Assassinato de Arbery mostra que nós negros somos caçados nos EUA e no Brasil

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(Sean Rayford/Getty Images)
(Sean Rayford/Getty Images)

Por Pedro Borges

Ahmaud Arbery, 25 anos, foi assassinado no dia 23 de fevereiro por dois homens brancos, pai e filho, Gregory McMichael, 64 anos, e Travis McMichael, 34, na cidade de Brunswick, no estado da Geórgia.

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O assassinato covarde de Ahmaud Arbery, que completaria 26 anos na sexta-feira, 1 de maio, seria mais uma morte para a lista de mulheres e homens negros assassinados sem qualquer comoção ou revolta. 

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A diferença desse caso foi o registro em vídeo, publicado de maneira anônima, que permitiu uma mudança no curso das investigações. Com as imagens, percebe-se que Ahmaud Arbery foi assassinado, depois de baleado por pai e filho, enquanto corria. No primeiro momento, como de costume, os assassinos disseram que agiram em defesa e acusaram Ahmaud Arbery de ser um ladrão.

A família e os advogados de defesa de Ahmaud Arbery querem a prisão preventiva dos dois acusados. A justiça norte-americana entende a necessidade de um júri popular para decidir sobre o futuro de Gregory McMichael e Travis McMichael. A audiência segue em aberto, sem previsão para ocorrer, por conta da pandemia do novo coronavírus.

A mãe de Ahmaud Arbery fez um questionamento extremamente oportuno para quem duvida da seletividade racial de casos como esse: o que aconteceria se fossem dois homens negros a matar um branco, com vídeo que comprovasse o crime? Certamente, os dois seriam presos, se já não tivessem sido num primeiro momento com os depoimentos das testemunhas.

O caso de Ahmaud Arbery, infelizmente, se soma a uma série de outros nos EUA e no Brasil. Lá, Eric Garner foi vítima de homicídio depois de ser sufocado por polícias, que insistiram em imobilizá-lo mesmo com avisos sequenciais da vítima com a frase: “eu não consigo respirar”.

A surpresa é de que o público brasileiro sempre se indigna com essas manifestações nos EUA e não enxerga a disparidade racial existente no Brasil. É difícil explicar para parte da sociedade brasileira que assassinatos como de Ágatha Félix, João Victor, Maria Eduarda, Amarildo, e tantos outros, também fazem parte de uma dinâmica racial. 

A seguinte pergunta parece não chegar aos brasileiros: por que sempre nós negros caçados? O racismo que mata lá, também mata por aqui e muito, inclusive em números bem maiores.

O que ocorre lá, que poderia acontecer aqui é o engajamento por parte de figuras públicas, como a participação de LeBron James, que nas suas redes sociais denunciou o assassinato de Ahmaud Arbery. O principal jogador da NBA disse que “nós somos caçados todos os dias no momento em que colocamos os pés para fora de casa”. 

No Brasil, o engajamento por parte dos nossos craques do futebol ajudaria e muito o avanço da luta e do respeito para com o povo negro.

Por enquanto, as organizações de movimento negro de toda América do Norte e Latina seguem em diálogo para enfrentar o racismo e as suas múltiplas faces, cuja final é a morte física e simbólica do sujeito.

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