Artilheiro do Carioca ao lado de Gabigol, jogador do Volta Redonda fala de sonhos realizados: ‘Queria ter uma casa grande e um carro bom’

Carol Marques
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Dez anos separam João Carlos Ferreira e Gabigol. Não só isso. O salário do jogador rubro-negro, de R$ 1,5 milhão por mês, é dez vezes maior que toda a folha de pagamento do Volta Redonda, pelo qual JC atua. Embora haja tanta discrepância na vida dos dois atacantes, ambos dividem o título de artilheiro do conturbado Campeonato Carioca de 2020. João, de 33 anos, e Gabigol, de 23, igualaram oito gols cada um e ainda foram “escalados” para a Seleção do Carioca. “Quando me contaram, tive que ver com meus próprios olhos para acreditar. Abri o site e fiquei muito feliz. Em 2019, também fizemos o mesmo número de gols, 7, cada um. Ano que vem, se isso acontecer outra vez, podemos pedir música no ‘Fantástico’'", brinca o atacante do Voltaço.

Apesar de disputarem gol a gol, João e o adversário não se conhecem. Nunca trocaram uma palavra. “Eu lá na frente do meu time, ele lá no dele, fica difícil a gente se cruzar. Acho ele um grande jogador, sem dúvida, mas não chego a acompanhar a carreira”, confessa.

Ainda que haja mais diferenças do que semelhanças na trajetória dos dois, o sonho acalentado desde criança aproxima estas realidades. João Carlos começou a correr atrás da bola ainda criança, num campinho de várzea em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde nasceu.

Chamou atenção de um olheiro que o levou para treinar na base do Tigres, um time de Xerém, também na Baixada. “Mas não pude seguir a carreira porque tinha que trabalhar. Ajudar em casa”, recorda. João Carlos foi ajudante de pedreiro, serralheiro e fazia de tudo um pouco na construção civil. O sonho de garoto ganhou o apoio tímido do pai e o olhar mais severo da mãe. Mas foi da namorada Carla, hoje sua mulher, que veio todo incentivo para seguir a carreira nos gramados.

Juntos há 15 anos, eles encararam as traves da vida com perseverança. JC foi jogar por um time de Arraial do Cabo, voltou como titular ao time do Caxias e ajudou o Macaé a ser campeão. Todos na série C. Dali, surgiram o Madureira e o Cuiabá, e no meio disso tudo um teste na África do Sul. “Mas eu sentia saudade, minha mãe não queria que eu ficasse longe, então voltei”, conta ele, que acabou perdendo a mãe e o pai na sequência: “É uma pena que eles não tenham visto minha trajetória”.

Pai de três filhos, o jogador quer ver Ryan, Heloísa e Matheus formados. “Parei na sexta série. Não pude terminar a escola. E falo para eles: se quiserem jogar, vão ter q estudar primeiro. Dar prioridade a isso”, avisa.

Vivendo agora o auge de sua batalha, João Carlos sabe que cada ano que passa a aposentadoria chega mais perto. A ambição no momento é levar o Voltaço de volta a série B do Campeonato Brasileiro. Sonho, ele diz, já foi realizado. “Desde sempre, eu e minha mulher queríamos ter uma casa grande e um carro bom. Conseguimos”, observa ele, que comprou um modelo Tucson e construiu uma casa: “No mesmo quintal onde começamos a namorar”.

Se tivesse o salário de Gabigol, João Carlos nem saberia o que fazer direito. “Primeiramente, gostaria de ajudar quem esteve comigo e acreditou em mim. Depois, ia pensar em comprar um monte de coisa legal e viajar com meus filhos”, enumera. O certo é que não estaria solteiro como o colega milionário: “Jamais. A Carla é meu pilar. E hoje estamos mais unidos do que nunca”.