Atleta, agente social e cartola, Aline Silva coloca o wrestling brasileiro no mapa

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Entre 2007 e 2008, Aline teve de abandonar o wrestling. Havia se mudado para Curitiba por ter recebido convite para um projeto (Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB
Entre 2007 e 2008, Aline teve de abandonar o wrestling. Havia se mudado para Curitiba por ter recebido convite para um projeto (Foto: Saulo Cruz/Exemplus/COB

Nos meses que antecedem o momento esportivo mais importante de sua vida, Aline Silva não tem tempo para nada. Aos 34 anos, o principal nome do wrestling brasileiro concilia os treinos para a Olimpíada de Tóquio com a administração de sua ONG na Baixada Santista e a vice-presidência da Confederação Brasileira de Wrestling (CBW).

No final do ano passado, ela passou por período de treinos em Portugal. Até então estava ansiosa porque, por causa da pandemia, tinha as atividades restritas a atividades físicas.

"O tempo é contado. Estou com horário para tudo para conciliar as atividades. Por causa da Covid estava difícil porque para treinar luta, é preciso ter contato, mas eu não queria correr riscos desnecessários", afirma ela.

Se antes estava ansiosa para voltar aos treinos normais, agora ela vive a expectativa da viagem ao Japão. Em 2016 Aline era apontada como esperança de medalha para o Brasil nos Jogos do Rio. Perdeu nas quartas de final, a uma luta de pelo menos disputar o bronze. Ela está classificada para Tóquio desde março de 2020, quando ficou com a vaga em uma seletiva Pan-Americana.

"Vou chegar bem, mas esse ciclo foi difícil", afirma, citando o período que separa os dois Jogos. "Tive trombose na perna esquerda em 2017 ao voltar de um torneio nos Estados Unidos. Tive de parar de lutar por alguns meses por causa da medicação. Sofri depois uma lesão no joelho durante o Pan-Americano de 2018. Só voltei a competir no Pan de Lima", ressalta.

No evento realizado no Peru, em 2019, ela ficou com a medalha de prata.

Os treinos podem ganhar prioridade na vida de Aline por ser a sua profissão e pela proximidade da Olimpíada, mas ela também encontra tempo para o "Me Empodera", sua ONG que oferece aulas de wrestling e inglês para crianças carentes no Jardim Nova República, popularmente chamado de Bolsão 8, em Cubatão, no litoral paulista.

"O projeto foi criado em 2018. Não sei o número ao certo, mas tivemos mais de 150 meninas que passaram pelas aulas. Hoje também temos meninos. É uma ideia de mostrar para as mulheres que elas também podem fazer lutas, se quiserem. Não é coisa para homens. Se a menina quiser ser lutadora, ela pode. Ainda existe essa imagem que esse esporte não foi feito para elas", afirma.

Com a pandemia, as coisas ficaram mais difíceis porque as aulas não poderiam ser presenciais. Aline quis fazê-las pela internet mas seus alunos e alunas não tinham recursos. Lançou então uma vaquinha virtual para comprar créditos para celular, assim poderiam acompanhar os exercícios e lições. A ONG se mantém com trabalho de voluntários e doações.

"Os meninos fazem as aulas em horário diferente para as meninas não ficarem inibidas e terem seu próprio espaço para se desenvolverem (no wrestling)", completa.

Em dezembro do ano passado, ela acumulou outra função. Na chapa liderada por Flavio Cabral Neves, foi eleita vice-presidente da Confederação Brasileira de Wrestling (CBW). A vitória aconteceu após disputa para liberar os atletas a participarem da votação.

"Foi a primeira oportunidade para que os maiores interessados, os atletas, pudessem participar do processo e isso é o mais importante. É uma responsabilidade estar nessa posição porque precisamos fazer um trabalho que corresponde à expectativa", afirma ela.

Ir de atleta, a agente do terceiro setor e depois dirigente poderia soar como caminho natural para alguém com tamanha consciência social. Principalmente para quem tem consciência de onde veio e do próprio passado.

Entre 2007 e 2008, Aline teve de abandonar o wrestling. Havia se mudado para Curitiba por ter recebido convite para um projeto que não deu certo. Ficou sem ter onde treinar. Deu aulas de jiu-jitsu, vendia alfajores e fazia bicos como segurança na porta de banheiros femininos de casas noturnas. Com tinha bolsa de estudos para estudar educação física no Paraná, percebeu que tinha de ficar.

"Foi o Sesi que, ao me chamar para o time deles do wrestling, em 2009, em São Paulo, que me trouxe de volta ao esporte", se recorda.

O wrestling nem foi seu primeiro esporte. Aline começou no judô, a modalidade que, ela mesma reconhece, mudou sua vida e lhe deu a disciplina que não tinha como criança. Muito pelo contrário.

"Minha mãe trabalhava e ficava fora de casa o dia inteiro. Aos 11 anos eu tive de ser internada com coma alcoólico. Eram amizades que eu tinha na escola. Apavorada, minha mãe me trocou de colégio e foi aí que descobri o judô", relembra.

Convidada a treinar no Centro Olímpico, em São Paulo, começou a praticar o wrestling. Viu que tinha talento. Foi medalha de prata no Mundial adulto em 2014, na categoria até 75 kg.

"Através do esporte eu pude me tornar quem sou hoje. Acredito no poder do esporte como transformador social pois testemunhei seu poder em minha vida", finaliza a atleta que, em julho, pode obter o maior resultado de sua carreira.