Atletas e técnicas denunciam descaso com futebol feminino no Brasil

Yahoo Esportes

Uma série de denúncias tem mostrado a dura realidade do futebol de mulheres no Brasil. Poucos dias após o término da maior Copa do Mundo Feminina da história, que mostrou o potencial da modalidade, atletas e treinadoras brasileiras tem jogado luz nos perrengues que precisam enfrentar para poderem exercer sua profissão.

No último sábado, após a derrota do Sport por 9 a 0 para o Santos, a meia-atacante Sofia Sena afirmou que a equipe feminina não recebe qualquer apoio ou investimento do clube. Ao Deixa Ela JogarSofia manteve a postura crítica, falou sobre as condições de treino e disse que há um sentimento de medo entre as companheiras para cobrar melhorias.

Leia mais de futebol feminino no Yahoo Esportes

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Na segunda-feira, foi a fez de Jéssica de Lima, técnica do sub-18 da Ponte Preta, ir às redes sociais com um desabafo. Responsável por lavar os uniformes das jogadoras durante a disputa do Brasileiro Sub-18, na cidade de Bálsamo, Jéssica falou que sonha com o dia em que o trabalho das pessoas do futebol feminino se restrinja apenas à beira do campo, já que o clube não designou um roupeiro para a equipe na competição.

Os problemas estão tanto nos clubes — que muitas vezes só montaram equipes femininas por causa da obrigatoriedade de CBF e Conmebol e nem sequer oferecer as condições necessárias para a equipe atuar — quanto nas entidades que gerem o esporte. Como mostrou o blog, as equipes que participam do primeiro campeonato nacional de base organizado pela CBF precisam enfrentar uma verdadeira maratona, com seis jogos em dez dias, o que causa receio por parte dos preparadores físicos em relação a desgaste e lesões das jogadoras.

Na madrugada desta terça, a técnica Emily Lima — que já esteve à frente da seleção brasileira e hoje comanda o Santos — mostrou que as jogadoras tiveram que dormir no saguão de um hotel por erro logístico da empresa contratada pela CBF.

“Essa é a organização do nosso futebol para mulheres no Brasil. Saímos de Santos às três horas da tarde, e a senhora CBF e senhora Pallas, a empresa que faz toda nossa logística de viagem... não tinha voo para amanhã (terça), mandaram num voo hoje (segunda), picado, com escala em Brasília, e chegamos ao hotel e não tem vaga para nós. Então, vamos dormir aqui hoje. Vamos dormir aqui na recepção do hotel", disse a treinadora.

Após o ocorrido, o Santos divulgou uma nota lamentando o ocorrido e exigindo que esse tipo de problema “não mais prejudique o desempenho físico e emocional das atletas nas competições".

Em nota enviada ao blog, a CBF disse que vai tomar os devidos cuidados para o episódio não se repetir e reafirmou o compromisso de buscar as melhores condições para as viagens das equipes.

“Assim que chegou ao hotel designado, [a delegação do Santos] foi informada que o check-in só poderia ser feito no início da manhã. Um agente de viagens local, parceiro da CBF, resolveu o problema e conseguiu outro hotel, para onde a equipe seguiu 50 minutos depois. A confederação lamenta o episódio e está cuidando para que não seja repetido. [...] A CBF ressalta ainda que a organização do campeonato busca sempre as melhores condições para a viagem das equipes, sempre levando em consideração o tempo necessário de descanso das atletas e o interesse dos clubes. Eventuais conexões e esperas em aeroportos devem-se às disponibilidades da malha aérea nacional.”

Diante dos problemas, a atacante do Santos Patrícia Sochor aproveitou a deixa de Emily e foi ao Instagram fazer um longo desabafo sobre as condições do futebol feminino no Brasil.

Citando o sucesso da Copa do Mundo da França, falou sobre a contradição de se pedir profissionalismo das atletas ao mesmo tempo em que faltam campos decentes para treinar e estádios para jogar e sobram problemas de alojamento, calendário, de logística das viagens e assistência médica. Por fim, fez um apelo por “respeito, visibilidade e reconhecimento” e pela união das atleta.

“Porque se nós dependêssemos de vocês para ser profissionais, me pergunto onde estaríamos, porque vocês não nos dão suporte algum! Prazer, futebol feminino!", escreveu a jogadora, deixando claro que não fala do Santos, mas dos problemas gerais da modalidade. “Quem acha que faltou algo, coloque nos comentários, o que falta aí no seu clube? JÁ PASSOU DA HORA DE NOS UNIR!”

No final do dia, até Cristiane engrossou o coro. Também pelo Instagram, a camisa 11 da seleção brasileira sugeriu uma “reciclagem” nas pessoas que colocamos para trabalhar com a modalidade no país e pregou a união das atletas.

No Brasil sempre persistiu a cultura da “glamourização do perrengue", como definiu a jornalista Lu Castro, uma das pioneiras da cobertura da modalidade. “É aquela ideia da meritocracia: só tem valor se a pessoa se esfola pra conseguir. No futebol feminino não é diferente. Por que raios tem que ser assim? Pode ser mais fácil também, oras. Me irrita muito essa glamourização do perrengue, porque se não tivéssemos pessoas com olho maior que a barriga, as condições seriam menos desiguais.”

Parece, contudo, que o sucesso da Copa do Mundo da França está fazendo eco por aqui e levando diversos agentes do futebol feminino a levantarem a voz contra os problemas de sempre.

O futebol feminino só vai avançar quando os clubes, federações e confederações fizerem sua parte, investindo na base, estruturando melhor o calendário e dando equidade de condições para as equipes trabalharem. Mas isso começa quando as pessoas que estão na modalidade param de aceitar as migalhas historicamente destinadas a ela e se unem para lutar por melhorias — e também, fazendo aqui um mea culpa, quando a mídia se preocupa em dar visibilidade para essas questões.

É compreensível que as atletas tenham receio de denunciarem as condições por medo de represálias e de perderem o pouco que têm, mas é preciso lembrar que no futebol de mulheres — proibido por lei no Brasil por quase 40 anos e alvo de preconceito até hoje —, nada foi dado, e sim conquistado. Que a visibilidade trazida pelo Mundial possa ajudar as protagonistas a mudarem essa história.

Leia também