As lições de Pia no primeiro desafio com a Seleção

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(foto: Mauro Horita/CBF)
(foto: Mauro Horita/CBF)

Terminou no domingo o Torneio Uber Internacional de Seleções Femininas, primeiro desafio de Pia Sundhage à frente do Brasil. A equipe verde e amarela ficou com a prata ao perder a final nos pênaltis para o Chile, mas muito mais do que buscar o título, a treinadora sueca aproveitou esta primeira fase de treinamentos para aprender lições importantes sobre a Seleção Brasileira.

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Em seu primeiro desafio, Pia manteve a base de jogadoras que o ex-técnico Vadão levou para a Copa do Mundo da França, fazendo apenas algumas modificações, como o retorno da atacante Millene, artilheira do Corinthians, da meia-atacante Chú, que atua na China, e da meia Aline Milene, da Ferroviária, e a primeira chance das jovens Victoria Albuquerque (Corinthians) e Yaya (São Paulo) na equipe principal.

Pia teve um mês entre a assinatura do contrato com a CBF e o apito inicial do jogo com a Argentina. Neste período, além do processo de mudança e adaptação a um novo país, a treinadora teve reuniões com profissionais que trabalharam com Vadão e seguiram na CBF após sua demissão, como a auxiliar técnica Bia Vaz e o preparador físico Fábio Guerreiro. A sueca analisou os relatórios feitos pela comissão técnica anterior e optou por manter a lista para dar às atletas a chance de mostrarem seu trabalho.

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Em busca de entender as peças que tem à disposição, Pia usou escalações bem diferentes nos dois jogos da competição. No primeiro jogo, contra a Argentina, a equipe titular teve Bárbara; Letícia Santos, Kathellen, Érika e Tamires; Formiga e Luana; Debinha, Ludmila, Bia Zaneratto e Andressa Alves. A treinadora fez tantas alterações quanto pode para testar as atletas e goleou as hermanas por 5 a 0.

Já no segundo jogo, contra o Chile, Pia trocou mais da metade do time e foi a campo com Aline Reis; Fabi Simões, Bruna Benites, Mônica e Joyce; Aline Milene e Formiga; Andressa Alves, Debinha, Bia Zaneratto e Millene. O time sofreu com o temporal e o campo pesado do Pacaembu, o jogo terminou empatado em 0 a 0 e as chilenas levaram a melhor nos pênaltis.

Na coletiva pós-jogo, a treinadora foi questionada sobre as escolhas e as alterações do segundo tempo, como a entrada de Raquel no lugar de Andressa Alves, uma das poucas armadoras do time, e também sobre a opção de manter Victoria Albuquerque e Yaya no banco. Pia defendeu que a prioridade era dar chances para as jogadoras e que não fez as trocas porque pensou que venceria o jogo no tempo regulamentar. “Aprendemos uma lição hoje”, disse.

Mesmo sem Marta e Cristiane, lesionadas, ter a chance de testar nomes que foram frequentes nas listas de convocação nos últimos anos em seu primeiro compromisso foi bom para que Pia pudesse ver com os próprios olhos quem tem e quem não tem condições de seguir na Seleção feminina. Além disso, trocas de comando são um bom motor para incentivar as atletas a continuarem treinando duro por seus lugares. E tanto elas sabem disso que, no vídeo de boas-vindas à nova treinadora, até Marta destacou o trabalho intensivo no Orlando Pride para mostrar o esforço para continuar com um lugar na equipe.

Outro tema importante é a renovação, já que Marta, Formiga e Cristiane provavelmente estão em seu último ciclo olímpico. Em um mês de trabalho, a treinadora teve a chance de assistir três partidas do Campeonato Brasileiro in loco: Internacional x Flamengo e Corinthians x Ferroviária, pela Série A1, e a final da Série A2 entre São Paulo e Cruzeiro. Não à toa, todos as novidades escolhidas pela treinadora saíram desses clubes, com exceção de Chú — que citou a obediência tática do futebol chinês para explicar porque achava ter chamado a atenção da treinadora.

Bom lembrar que Pia também terá um papel importante nas Seleções de base, o que dará a chance de ver de perto os talentos que merecem vaga no time principal. Como trabalhou com meninas jovens na Suécia, ela vai participar do planejamento das categorias inferiores, e por isso levou para a semana de treinamentos em São Paulo os recém-contratados técnicos das equipes sub-20 e sub-17, Jonas Urias e Simone Jatobá, que acompanharam as atividades e puderam conhecer a metodologia de Pia Sundhage.

Nas três coletivas ao longo da semana passada, Pia destacou a importância de mesclar nomes experientes com jovens para dar “equilíbrio” à equipe. E, diferente de Vadão, ela parece disposta a ver de perto o material humano disponível para fazer as melhores escolhas possíveis. Além de ter visto três jogos até agora, a treinadora já anunciou que vai viajar nos próximos meses para ver as brasileiras atuando em seus clubes — uma das peculiaridades da Seleção é contar com atletas de clubes de uma dezena de países diferentes.

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Em relação às questões de campo, Pia bateu nas mesmas teclas nas três entrevistas que concedeu nesta semana. As prioridades são: ajustar o sistema defensivo, melhorar o ataque mantendo o estilo brasileiro e adicionando variação, como por exemplo investir nas jogadas de ataque pelos lados. A treinadora exaltou a técnica e o talento das jogadoras brasileiras, mas lembrou que futebol se joga 11 contra 11 e que é preciso de organização tática para vencer como um time.

“Com as particularidades de cada atleta, dá para construir um coletivo forte, mas será preciso organização e tempo para ter o time no lugar certo e com as jogadoras certas”, avaliou.

Pia também pretende garimpar líderes no elenco. Ela disse preferir dar a faixa de capitã para as meio-campistas pela importância da posição — tanto que Luana e Formiga foram as capitãs contra Argentina e Chile, respectivamente. No entanto, Pia que encontrar jogadoras influentes nos três setores do campo, que sejam ser capazes de ler o jogo para entender as mudanças estratégicas necessárias e passar isso às companheiras enquanto a bola ainda está rolando.

Para tudo isso, como disse a própria Pia, será necessário tempo. Só com a experiência dos treinos, dos jogos, dos erros e acertos é a treinadora poderá tomar as melhores decisões possíveis com o que tem à disposição. Ela ainda está no tempo de errar — e também de trazer à tona os erros do passado enraizados na Seleção para poder fazer os ajustes necessários. Como seu contrato é válido por dois anos, o principal objetivo por ora é a Olimpíada de Tóquio, em 2020, mas há a possibilidade da CBF renovar por mais dois.

De qualquer modo, é só o começo. E apesar da derrota para o Chile na final, não se pode negar que há um certo otimismo no ar. As próprias jogadoras afirmaram que o clima da Seleção está “melhor e mais alegre” com a chegada da sueca. É a diferença que faz ter uma treinadora vitoriosa e experiente, que traz três finais olímpicas no currículo e entende verdadeiramente as peculiaridades do futebol feminino.

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