Guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho quer dinheiro, não amor sincero

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O guru bolsonarista Olavo de Carvalho . Foto: Joshua Roberts/Reurters
O guru bolsonarista Olavo de Carvalho . Foto: Joshua Roberts/Reurters


Forças nada ocultas, apoiadas por parte da mídia, açoitam o presidente da República das mais variadas formas para deslegimitá-lo ou atrapalhar a governança.

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Foi o que escreveu um revoltado próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, em sua conta no Twitter na segunda-feira (8).

Fazia quase 24 horas que, de fato, forças nada ocultas haviam dito o seguinte sobre o presidente. “Continue inativo, continue covarde e eu derrubo essa merda desse seu governo, governo aconselhado por generais covardes ou vendidos”.

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O petardo não partiu de nenhuma faixa ou bandeira estendida nos protestos de domingo (7) contra a inapetência do governo durante a crise do coronavírus. Partiu da Virgínia, nos EUA, onde Olavo de Carvalho, o guru do governo perguntava: “O que Bolsonaro fez para me defender? Bosta nenhuma. Aí vem com condecoraçãozinha. Enfia a condecoração no cu. Porque eu fui seu amigo, mas você nunca foi meu amigo. Quantos crimes contra o Olavo você investigou, seu Bolsonaro? Nenhum. Você nem se interessou.”

Ao menos até o fechamento deste post, o presidente que desfila de cavalo e manda jornalista calar a boca não havia ensaiado qualquer resposta.

Bolsonaro poderia dizer que não pretende dar palanque para as opiniões de alguém irrelevante, mas não é o caso. Pouco mais de um ano atrás, Olavo estava sentado ao seu lado num jantar com lideranças conservadoras em Washington, em uma das primeiras viagens internacionais do presidente desde a posse.

No evento, Bolsonaro disse que o homem que agora promete derrubar “essa merda desse governo” foi um de seus grandes inspiradores e inspirador de muitos jovens no Brasil (inclusive seus filhos, vale lembrar). “Em grande parte, devemos a ele a revolução que estamos vivendo.”

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Foi naquele mesmo jantar que Bolsonaro admitiu que “o Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo”. Em vez disso, “nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa.”

Percebe-se.

Quem acompanha as sandices do guru bolsonarista nas redes duvida que a exposição do porrete seja uma declaração de guerra ou mesmo o anúncio de um possível rompimento. O problema são as inúmeras condenações judiciais que tem sofrido no Brasil -- uma delas, milionária, movida por Caetano Veloso.

Sem dinheiro, ele chegou a ofender o empresário bolsonarista Luciano Hang, “gente que não tem cultura e não gosta de quem tem”. Chamou o dono da Havan de “palhaço” que se veste de Zé Carioca. 

Tudo porque o empresário foi visitá-lo, prometeu ajuda e “acabou de gastar R$ 258 milhões pra comprar um aviãozinho”. “Quantos advogados esse cara pagou para mim?”

O empresário que costuma rugir contra o comunismo, o politicamente correto e outras fantasias dessa vez miou. Alvo do inquérito das fake news, Hang disse que tudo não passou de um desabafo. Para ele, o guru tem razão. Tanta razão que não só levou o desaforo para casa como correu para pedir, num grupo privado, apoio financeiro para ajudar o ofensor que tanto luta pela direita no Brasil.

Em contato com a coluna Painel S.A, da Folha, ao menos quatro empresários alinhados ao bolsonarismo já disseram que se negam a dar dinheiro a Olavo. 

Depois dos ataques, Olavo reapareceu em um vídeo, já recomposto, dizendo que segue junto com o presidente por quem pretende lutar com todas as armas.

Mas o silêncio de Bolsonaro sobre o ataque frontal não é só sinal de desprestígio. É sinal de fragilidade. 

Os militares são hoje o corpo e a alma do governo, e seu comandante não ensaiou qualquer defesa de seus comandados ao ver um inspirador chamar os generais de sua administração de “burros”, “covardes”, quiçá “traidores”. “Eu não confio mais em ninguém nas Forças Armadas. Essa gente não vale o que peida. Nunca fizeram nada pelo Brasil. Fazem o quê? Serviço de transporte e de obras públicas. É uma empresa de construção civil e de transportes. É isso o que fazem. Daí vêm se gabar: 'Ah, nós levamos cinco mil injeções de cloroquina lá para o Nordeste. Cinco mil cloroquinas cabem dentro de um teco-teco, gente! E os caras vêm se gabar de ter feito essa merdinha? Que que é isso, porra?”.

Frankenstein que deu liga, num mesmo corpo, a diversas correntes políticas chocadas no ovo do conservadorismo dos últimos anos, o governo Bolsonaro opera hoje desfalcado da ala lava-jatista, de quem se divorciou desde a demissão de Sergio Moro, da estrutura partidária do PSL e de parte dos eleitores que viram se esborrachar na primeira esquina a promessa de formar uma equipe ministerial técnica desapegada de ideologias. Os dois ultimos ministros da Saúde fritados no meio da pandemia que o digam.

Olavo é o nome por trás de muitas escolhas presidenciais. Abraham Weintraub é a menina dos olhos do guru instalada no Planalto. A devoção do ministro da Educação ao olavismo é proporcional ao despreparo diante do cargo. O ministro que queria prender os ministros do Supremo Tribunal Federal é alvo de um inquérito, na mesma Corte, por supostos comentários racistas sobre a China e os chineses, parceiros comerciais estratégicos do país.

O ataque de Olavo acontece no momento em que o pupilo periga deixar o posto, as investigações sobre o chamado “gabinete do ódio” avançam e Bolsonaro se torna alvo da ira de panelaços e protestos de rua.

Enfraquecido, Bolsonaro vê o passe para a ajuda de amigos, do Centrão brasiliense aos da Virgínia, inflacionar. No caso de Olavo, com direito a um esfregão em público. 

Como resumiu o amigo André Serret no Twitter, Olavo atualizou Tim Maia no fim de semana. Quer dinheiro, não amor sincero.

Os alvos da sapatada vão pagar o resgate?

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