Atletas do Afeganistão se desesperam e pedem ajuda após retorno do Taleban

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A tomada do poder no Afeganistão pelo grupo fundamentalista Taleban, de inevitáveis reflexos em toda a sociedade do país, já tem consequências palpáveis no mundo esportivo. Há jogadoras de futebol escondidas, temendo represálias, e atletas classificados aos Jogos Paraolímpicos de Tóquio que não conseguem deixar o território afegão.

É o caso de Zakia Khudadadi, que seria a primeira mulher do país a competir na história das Paraolimpíadas, no parataekwondo. Presa em Cabul, cujo aeroporto tem registrado cenas aterrorizantes, ela enviou à agência Reuters um vídeo, por meio do chefe de missão Arian Sadiqi, solicitando ajuda.

"Eu peço a vocês, mulheres ao redor do planeta, instituições que protegem mulheres, organizações governamentais, não deixem que os direitos de uma mulher afegã no movimento paraolímpico sejam retirados tão facilmente", afirma na gravação a atleta, dizendo não se sentir segura para sair de casa.

Ela e Hossain Rasouli, que pretendia competir no lançamento do disco, tinham sua chegada ao Japão inicialmente programada para terça (17). O caos no aeroporto cancelou voos comerciais, e só uma reviravolta improvável permitirá que eles disputem o torneio paraolímpico.

Assim, o único nascido no Afeganistão a participar dos Jogos para pessoas com deficiência deverá ser Abbas Karimi, que defende o time de refugiados. O nadador vive nos Estados Unidos e se tornou o primeiro refugiado a conquistar uma medalha internacional em campeonatos de primeira linha, ficando com a prata da categoria S5 no Mundial de Paranatação, em 2017.

Para quem ficou no Afeganistão, sobretudo as mulheres, a situação é mais preocupante. Durante o período em que esteve no poder no país, entre 1996 e 2001, o Taleban proibiu que as jovens fossem à escola e que as adultas trabalhassem ou saíssem de casa sem um acompanhante. A prática de esportes por elas era proibida.

Porta-vozes do grupo fundamentalista chegaram a se pronunciar prometendo desta vez uma abertura maior. Afirmaram que vão respeitar os direitos das mulheres de acordo com a lei islâmica e convidá-las a participar do novo governo. Quem já sofreu com a perseguição, porém, demonstra ceticismo. E medo.

"Tenho dificuldades para respirar e dormir sabendo que a vida de muitas mulheres e meninas no meu país, Afeganistão, está em perigo", publicou a ex-jogadora Khalida Popal, em suas redes sociais.

Ela foi a primeira capitã da seleção feminina de futebol afegã, entre 2007 e 2011, e depois passou a atuar como diretora da federação do país. Mesmo sem o Taleban no poder, as ameaças a levaram em 2016 a buscar asilo na Dinamarca, de onde ela acompanha a crise atual.

Dirigentes da Federação de Futebol do Afeganistão também estão temorosos, justamente pelo apoio demonstrado ao futebol feminino. Preocupados com uma possível represália, alguns deles estão buscando apoio e asilo na Índia, com colegas da Football Delhi, a associação de futebol de Nova Déli.

Ainda mais desesperadas, afirma Popal, estão as jogadoras. Ela disse à agência AP que recebeu mensagens de atletas aflitas e as aconselhou a deixar suas casas e se refugiar com familiares. Também as orientou a excluir de redes sociais fotos jogando futebol. Ela mesma derrubou as contas da seleção feminina.

"Isso parte o meu coração, porque durante todos esses anos nós lutamos para aumentar a visibilidade das mulheres. E agora estou dizendo às minhas mulheres no Afeganistão para se silenciar e desaparecer", lamentou a ex-jogadora. "É dolorido ver que os sonhos e esperanças de mulheres e meninas afegãs estão desaparecendo de novo."

Também foram de desânimo as mensagens do jogador de críquete Rashid Khan, que não conseguiu tirar a família do país. "A guerra contínua no Afeganistão levou a uma crise humanitária", publicou ele, que iniciou uma campanha de arrecadação de fundos para os afetados pelo conflito.

O críquete é um dos esportes mais populares no Afeganistão, e a federação contratou 25 jogadoras em novembro de 2020 para montar um time feminino. Os esforços, acredita agora a organização, serão interrompidos.

"Nós mantivemos os salários, e elas estão na nossa folha de pagamento. Se o governo decidir que não poderemos ter a seleção feminina, teremos que interromper", disse o executivo da entidade.

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