Atalanta x Valencia: jogo da Champions pode ter ajudado na disseminação do coronavírus?

Goal.com

A data é 19 de fevereiro de 2020. Quando Atalanta e Valencia entraram em campo pela primeira partida das oitavas de final da Liga dos Campeões da UEFA, o foco ainda estava quase que exclusivamente dentro das quatro linhas: a discussão do coronavírus Covid-19 tinha seu epicentro na China, com mais de 70 mil casos ativos naquele momento.

Afinal de contas, apenas três casos de coronavírus estavam confirmados na Itália: um casal chinês e um italiano repatriado da China. Todos estavam confinados a mais de duas semanas e a proliferação do vírus parecia controlada.

Desta maneira, o debate sobre Atalanta x Valencia ficava na esfera das quatro linhas. O duelo de azarões na Liga dos Campeões da UEFA, o esquema tático de Gasperini, a bela partida de Ilicic (que faria mais quatro gols no jogo de volta), o show dos italianos...hoje, com as competições paralisadas, nem parece fazer só um mês da data daquela partida.

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Josip Ilicic Atalanta celebrating Valencia
Josip Ilicic Atalanta celebrating Valencia

Foi a última partida da Atalanta em casa. Apenas um dia depois, na noite de 20 de fevereiro, o secretário de saúde da Lombardia confirmou o primeiro caso na região: um homem de 38 anos que, sabe-se hoje, não teve contato direito com ninguém que veio da China. Assim, o vírus já estava circulando, silenciosamente, na região.

Um mês depois, a Itália vive uma crise gravíssima de saúde pública, devido, principalmente, ao descaso do governo do país em aplicar medidas duras de prevenção. Até esta última sexta-feira (20), já foram quatro mil mortes em decorrência do vírus e o número de infectados só aumenta, dia após dia. 

A Lombardia é a parte mais afetada da Itália, com mais de 22 mil casos (dos 47 mil totais). Uma das razões (entre outras) que os especialistas estão considerando como causa da transmissão mais rápida do vírus na região é justamente o jogo entre Atalanta x Valencia.

Vale lembrar um fator: em sua primeira participação na Liga dos Campeões da UEFA, a equipe de Bergamo, na Lombardia, não poderia utilizar seu estádio Atleti Azzurri d'Italia, que não atendia a especificações necessárias para a UEFA. Assim, depois de longa novela, Milan e Internazionale permitiram que a Atalanta utilizasse o San Siro para mandar seu duelos na Champions League.

Como a região da Lombardia conta com várias grandes metrópoles, a movimentação de torcedores que saíam das várias cidades da região (espcialmente de Bergamo, casa da Atalanta, cidade mais afetada) para assistir ao duelo em Milão, pode ter acelerado a transmissão do vírus para outros centros.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, os aeroportos de Milão (onde a partida foi jogada) e Bergamo (casa da Atalanta), movimentam, cada um deles, mais que um milhão de pessoas por dia. Como todos sabemos, a histeria provocada por uma partida de futebol pode aumentar ainda mais a movimentação de pessoas.

Não é só Atalanta x Valencia: no dia 17 do mesmo mês, o Milan também jogou em casa. No dia 21, o Brescia, outro time da região da Lombardia, atuou em seus domínios com torcida. Como já sabemos que o vírus estava ativo, eventos de aglomeração devem ter servido para acelerar a transmissão.

Além disso, cerca de 35% da equipe do Valencia foi confirmada tendo recebido teste positivo para o coronavírus. No jogo de volta da Liga dos Campeões da UEFA, terminado em classificação da Atalanta, não tivemos torcida, como todos sabem.

Claro, as autoridades não teriam como saber que o vírus estava ativo na região, já que ele parecia controlado na Itália. Não é o caso de condenar nenhuma pessoa ou entidade: é, no entanto, atestar que o futebol pode ter servido como um vetor do coronavírus no país.

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