“As meninas têm que ver o futebol como uma profissão”, diz Aline Pellegrino

Yahoo Esportes
Aline Pellegrino: de capitã da seleção a diretora de futebol feminino (foto: Divulgação/FPF)
Aline Pellegrino: de capitã da seleção a diretora de futebol feminino (foto: Divulgação/FPF)

A Federação Paulista de Futebol (FPF) se tornou referência no que diz respeito ao futebol feminino. Além de ter o Estadual mais forte do Brasil, a entidade foi a primeira a criar um torneio federado de base, inovou ao criar uma premiação para as melhores jogadoras do Campeonato Paulista — prática comum nas competições masculinas — e recentemente realizou uma peneira inédita para garimpar talentos de 14 a 17 anos, que puderam ser testadas diante de olheiros dos principais clubes do país.

SIGA O YAHOO ESPORTES NO INSTAGRAM

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Todas essas mudanças passam pela ex-jogadora Aline Pellegrino. Hoje com o status de diretora da modalidade, ela chegou à FPF em 2016 com uma receita infalível: vontade política de desenvolver o futebol feminino aliada ao conhecimento de quem sempre vivenciou a modalidade.

“Pelle”, como é carinhosamente conhecida, foi jogadora por 16 anos e atuou como treinadora e gestora depois de pendurar as chuteiras. Com uma vitória carreira esportiva que inclui medalhas de prata na Olimpíada de 2004 e na Copa do Mundo de 2007, a ex-capitã da seleção lembra das dificuldades enfrentadas por sua geração e reflete onde o esporte feminino poderia estar se recebesse o incentivo adequado.

Mais sobre esporte feminino no Deixa Ela Jogar

“Minha geração é pós-proibição, do tempo em que o futebol feminino ainda estava sendo regulamentado. Era comum a gente ouvir que futebol não era coisa de mulher. Se em um momento que era tanto para não der certo, deu comigo e com tantas outras, quer dizer que pode dar certo com muita gente, desde que essas meninas tenham as oportunidades certas”, afirmou Aline ao Deixa Ela Jogar.

“As atletas da minha época talvez não tenham ganhado dinheiro nem tido tantas oportunidades em clubes fora do Brasil, mas vendo esse cenário, não era para terem dado certo. Não era para eu poder falar que estou há 37 anos vivendo de futebol, que todo mundo falou que não era para mulher, que era impossível. Opa, espera aí, se deu certo sem ninguém estar cuidando do processo, então vamos cuidado do processo?”, questiona.

O importante, segundo a dirigente, é que as meninas possam ver o futebol como um caminho profissional a ser seguido. Ela defende um plano de carreira, em que as jogadoras tenham oportunidade de jogar campeonatos de base, depois tenham direito a contratos com clubes e possam disputar torneios profissionais estruturados, com visibilidade e patrocínio.

"Pelle" foi capitã da seleçào (foto: Patricio Realpe/LatinContent via Getty Images)
"Pelle" foi capitã da seleçào (foto: Patricio Realpe/LatinContent via Getty Images)

"Tem que ser como acontece com o masculino. É uma construção, mas [o futebol feminino] tem que ser uma profissão. As meninas têm que ver como uma profissão que possam seguir por muito tempo. Pode dar certo ou não, pode querer ou não, aí faz parte, mas que seja um caminho. E que pai, mãe, seja lá quem for que vai estar direcionando nessa época se sinta seguro de falar 'vai'. Era um problema há um tempo atrás, você não vai virar e falar pra mãe ‘deixa eu ir lá no susto pra ver se dá certo aleatoriamente’. Não, elas precisam ver um caminho. Então nosso trabalho aqui é muito direcionado pra isso também”, avaliou.

Começou na semana passada mais uma edição do Paulistão Sub-17, o primeiro torneio oficial de base criado por Aline e sua equipe em 2017. A realização da peneira em junho, que reuniu mais de 400 atletas entre 14 e 17 anos, foi uma ideia da FPF para poder municiar os clubes com jovens talentos.

“Não é um campeonato mais que me preocupe. Sei que já temos uma estrutura mínima e que no ano que vem vai acontecer, e no outro também. Já tem um calendário. Antes dele, como parte do campeonato, vai ter a peneira. Tem que virar calendário, as meninas do Brasil inteiro e de fora têm que saber que, dois meses antes, terão a oportunidade de serem vistas por todos os clubes de São Paulo para o sub-17”, afirmou Aline, que não quer parar por aí. Depois de estruturar o Sub-17, a diretora já pensa em outras categorias.

“A gente viu uma qualidade muito maior em meninas de 14 e 15 anos. Isso foi gritante para todo mundo. Ou seja, já sei que tem demanda para o Sub-15. Daí é a mesma coisa, quais clubes têm estrutura para disputar três campeonatos e arcar com esses custos? Mas acho que em 2020 já dar para ter um sub-15 campeonato. Não precisa ser grande, nosso sub-17 tem quatro meses, de agosto a dezembro, mas qualquer coisa de dois meses e oito equipes já é bem-vindo e acho que já dá para fazer”, projetou.

Além do trabalho na FPF, Aline também participa de eventos da Fifa e da Conmebol. Dias antes do início da Copa do Mundo, ela participou da primeira Convenção Global da Fifa para Futebol Feminino. Em seguida, atuou como consultora da Conmebol e acompanhou a estreia de Brasil, Chile e Argentina, as seleções sul-americanas que se classificaram para o Mundial.

Leia mais:

Como jogadora, ela foi capitã da seleção que chegou à final da Copa de 2007 e perdeu a final para a Alemanha e também jogou em 2011. Aline não esteve no Canadá para a edição de 2015, mas diz que a principal diferença que sentiu foi em relação ao interesse e empolgação do clube com as partidas.

“Estava frio na abertura e havia pessoas na rua em busca de ingressos. Não acho que a final foi tecnicamente melhor do que a de 2007 nem a de 2015… é só que as pessoas não estavam olhando para isso antes. A grande diferença foi a presença da grande mídia, da visibilidade, dos patrocinadores, e também vem muito do momento da sociedade, desse movimento do espaço da mulher na sociedade”, explicou.

Em relação ao desempenho do Brasil, Aline exaltou o talento e o esforço individual das atletas, especialmente nas oitavas de final contra a França, mas ressaltou que o desempenho em campo não necessariamente reflete o tratamento da CBF com o futebol feminino nos últimos anos.

“A gente nunca vai vender uma derrota fácil em uma Copa do Mundo. Alguém vai atropelar a gente? Então vai, atropela, quero ver. Debinha poderia ter feito o gol que mudaria tudo, mas aí a gente pensa em gestão, planejamento, longo prazo. A gente não pode confundir que ficar perto no campo quer dizer que a gente está perto no todo”, pondera.

“Dificilmente a gente vai tomar um atropelo, até pela qualidade que tem, por esse diferencial nosso. Poderia de repente ter tido uma sorte diferente e ah, tá tudo certo. Mas por que será que a gente não está conseguindo avançar em oitavas de final? Será que é só isso ali mesmo, será que não tem mais coisa para fazer?”, questiona.

A dirigente a seleção da Holanda como exemplo a ser seguido pela CBF para fazer um planejamento a longo prazo para poder sonhar com títulos no futuro. No entanto, a dirigente lembrou da importância de pensar fora da “caixa seleção”, ou seja, o dia a dia dos clubes.

“Temos muito a fazer em termos de desenvolvimento, então nesse período fora de Copa e Olimpíada, toda a cadeira que se envolveu tem que continuar se envolvendo no que está acontecendo aqui dentro, que são as nossas competições. Tem que ter mais torneio de base, mais visibilidade, essas meninas tem que continuar sonhando e ver que não é só a Copa, é também um Paulista, um Carioca, um Gaúcho, um Brasileiro. Isso está perto, e a gente tem que dar visibilidade para isso também”, disse.

Após a demissão do técnico Vadão, em julho, o presidente Rogério Caboclo disse que avaliaria a permanência de Marco Aurélio Cunha no cargo de coordenador de seleções femininas da CBF. Os jornalistas do nicho e simpatizantes do futebol feminino colocaram o nome de Aline Pellegrino entre os favoritos para assumir o cargo em caso de troca de comando. No entanto, ela diz que não pretende sair da Federação Paulista antes de sentir que conseguiu enraizar o trabalho — e a mentalidade — do desenvolvimento do futebol feminino. E ela sonha alto.

“Não quer dizer que a gente vai acertar tudo, alguma hora vai errar, e faz parte do processo. Agora estamos com uma maluquice em relação à dificuldade dos campos e pensamos ‘vamos achar um terreno e começar a construir a Arena Paulista de Futebol Feminino’, um centro de referência. Tem tanta coisa que parece loucura, mas não necessariamente é", diz Pelle, que afirma contar com apoio interno na FPF.

“Até três anos trás era a Aline maluca, que gosta, que jogou. Outra coisa é todos verem a coisa acontecendo, não é a Aline que tá falando, mas todo mundo tá vendo. Então dá para fazer mais, dá para fazer mais”, pontua a ex-capitã.

“Para três anos, acho que o balanço é muito positivo, mas obviamente sou privilegiada, estou dentro da Federação Paulista, que dá suporte para a categoria feminina. Você tem muita margem de crescimento porque a gente sabe que a categoria está aí estagnada há algum tempo em muitas coisas. Quero daqui a três anos falar, e agora, a gente já construiu a estrututa, como melhorar? Ainda temos muita margem para crescer e ser a referência de que é, sim, possível desenvolver bem a categoria feminina", completou.

Siga o Yahoo Esportes: Twitter | Instagram | Facebook | Spotify | iTunes | Playerhunter

Leia também