Atriz cria Blogueirinha do Fim do Mundo para criticar alienação e governo Bolsonaro

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A atriz Maria Bopp, que criou a personagem Blogueirinha do Fim do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram
A atriz Maria Bopp, que criou a personagem Blogueirinha do Fim do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram

Como seria o fim do mundo hoje em dia? Foi com esse questionamento em mente que a atriz e cineasta Maria Bopp, 28 anos, criou a personagem Blogueirinha do Fim do Mundo, que anda viralizando, provocando e criticando pelas redes sociais. Em entrevista ao Yahoo, a artista conta que a ideia de criar a influenciadora veio a partir de um experimento cênico do qual ela fazia parte.

Segundo a atriz, seu objetivo é falar sobre problemas políticos e sociais que acontecem no Brasil desde 2013, mas que são pouco tratados por influenciadores. “É uma ironia sobre uma alienação que existe por parte desse universo. Às vezes, coisas muito graves estão acontecendo no mundo real e muitos influenciadores não se colocam, não se posicionam. Parece que essas coisas que acontecem no Brasil não atingem eles”, afirma.

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Com críticas ao governo federal, a criação da atriz tem a intenção de usar o humor como uma forma de denúncia. Segundo ela, a raiva que ela sente ao ver o noticiário brasileiro faz com que ela tenha combustível para seu trabalho. “Para mim, é exatamente isso. Eu posso até ter humor, mas ela nasce da revolta que eu sinto. Principalmente em relação a essa pandemia e à irresponsabilidade de [Jair] Bolsonaro”.

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Leia a entrevista completa:

Yahoo: Primeiro, eu queria que você me contasse um pouco sobre a sua carreira. Como você começou, sua trajetória…

Maria Bopp: Eu sou formada em audiovisual, eu me formei no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) aqui em São Paulo, em 2012. Mas a carreira de atriz entrou por acaso na minha vida. Uma produtora de elenco me chamou para fazer uma série do Multishow, em 2011, a Oscar Freire 279. Ela me chamou mesmo sem eu ter nenhuma formação de atriz e eu fiz o teste e fiz a série. Na época, eu queria me formar. Então, eu me formei e comecei a trabalhar com audiovisual. Eu trabalhava como continuísta e, em 2015, a mesma diretora, a Márcia Faria, ia dirigir a série da Bruna Surfistinha e me chamou para fazer o teste mesmo sem eu ter atuado entre uma coisa e outra. Eu arrisquei e passei. Aí eu fiz a série Me Chama de Bruna e, a partir dali, eu passei a trabalhar mais com isso. Eu continuei trabalhando como continuísta, mas bem menos. Eu fiz quatro temporadas da série da Bruna e acabei fazendo uma série na Argentina. Fiz outros trabalhos menores e, durante esse tempo, eu abandonei um pouco a parte de criação. Mas, no final do ano passado, eu quis fazer teatro, que eu nunca tinha feito, e entrei em um projeto em que nós, atrizes, também fazíamos parte da criação. Foi durante esse experimento cênico que surgiu a blogueirinha.

Yahoo: Me conte como a blogueirinha surgiu. Foi a partir desse experimento, então? Como foi esse processo?

Maria: Era um experimento em que a gente estava usando o texto O Fim da Partida, de Samuel Beckett, que fala exatamente sobre o fim do mundo. A gente estava muito focada no que seria o fim do mundo para cada uma de nós e eu comecei a trabalhar com essa ideia. Eu comecei a pensar o que seria o fim do mundo. Então, nesse fim do mundo não tem natureza, o ar é muito poluído, mas as blogueirinhas ainda vão existir. É uma ironia sobre uma alienação que existe por parte desse universo. Às vezes, coisas muito graves estão acontecendo no mundo real e muitos influenciadores não se colocam, não se posicionam. Parece que essas coisas que acontecem no Brasil não atingem eles. [A personagem] também existe como uma crítica ao governo federal.

Yahoo: E quando você decidiu compartilhar isso nas redes?

Maria: A ideia da personagem surgiu em novembro e, até então, eu não tinha movimentado isso. Só que, um dia, em janeiro, eu estava em São Paulo tomando sol na minha laje e aí eu recuperei esse texto que estava no bloco de notas do meu celular. E eu falei: “Nossa. Acho que eu tenho que gravar esse vídeo e postar”. Foi depois de algum escândalo do governo. Acho que foi depois daquele do Flávio [Bolsonaro] com os chocolates da Kopenhagen. Da lavagem de dinheiro... eu lembro que foi algo assim. Eu recuperei o texto e comecei a bolar a partir daí. Eu achei que o formato seria legal para a internet.

Yahoo: Quando você percebeu que a blogueirinha tinha sido um sucesso? Foi no primeiro ou teve algum que teve uma explosão?

Maria: Na verdade, o primeiro já foi muito chocante. Teve uma resposta muito boa. Muita gente recebeu pelo WhatsApp. Muitas pessoas que eu conheço falaram que receberam pelo WhatsApp. Então, eu não tive muito controle. Acho que o primeiro foi o que teve mais alcance, ainda mais por ser uma novidade. Eu ganhei 70 mil seguidores logo no primeiro vídeo, a Dilma [Rousseff] começou a me seguir, eu mandei mensagem para ela e ela me respondeu. Depois, foi seguindo quase uma constante. Todos os meus vídeos tiveram uma resposta muito boa. A cada vídeo novo tinha uma pessoa nova me escrevendo. A [cineasta] Petra Costa me escreveu no segundo vídeo. No terceiro vídeo, a [ex-candidata à Presidência] Manuela D'Ávila… sempre teve diferentes pessoas falando, novas pessoas aparecendo… foi quase uma constante.

Yahoo: A gente vive em um época que as pessoas não estão entendendo muito bem a ironia. As pessoas entendem que é uma personagem? Que não é você falando?

Maria: Parte esmagadora entende a ironia. Mas é claro que tem gente que não gosta. Mas teve um vídeo que eu fiz sobre a saída do [Sérgio] Moro do ministério, que eu fiz como se fosse um desabafo de um término de namoro. Aí, muitas pessoas acharam que eu estava falando de um termino meu. Algumas pessoas demoraram para perceber. Eu recebi uns três inbox de pessoas falando: “Nossa… que pena que seu namoro terminou”. Mas isso é raro.

Yahoo: A gente vê que existem vários seguidores do presidente Jair Bolsonaro que são bem violentos, né? Você já recebeu alguma mensagem com ameaça?

Maria: Ameaça eu nunca recebi. Mas, às vezes, acontecem algumas intimidações. Há duas semanas, conseguiram o meu número e me colocaram em um grupo de bolsonaristas e eles ficaram me xingando. Aí eu saía, me colocavam de volta e me xingavam. Mas eu nunca recebi nenhuma ameaça. São só xingamentos ou frases feitas como “tá com saudades da mamata”, “tá com saudades da lei Rouanet”... mas são coisas muito genéricas. Eles me chamam de ridícula, de comunista…

Entre os assuntos explorados pela personagem, está a pandemia de coronavírus. Foto: Reprodução/Instagram
Entre os assuntos explorados pela personagem, está a pandemia de coronavírus. Foto: Reprodução/Instagram

Yahoo: A gente tem visto, principalmente agora, com essa pandemia, o quanto a arte é importante para manter a nossa sanidade. Eu queria saber como você vê a importância da arte na vida das pessoas e a importância do humor para fazer a crítica social.

Maria: Eu acho que, de fato, a arte, quando aliada à crítica social, ganha muito poder e muita potência. Eu vejo muitos programas que são temperados com crítica social. É o caso, por exemplo, dos programas do [Marcelo] Adnet. Eu acho que, programas que têm esse tempero, são programas muito interessantes. É como você falou… a arte se mostra fundamental, hoje em dia, como uma maneira de descanso da mente para desafogar algumas angústias. Eu não sou uma grande entendedora do humor. O humor é algo relativamente novo para mim. Mas, tem um roteirista americano que diz que a raiva é um combustível para o humor. Para mim, é exatamente isso. Eu posso até ter humor, mas ela nasce da revolta que eu sinto. Principalmente em relação a essa pandemia e à irresponsabilidade de Bolsonaro.

Yahoo: Eu vejo que várias das suas inspirações estão ligadas ao Bolsonaro. Como seria se ele não fosse o presidente? A blogueirinha existiria?

Maria: Eu acho que, na verdade, o cenário político é caótico faz alguns anos. Quem me dá esse material é o Bolsonaro, mas eu sinto que, desde 2013, a política no Brasil se tornou um circo e muita coisa que eu uso não é do governo do Bolsonaro. “O gigante acordou” e “o grande acordo nacional”, por exemplo, vieram antes do Bolsonaro. Acho que o Bolsonaro é uma consequência, inclusive, dessa cambalhota política que a gente tem dado nos últimos tempos. A gente está mais passivo diante de tudo… hoje, é em relação ao Bolsonaro, mas, talvez, ela faria sentido antes.

Yahoo: Como as blogueiras reagem à personagem? Elas gostam? Ficam ofendidas? Elas entendem o propósito da personagem?

Maria: Agora, nesse último vídeo, uma grande blogueira famosa começou a me seguir. Ela não me escreveu, não sei o que ela acha, mas não me criticou. Mas teve uma que veio falar comigo. Ela estava em crise por ser desse universo. Ela disse que estava sentindo que poderia fazer algo a mais, que estava a fim de se rebelar… a gente conversou sobre isso como amigas. Uma outra blogueira veio me criticar. Ela me criticou publicamente e eu nem apaguei o comentário. Ela disse: “Fazer isso é desnecessário. A gente não está fazendo nada de errado… estamos compartilhando um conhecimento”. Eu entendi e entendo isso. Acredito que têm muitas blogueiras interessantes, que são influenciadoras do bem. Eu nem acho os assuntos que elas tratam fúteis. Todo assunto é válido. Mas eu acredito que, muitas delas, não falam sobre política. Eu sei que ninguém é obrigado a falar de política. Mas, diante de tantos absurdos, essa isenção não é justificável.

Yahoo: Eu acho que foi o youtuber Felipe Neto que falou, recentemente, sobre a importância de os influenciadores se posicionarem politicamente. Ele falou que, nesse momento, os influenciadores que se calam são coniventes. Você concorda com essa fala dele?

Maria: 100%. Se você for ver minhas entrevistas desde o meu primeiro vídeo, eu falo isso. Eu concordo 100% com ele. Durante o ano passado, toda vez que o Bolsonaro falava algum absurdo, eu entrava na página de várias celebridades e influenciadores para ver como eles se colocavam e eles não falavam nada. Era só um feed de selfies, capas de revista, roupas maravilhosas... e eu ficava pensando: “Em qual país essas pessoas vivem? Eu queria viver nesse país que nada está acontecendo”. Então, de fato, eles perdem uma oportunidade muito grande de educar o público. Em um país como o Brasil, que tipo de mulheres elas acham que seguem elas? A maioria delas não é rica, magra, linda como elas. Então, eu acho até egoísta essa ostentação. Então, total. Concordo com ele e acho que a gente está chegando no limite das pessoas terem que se posicionar.

Yahoo: E qual é o futuro da blogueirinha? Ela vai continuar nas redes? Você pensa em fazer uma série sobre ela?

Maria: A princípio, a blogueirinha continua na internet. Eu tenho várias ideias de vídeos que eu estou escrevendo. Mas eu acho que ela funciona mais para a internet mesmo. Não consigo pensar nela para fora de internet.

Atriz já foi xingada por bolsonaristas. Foto: Reprodução/Instagram
Atriz já foi xingada por bolsonaristas. Foto: Reprodução/Instagram

Yahoo: E existe algum personagem novo que você esteja criando agora?

Maria: Eu acho que, agora, eu estou focando nela. Eu tinha alguns projetos como atriz que estavam acontecendo antes da pandemia, mas, agora, está tudo em uma pausa. Eu estou focando nisso agora. Até para poder criar e resgatar essa paixão antiga de criar e falar sobre política. Infelizmente, eu não consigo falar de outra coisa.

Yahoo: Como você acha que vai ficar a situação dos artistas depois da pandemia? Como você acha que será esse cenário?

Maria: É muito preocupante. Inclusive, hoje estava rolando uma conversa sobre uma lei da emergência cultural. Isso é exatamente para proteger artistas que estão sofrendo nessa pandemia. A gente depende muito de aglomerações para o nosso trabalho e muita gente vai ser afetada por isso. Quando a gente fala de artistas, muita gente pensa que artistas são ricos. Acho que elas têm a impressão de que artistas são só os que trabalham em grandes emissoras. Mas isso é uma minoria. Existe desde artistas de rua, de circo, que estão no palco, a equipe técnica, são os profissionais autônomos… essas pessoas têm que ter uma preocupação. O governo tem que olhar para essas pessoas. Tem que olhar exemplos de outros países que estão criando regras para a cultura e se inspirar.

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