros, não. Gerenciar isso é muito importante", acrescenta.

Em meio a tantos desafios para unir o elenco, uma notícia insólita deixou o ambiente ainda pior. Em uma série de vídeos publicados em suas redes sociais, Mathias Pogba disse que seu irmão, Paul Pogba, contratou um feiticeiro para prejudicar a carreira de Mbappé. O jogador do PSG afirmou, dias depois, que falou com o colega de seleção e que não acredita nas acusações.

O CRAQUE: KYLIAN MBAPPÉ

"Pedala, ajeita para a direita, ajeita para a esquerda: Kylian Mbappé! Corrida, elástico, caneta, chute: Kylian Mbappé!"

Os versos de "Ramenez la coupe à la maison" ("Tragam a Copa para casa") música que virou simbolo do título mundial de 2018, mostram um pouco do que é Kylian Mbappé para os franceses: uma espécie de super-herói, capaz de correr, driblar e chutar com extrema qualidade.

Saindo da canção para os gramados, há quem concorde. "Para mim, hoje, ele é o melhor do mundo. É um cara que pode, sozinho, fazer a diferença. Em uma bola, jogando no espaço ou em um contra-ataque, ele pode definir o jogo. Ninguém consegue acompanhar ele. Se colocar na frente, não tem zagueiro no mundo que pegue", afirma Cláudio Caçapa.

Nos últimos quatro anos, o atacante do PSG cresceu ainda mais. Tornou-se o jogador mais bem pago do mundo, negou uma oferta milionária do Real Madrid, passou a ter influência em decisões estratégicas do clube e da seleção. Fatos que colocam sobre ele uma pressão comparável à de estrelas como Messi, Neymar ou Cristiano Ronaldo em Copas passadas.

Na Rússia, Mbappé tinha 19 anos e era o jovem que batia recordes de precocidade, entrando para a história e tendo feitos superados apenas por Pelé. No Qatar, ele chegará como candidato a craque, a artilheiro, e com a missão de acabar com uma longa maldição das Copas, que já dura 60 anos: a de que a seleção campeã jamais conquista o Mundial seguinte.

A PROMESSA: CHRISTOPHER NKUNKU

O meia Christopher Nkunku tem uma história parecida com a de vários colegas de seleção: sem espaço num grande clube da Ligue 1, acabou brilhando em outra grande liga europeia. Cria das categorias de base do PSG, ele só estourou mesmo no RB Leipzig, e foi eleito o melhor jogador do Campeonato Alemão na temporada 2021-22.

"A formação do jogador francês é muito boa. Por isso ele joga em qualquer liga do mundo. Muitos deles não têm espaço na Liga Francesa, porque os clubes não fazem bons contratos para alguns jovens, e então Alemanha e Inglaterra levam. Nkunku é um exemplo disso", explica Juninho.

Na temporada passada, o francês mostrou que, além de qualidade, tem também muita versatilidade. Atuou como segundo volante, meia, ponta-direita e até centroavante. Esse perfil polivalente pode fazer dele uma peça importante na Copa do Mundo.

"Ele pode fazer a diferença. É um dos atacantes mais completos da Europa neste momento. Ele tem um pouco de tudo, é uma mistura de Dembelé e Griezmann. É o tipo do jogador que não é nota 10 em nenhum fundamento, mas é nota 8 em todos os fundamentos. Talvez ele não comece como titular, mas deve ser usado e ir ganhando espaço aos poucos", analisa Florent Torchut, da France Football.

Na temporada 2021-22, o meia-atacante marcou 35 gols e deu 16 assistências, liderando as duas estatísticas no RB Leipzig. Na seleção, Nkunku ainda não deslanchou. Foram oito jogos - dois amistosos e seis duelos da Liga das Nações -, apenas três deles como titular.

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O QUE ELES DIZEM SOBRE O BRASIL

por José Barroso, do L'Equipe

"Aqui na França, vemos o Brasil muito bem, melhor do que há 4 anos. O time parece mais equilibrado, e Tite tem mais opções, o que é muito importante. Antes parecia que em algumas posições o time era mais fraco, e que isso poderia ser problemático em caso de lesões ou com a ausência de algum jogador, como aconteceu em 2018.

Hoje é um grupo mais completo, e a sensação que dá é muito boa. E isso vai além dos resultados. No papel, é o favorito número 1. Não tem grandes problemas, e está muito bem fisicamente, como no caso de Neymar. Os líderes da seleção estão em grande momento. Não vejo um grande ponto fraco.

Sempre há a dúvida sobre a falta de jogos contra os europeus. Sei que também é difícil jogar no Equador ou no Chile, mas são quatro anos com poucos jogos realmente grandes. Essa é a maior dúvida que fica, mas é verdade que a maioria dos jogadores está na Europa, e eles já estão acostumados aos estilos de jogo do futebol europeu.

Há 4 anos o foco estava na lesão de Neymar e, depois, em tudo o que ele fazia durante a Copa. E isso era um problema. Foi algo parecido com Zidane em 2002, quando ele também teve uma lesão. É muito difícil que a equipe fique tranquila com uma situação assim. Agora, não existe esse problema.

Para nós, na França, chama muito a atenção esse novo grupo de jogadores, essas caras novas: Raphinha, Paquetá, Vinícius... São jogadores que nunca disputaram uma Copa do Mundo, e há muita expectativa. É uma pergunta que nós nos fazemos: como esses jogadores vão desempenhar no mais alto nível?

Antes, eu achava que a França era a maior favorita, com o Brasil logo atrás, e todos os demais muito distantes dos dois. Mas com todas as lesões da França, para mim o Brasil passou a ser o favorito. É a equipe mais completa, tem uma força e uma solidez coletiva, tem o fator individual com Neymar.

Em nível individual e coletivo, a seleção de hoje tem mais opções. Mais do que havia em 2018, e isso pode fazer a diferença em um torneio como a Copa, em que sempre há lesões, jogadores suspensos. É importante ter um plano B, saber mudar durante o jogo e ter peças para isso. Há 4 anos, Tite não tinha esse plano B. Hoje, ele tem."