Artilheiros sentem saudades da última manhã do futebol com torcida

ALEX SABINO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O relógio marcava 11h39 quando Fabrício foi lançado por trás da zaga, ganhou a dividida do goleiro e entrou com bola e tudo. Saiu a caminhar com calma, como se não fosse nada demais. Segundos depois, às 11h40, Bruno Moraes fazia, cercado por quatro companheiros, o gesto de saudação militar em frente à torcida adversária. Isso aconteceu quatro minutos antes de Pedro bater no escudo no lado esquerdo do uniforme, apontar para a arquibancada e pedir mais vibração. Era 11h48 quando Neto Moura abriu os braços de frente para os torcedores do Mirassol, a sorver os aplausos e gritos de alegria. E acabou. Eles lamentam agora não terem comemorado de maneira mais efusiva esses quatro gols, espalhados pelas três principais divisões do futebol paulista. Todos marcados no espaço de nove minutos naquela ensolarada manhã de 15 de março de 2020. Foram os últimos anotados com a presença de torcedores no estado de São Paulo. Hoje, já são 371 dias sem público. Um ano mais tarde, FPF (Federação Paulista de Futebol) e clubes tentam manter as competições em andamento, apesar das restrições do Ministério Público e do governador João Doria (PSDB). Os jogos em São Paulo estão proibidos até o final de março por causa da pandemia da Covid-19. Os dirigentes querem jogá-los em outro estado. A briga é por causa do dinheiro do contrato com a Globo pelo televisionamento. Sem partidas, não há pagamento. A possibilidade de retorno do público nem é comentada, por enquanto. "Assim que parou [o futebol em 2020], a gente pensou que levaria um mês e tudo voltaria ao normal, com a torcida de volta. Já passou um ano... Hoje é outra coisa. É a torcida que faz o futebol ser tão bonito. É ela que faz o futebol ser mágico", opina o atacante Pedro, 24, hoje no Oliveirense, da segunda divisão de Portugal. Revelado pelo São Paulo, onde teve passagens esporádicas pelo time profissional entre 2016 e 2018, o centroavante fez o último gol do Votuporanguense na vitória de 3 a 0 sobre o Sertãozinho, na Série A2. Lembra ter comemorado, até sorriu ao balançar a rede. Atualmente confessa que, se soubesse os efeitos da pandemia no mundo da bola, teria celebrado bem mais. Naquele 15 de março, apenas as partidas da manhã tiveram torcedores. O confronto da tarde na Série A1, entre Corinthians e Ituano, aconteceu com as arquibancadas vazias. Quando Pedro cabeceou sozinho para o gol, Bruno Moraes já havia fechado o placar no estádio Ulrico Mursa, em Santos. Ele finalizou a virada do São Caetano, que derrotou a Portuguesa Santista por 3 a 1, também pela A2. Fazer um gesto coreografado com os colegas de equipe, em sinal de continência, era lembrança do seu apelido de "general", recebido nos tempos de Botafogo-SP. A atitude o fez ser "homenageado" pela torcida da casa. "Nunca pensei que sentiria falta disso, de ser xingado pelos torcedores adversários. Como faz falta... Eu nem sabia que tinha sido um dos últimos gols [com torcida]. Lembrar me deu muita saudade. Era um jogo típico da A2 do Paulista. Domingo de manhã, público próximo e pegando no pé. No dia foi muito gostoso, mas agora é só saudade", relembra Bruno, 32, atualmente no Dibba Al-Fujairah, dos Emirados Árabes. Tanto ele quanto Pedro, dois atacantes, deixaram o país para não ficarem desempregados. Atuam em ligas que estão sendo disputadas, mas também com estádios desertos. Moraes ficou parado por alguns meses por causa de um câncer no testículo. "Foi detectado logo no início, graças a Deus. Nem precisei fazer quimioterapia. Apenas retiraram o tumor", completa, já 100% recuperado. Depois de ser interrompido na metade de março de 2020, o futebol em São Paulo voltaria apenas em 22 de julho, com os clubes em crise financeira pela perda de receitas e dívidas acumuladas. Os mesmos problemas que fazem com que se queixem da restrição sugerida pelo Ministério Público e acatada pelo governo do estado em 2021. "Falava em casa, com a minha família, há alguns dias, sobre o meu último gol com torcida. A emoção não muda. A alegria é igual, mas parece que falta algo. A gente tem de continuar jogando, claro. Mas faz falta aquele calor do torcedor. O atacante, como eu, se sente mais empolgado, alvoroçado para entrar em campo", define Fabrício, 23, que estava no Noroeste em 2020. Ele iniciou a sequência dos quatro gols em nove minutos que seriam os derradeiros com testemunhas nas arquibancadas. Fabrício marcou o último do triunfo por 3 a 1 do Noroeste sobre o Olímpia, pela A3. O atacante agora defende o Mirassol, na elite estadual. Ele acabou como artilheiro da terceira divisão, com 11 gols e, na sequência, foi um dos destaques do Mirassol na campanha do acesso na Série D do Campeonato Brasileiro no ano passado. Ao anotar na estreia do Paulista de 2021, em fevereiro, diante do São Bento, chorou ao lembrar das dificuldades que passou no início da carreira. E foi do Mirassol o gol de um adeus que já dura mais de um ano e não tem data para terminar. Neto Moura fez o único da vitória do Mirassol por 1 a 0 sobre o Santo André, pela A1. O meia ainda está na equipe. "Quando eu penso nisso, o que me vem à cabeça é a falta que a torcida faz. Nós, jogadores, sabemos ser uma medida necessária [jogar sem público] e gol é gol, a gente vibra de qualquer jeito. Mas a sensação é a de que algo muito importante está faltando. O que a gente espera é que ela [a torcida] volte logo para o futebol voltar a ser feliz", pede o armador que passou pela Ponte Preta na Série B do Brasileiro de 2020. Aconteceram cinco partidas naquela manhã (também houve Penapolense contra o São Bento, pela A2). Levaram, no total, 7.087 pessoas. Não era um número relevante há 12 meses. Em março de 2021, significa uma multidão. "Sabe qual é o sentimento hoje em dia? Você vai para o jogo e parece que é um treino. Até fazer o gol perde um pouco da graça", finaliza Pedro, ex-Votuporanguense, em uma variação da histórica frase atribuída ora ao escocês Sir Matt Busby, histórico técnico do Manchester United, ora ao seu compatriota Jock Stein, emblemático treinador do Celtic. Sem torcedores, o futebol não é nada.