Atletas se dividem sobre Tóquio-2020 de portões fechados: 'Público é apenas confete'

Carol Knoploch
·6 minuto de leitura

O ambiente de incerteza tomou conta de vez dos Jogos de Tóquio. Nesta sexta-feira, autoridades japonesas e o Comitê Olímpico Internacional (COI) se apressaram para desmentir veementemente um artigo do “The Times” que afirmava que o Japão “busca uma maneira de cancelar a Olimpíada por causa da Covid-19”. Segundo o jornal inglês, um integrante do governo revelou que já está configurada a impossibilidade de realização dos Jogos, mas ninguém quer ser o primeiro a dar a notícia. A questão seria como desembaraçar os diversos nós contratuais com o COI, patrocinadores, detentores de direitos de transmissão, fornecedores, federações, entre outros.

O Comitê Organizador, o COI e autoridades do Japão negaram que um novo cancelamento esteja sendo considerado e afirmaram que a notícia era “categoricamente falsa”. Os órgãos dizem que o evento será disputado e que “não há plano B”, mas esse discurso já foi ouvido no ano passado, meses antes do evento ser adiado para julho deste ano.

Em pesquisa recente, cerca de 80% dos japoneses disseram que não querem o evento. Pedem o adiamento ou cancelamento. O presidente do COI, Thomas Bach repetiu que os meses de março e abril serão fundamentais e que nenhuma decisão drástica será tomada até lá. O dirigente acredita que, daqui a dois ou três meses, já estará mais claro o panorama da vacinação no mundo inteiro. Quando a Olimpíada foi cancelada no ano passado, dia 24 de março, faltavam 121 dias para a abertura dos Jogos que seria no dia 24 de julho. Agora, faltam seis meses para a abertura da Olimpíada.

Segundo o Comitê Olímpico do Brasil (COB), nas recentes reuniões feitas com o COI não se tratou do assunto cancelamento nem de vacina para a Covid-19, apenas de protocolos de segurança e realização de testagem em massa.

O Japão, por exemplo, ainda não começou a vacinar seus cidadãos. Mas, o Comitê Organizador endossou o pedido do COI para que os Comitês Nacionais vacinem seus atletas antes da viagem ao Japão “em consideração ao povo japonês” — o COB já informou que não fará movimento para “furar a fila” e vacinar o Time Brasil. A falta do imunizante e as disputas dos eventos classificatórios para os Jogos, que começam em fevereiro, complica o quadro. Apenas 57% das vagas olímpicas estão decididas.

Em meio a tanta incerteza, os atletas seguem treinando e tentando manter o foco. Junto às notícias do possível cancelamento, também aparece o rumor de que o evento poderia ser realizado sem público.

— Jogos com público, nesse cenário, são um risco extra que se torna desnecessário. A prioridade, na minha opinião, precisa ser a realização dos Jogos seguros — opinou Bruno Fratus, nadador que busca índice para Tóquio. —Algo que 2020 nos ensinou é que não adianta absolutamente nada, para nós atletas, focar em situações fora do nosso controle. Se não tiver Olimpíada em 2021, o foco automaticamente se torna o Mundial de 2022.

Segundo ele, exemplos de ligas profissionais mundo afora, com formatos apenas para TV, fazem sucesso. Bruno afirma que esta pode ser uma oportunidade, mesmo que em cima da hora e devido a circunstâncias tão infelizes, de modernizar ainda mais os Jogos Olímpicos e criar um modelo sob demanda, feito exclusivamente para o espectador, seja esse PVV, streaming, etc:

— Sobre ter graça... Ela está em cumprir a missão de levar a bandeira brasileira ao lugar mais alto possível. Público e clima, se analisados de maneira fria e objetiva, são apenas confete.

Coordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos da USP, Katia Rubio é contra a lógica do evento a qualquer custo pois negaria a própria essência da Olimpíada. O adiamento ano passado já interrompeu a cerimônia de um evento a cada quatro anos.

— Vejo as competições sem público como um arremedo de esporte, um faz de conta. É importante manter aquilo que é próprio do esporte como ritual, não como um negócio a ser vendido. Sem o público, a competição perde o valor — diz a professora, que acredita no cancelamento. — Mesmo sem público, serão 20 mil pessoas, pelo menos, no evento. Como controlar? Como o cancelamento geraria um impacto tão grande, as decisões vão sendo ditas aos poucos. Foi assim ano passado com o adiamento.

O velejador Jorge Zarif tem motivos de sobra para nem pensar em cancelamento dos Jogos ou mesmo transferir esta edição para 2032, como sugeriu o artigo do jornal inglês. Sua classe, a Finn, estará fora do programa olímpico de Paris 2024 e esta edição de Tóquio pode ser sua última chance de ir disputar mais uma Olimpíada. Mas o atleta parece não estar otimista:

— Difícil falar em tantas possibilidades, com ou sem público, e outras mais. O Japão investiu muito dinheiro e um dos retornos é justamente o do público. Que além dos Jogos, viaja para conhecer o país. E isso prejudicaria muito o Japão e também algumas modalidades, como as de arena. Perde um pouco da graça, da sua essência. Mas se a forma encontrada para reduzir riscos for esta, tem de ser feita — comenta Zarif. — Esta seria a minha última Olimpíada. Mas não adianta colocar a minha história na frente de tudo isso que está acontecendo.

Zarif observa que os Jogos são um evento que "traz esperança para todos, que faz muita gente se desligar do momento que vive, muitas vezes negativo. E que estamos há um ano nesse momento difícil".

— Mas não adianta fazer Olimpíada a qualquer custo. Obviamente que eu adoraria que tivesse Olimpíada mas em circunstancias boas. Nada que fosse colocar mais pessoas em risco. Se fosse hoje, por exemplo, não teríamos condições de ter os Jogos. Mas, é difícil projetar qualquer coisa. Nunca vivemos numa pandemia assim — conclui Zarif, que gostaria de que os atletas viajassem vacinados, se possível, sem "furar fila". — Temos escassez de vacina no Brasil e é preciso pensar na sociedade como um todo nesse momento.

Ansioso para participar da estreia olímpica do surfe, Italo Ferreira pensa positivo e acredita que será possivel a realização dos Jogos, dentro das medidas de segurança. O campeão mundial lamenta a possibilidade da Olimpíada ser realizada sem a presença de público:

- Vai ser estranho, diferente não sentir a energia da galera, mas também estamos vivenciando algo parecido nas competições dos mundiais que estão acontecendo e, como disse, dentro de tudo que estamos vivendo, penso que a segurança deve vir em primeiro lugar.

A ginasta Flavia Saraiva evita pensar no assunto. Ela continua com seu treinamento para as datas marcadas. Porém, reconhece que a questão sanitária tem de vir em primeiro lugar.

— Se for o caso de adiar, tem que adiar. Amo competir com público, sentir o calor humano, mas se não tiver... sei que todo mundo estará torcendo muito em casa.