No auge da pandemia, quem vai dividir as esteiras e supinos só porque Bolsonaro autorizou?

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O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

O Brasil não elegeu um presidente.

Elegeu um Messias enviado dos céus com o corpo fechado ao ferro e ao fogo do sistema para governar contra tudo e contra todos e instaurar o reino da ordem.

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Para isso precisou vencer a horda de opositores corruptos, aliados de ocasião, Judas de todo tipo e se cercar pelos soldados mais fiéis, coincidentemente afiançados pelos laços sanguíneos entre pai, filhos, amigos dos filhos e cônjuges dos amigos dos filhos.

Eleito, faria jorrar leite, mel e nióbio das propriedades naturais cobiçadas como virgens por tarados estrangeiros em dobradinha com os órgãos fiscalizadores das estradas, do meio ambiente e dos direitos humanos.

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Com a espada sagrada, tiraria da boca das crianças as mamadeiras de bicos inapropriados e reinstauraria a inocência perdida, em que meninas voltariam a vestir rosa e brincar de casinha, e meninos resgatariam o azul e as armas de calibre pesado para marcar a virilidade até ao descobrir o sexo dos herdeiros.

Fernando Pessoa dizia que o mito é o nada que é tudo.

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O mito bolsonariana começou a perder fôlego em meados de março de 2020, quando os índices de desemprego e a apuração do PIB do ano anterior pediam novas interpretações dos fatos, com pendores criativos a respeito de um certo PIB privado a se destacar em meio à diminuição dos gastos públicos, emparedados pelo suposto fim da corrupção, do toma-lá-dá-cá e a autonomia dos critérios técnicos para formar gabinetes.

Ninguém sabia exatamente quais eram os méritos, em sua área de atuação, de ministros da Educação que assassinavam a língua portuguesa em cada postagem, mas na mitologia mitômana bastava falar em nome de Deus para provar que os bons princípios ofuscariam, quase  naturalmente, os maus modos dos condutores.

E então veio a pandemia.

Com ela, uma janela para o mito nu criar uma realidade paralela: o Messias era agora crivado pelas balas da imprensa e do establishment enquanto, sozinho, corria nas águas turvas a bordo de um jet ski preocupado em encontrar a cura milagrosa, evitar histeria e salvar a economia de supostos aproveitadores escondidos no Cavalo de Wuhan, a Tróia do século 21.

A gritaria fala diretamente com os setores mais desesperados, e com razão, da sociedade: os profissionais que dependem da circulação da economia para sobreviver.

É a eles que o Messias fala quando joga o colapso econômico na conta de governadores e prefeitos que, a exemplo das experiências internacionais minimamente efetivas, buscam restringir a circulação humana para achatar a curva de contaminação. 

A estratégia era clara: nas redes, ele espalhava a sua própria versão dos fatos com números, notadamente tímidos, do socorro às vítimas da pandemia, um socorro que precisou do tão enlameado Congresso para ganhar alguma massa muscular de dignidade antes de pingar no bolso dos setores mais devastados pela pandemia.

Enquanto isso, esquivava-se das baixas humanas da pandemia, provas irrefutáveis, segundo essa narrativa, de que a quarentena só serviu para quebrar o trabalhador.

Jair Bolsonaro fala como se governasse a Chicago dos anos 30, e não o Brasil de 2020. Entre março e abril, ninguém foi exatamente incriminado por furar a quarentena e se aventurar, sem máscaras, pelo centro clandestino da cidade em busca de materiais específicos.

Onde eu moro, era possível encomendar produtos e serviços nos estabelecimentos de portas semi-abertas, e pelas praças todo dia era dia de feriado para quem não tinha mais o que fazer com as crianças em seus apartamentos e para adolescentes que se reuniam em grupo para contar histórias e dividir o narguilé. Tudo isso eu testemunhei num dos raros giros pela cidade para comprar jornal.

Com a tesoura da história que recorta e cola só o que convém, Bolsonaro jamais vai admitir o peso de sua irresponsabilidade cada vez que saiu às ruas para proferir groselhas, abraçar apoiadores e curtir a vida adoidado. Prefere dizer aos prováveis e possíveis eleitores que o choque inevitável da pandemia em seus negócios é culpa dos governadores que passaram os últimos dois meses fazendo das tripas coração e montar uma estrutura mínima de atendimento hospitalar para quando os índices de contaminação explodissem na bomba-relógio. Agora ela explodiu.

Bolsonaro gastou mais energia fritando seus ministros mais populares, e forçando mudanças de alinhamento na Polícia Federal, do que orientando seu povo eleito a atravessar o deserto sanitário da pandemia em segurança.

Agora, de novo, joga para a torcida, sem consultar sequer seu ministro da Saúde, pego despreparado com o anúncio de que, entre as atividades essenciais que poderão voltar à normalidade no país que ultrapassa os 10 mil mortos pela “gripezinha”, estão barbearia, manicure e academias.

No mundo paralelo forçadamente criado por Bolsonaro, as crianças só não estão na escola sob o risco de perder o ano letivo porque assim quiseram as mãos pesadas dos gestores estaduais. Mentira. 

Entre o anúncio da pandemia e a confirmação da quarentena, os próprios pais se negavam a enviar os filhos para a escola naquele mundo já pandêmico em que ninguém sabia quais perigos estavam à espreita da contaminação. As restrições foram uma resposta a quem, entre perder o ano e perder os filhos, optavam pela lógica.

Da mesma forma, as academias, ora essenciais, podem escancarar as portas, botar alto-falante na entrada, anunciar combos e promessas de milagres estéticos: com ou sem a bênção do presidente cada vez mais decorativo, quem, diante das notícias, vai se habilitar a frequentar um espaço fechado e dividir esteiras, vestiários e supinos no auge de uma pandemia que se prolifera pelo ar?

A rede do ódio vai precisar se esforçar muito para espalhar imagens falsas de caixões vazios para convencer o mundo fitness de que tudo não passa de uma grande conspiração chinesa para atrofiar os músculos do trabalhador brasileiro.

Bolsonaro provavelmente sabe que sua caneta é inócua neste momento. Se não sabe, deveria se esforçar um pouco mais para ver além da vidraça palaciana.

Sua piscadela aos setores que quer fidelizar como base eleitoral, a começar pelos donos do negócio que bancaram sua aventura e agora gritam ao seu ouvido, é só parte de um populismo rasteiro de quem, como notou o secretário da Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles, não percebe, ou finge não perceber, que a culpa da pancada econômica é da pandemia, não da quarentena.

Neste cenário, Bolsonaro pode transformar até rinha de galo em serviço essencial. Resta saber se o venerável público estará disposto a correr o risco de não voltar para casa só porque as comportas da irresponsabilidade foram abertas.

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