Assessores de Bolsonaro na Câmara retiraram 72% dos salários em dinheiro vivo

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Brazilian President Jair Bolsonaro speaks during the sanction of the law that authorizes states, municipalities and the private sector to buy vaccines against COVID-19, at the Planalto Palace in Brasilia, on March 10, 2021. - Until now, with more than 260,000 deaths by the coronavirus, only the federal Government was authorized to buy vaccines. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Apesar do indício de rachadinhas, presidente Jair Bolsonaro não pode ser investigado (Foto: Evariso Sá/AFP via Getty Images)

Quatro assessores do então deputado Jair Bolsonaro retiraram 72% dos salários recebidos em dinheiro vivo. Antes de ser eleito presidente da República, Bolsonaro era deputado federal. Esses funcionários do gabinete receberam R$ 764 mil líquidos, somando salários e benefícios, e sacaram R$ 551 em espécie. A informação foi revelada pelo Uol.

Os dados analisados pelo portal dizem respeito ao período de 2007 a 2018 e foram adquiridos por estarem ligados ao escândalo das rachadinhas, que envolvem o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro. Os documentos são frutos de quebras de sigilo bancário e fiscal dos assessores em questão.

Segundo o Uol, os dados considerados dizem respeito ao dinheiro que tem origem nos salários recebidos.

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Saques em espécie levantam suspeita de que possa haver a prática ilegal de devolução de salários. Flávio Bolsonaro é investigado pelo crime de “rachadinha” quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro. A prática também teria sido executada no gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro.

Os saques feitos pelos então assessores de Jair Bolsonaro chamam atenção porque repetem o padrão do que foi feito no gabinete de Flávio. Na avaliação do Ministério Público do Rio de Janeiro, o método faz parte de uma suposta organização criminosa que operava no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.

Após os saques, os valores eram devolvidos parcial ou integralmente ao operador Fabrício Queiroz. O filho do presidente foi denunciado pelo MP-RJ por desvio de R$ 6,1 milhões quando era deputado estadual.

O Uol procurou a presidência da República, que não se manifestou sobre as movimentações.

Entre os quatro assessores está Fernando Nascimento, que começou a trabalhar com Jair Bolsonaro em 2009 e ficou no cargo até maio de 2014. Ele recebeu R$ 164 mil da Câmara e sacou R$ 126 mil, equivalente a 77% do recebido. Em alguns meses, Fernando Nascimento chegou a sacar 100% do que recebeu.

De acordo com apuração do portal Uol, na época que estava lotado na Câmara, as redes sociais de Nascimento davam indícios de que ele estava na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ao deixar o cargo, ele foi lotado oficialmente no gabinete de Flávio Bolsonaro, por isso teve o sigilo quebrado no caso das rachadinhas.

Quando Flávio assumiu o cargo de senador, Fernando Nascimento foi junto para Brasília, onde recebeu um cargo. Atualmente, ele cuida das redes sociais do parlamentar.

Ele pediu para que o contato sobre o caso fosse feio por meio da assessoria de Flávio, mas não houve resposta.

Outros dois secretários parlamentares de Jair Bolsonaro que também faziam saques em dinheiro eram Nelson Rabello, militar reformado que serviu no exército ao lado do presidente. O militar começou como assessor de Carlos Bolsonaro, foi para o gabinete de Jair, onde ficou de 2005 a 2011. Depois, foi nomeado para trabalhar com Flávio, voltou ao cargo com Carlos e, em 2017, assumiu novamente como assessor de Jair Bolsonaro.

Rabello recebeu R$ 192 mil na Câmara e sacou 70% do total, ou seja, R$ 134 mil.

Outro funcionário foi Daniel Medeiros, que trabalhou como secretário parlamentar de Bolsonaro entre 2014 e 2017. Ele sacou 72% de tudo que recebeu. Nem Medeiros nem Rabello responderam ao Uol sobre os casos.

Um quarto envolvido no esquema é Jaci dos Santos, sargento reformado do exército. Ele sacou 45% de tudo que recebeu. Jaci estava com Jair Bolsonaro quando o presidente foi pescar na Estação Ecológica dos Tamoios. Os dois foram multados por isso, porque a pesca é proibida no local.

Questionado pelo Uol, Jaci dos Santos perguntou qual valor receberia para dar entrevista. Ao saber que não seria pago, respondeu: “Pergunta para o Ministério Público e me fala porque eu também não sei. Eu não tenho nada para me entender com a senhora”.

Os dados conseguidos pelo portal via Lei de Acesso à Informação mostram que Fernando Nascimento, Nelson Rabello, Daniel Medeiros e Jaci dos Santos não tinham crachá funcional na Câmara dos Deputados. Eles também não tinham e-mail oficial da casa.

Filha de Queiroz

Quem também teve o sigilo bancário quebrado foi Nathália Queiroz, filha de Fabrício Queiroz. Ela não sacava os salários, mas transferia a maior parte do pagamento para o pai. Ela foi nomeada assessora de Jair Bolsonaro na Câmara entre 2016 e 2018. No mesmo período, ela atuava como personal trainer em academias no Rio de Janeiro.

Nathália também nunca teve crachá funcional da Câmara nem e-mail oficial.

Apesar dos dados indicarem a possível prática de rachadinha, Jair Bolsonaro não pode ser investigado por atos praticados antes de assumir a presidência.