Depois de pandemia, cirurgia, treino improvisado e assaltos, Nory vê Olimpíada como recompensa

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LIMA, PERU - JULY 31:  Arthur Nory Mariano of Brazil competes in Men's Horizontal Bar Final at Villa El Salvador Sports Center on Day 5 of Lima 2019 Pan American Games on July 31, 2019 in Lima, Peru. (Photo by Patrick Smith/Getty Images)
Arthur Nory durante o Pan-Americano de Lima, em 2019 (Patrick Smith/Getty Images)

Ao conquistar a medalha de ouro na barra fixa no Mundial de Stuttgart, em outubro de 2019, Arthur Nory começava a contagem regressiva para a Olimpíada de Tóquio. Faltavam nove meses e o brasileiro chegaria como um dos favoritos para subir ao pódio. Talvez até obter um resultado melhor do que o de três anos antes, no Rio, quando foi bronze no solo.

Em março seguinte, apareceu a pandemia da Covid-19 e o adiamento dos Jogos para 2021. Dois meses depois, ele passou por cirurgia no ombro esquerdo. Passou todo o ano passado sem competir, assim como os outros atletas da modalidade. Apenas em novembro foi chamado para um período de treinos da seleção brasileira no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro.

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A experiência foi repetida há dois meses.

"Foi organizado um simulado com os ginastas da seleção para a gente entrar em ritmo de competição, mesmo sem ser algo oficial, mas com juízes e transmissão pela internet", afirma o ginasta de 27 anos.

O evento também aconteceu no Parque Olímpico, que será sede, entre 4 e 6 de junho, do Pan-Americano da modalidade. A competição seria originalmente nos Estados Unidos. Será a última oportunidade de classificação para Tóquio.

Por enquanto, estão qualificados apenas Flávia Saraiva para o individual feminino e a equipe masculina, que será formada por quatro nomes.

"Somos dez atletas nos treinos competindo por essas vagas e ainda haverá o Pan-Americano. A competição não me incomoda em nada. Faz parte do esporte. Acho até que estou numa idade que posso ser considerado um veterano na equipe. Todo trabalho feito é para estar 100% na chegada ao Japão, antes dos Jogos", completa.

Disputar outra Olimpíada seria a recompensa pelos meses de incerteza, em que teve de improvisar maneiras de treinar em casa durante a pandemia. Toda a seleção brasileira se reunia pelo aplicativo Zoom diariamente, Os treinadores passavam exercícios e acompanhavam ao vivo como eram executados pelo time.

Nory teve de improvisar maneiras de fazer as atividades em casa, sem equipamentos específicos. O mesmo aconteceu com outros nomes da seleção.

"Foram meses em que fiz o que foi possível. Usei colchonetes, tinha um tatame na sala. Quando ia fazer exercícios, dava um jeito de colocar mais peso no corpo. Pendurei uma barra para fazer exercícios de força para o braço e o punho. Isso durou alguns meses. Não é o ideal, claro. Mas estava todo mundo na mesma situação."

Esse é o pensamento que ele tenta colocar na cabeça dos colegas de seleção, aliás.

"Precisamos ter em mente o espírito de equipe. Todo mundo está junto, no mesmo barco", afirma.

Para Nory, essa foi possivelmente a única vantagem da pandemia. As reuniões virtuais, as trocas de exercícios e os desafios lançados em que um atleta fazia um movimento e desafiava os outros a imitá-lo, criou uma união entre eles e elas.

"Essa foi a ideia. Aproximar todo mundo. Todos estarem conectados juntos diariamente e ajudando uns aos outros."

Não bastasse os contratempos, ele ainda sofreu roubo de 33 medalhas no início de fevereiro deste ano. Nory treinava quando sua casa foi assaltada.

Após uma denúncia anônima, a polícia encontrou os objetos em uma lixeira em Osasco, na grande São Paulo, quatro dias depois.

"No início, eu me preocupei com a moça que estava em casa para fazer a limpeza. Depois pensei nas medalhas e deu um desespero enorme. Eu suei muito para consegui-las, mesmo que as do Mundial e do Rio-2016 estivessem em outro lugar, escondidas. Eu trabalhei muito por todas. Quando a polícia me chamou dizendo que elas tinham sido encontradas foi uma emoção muito grande."

Talvez ele possa adicionar mais uma à coleção em julho, quando começa a Olimpíada de Tóquio. Nory brinca ao afirmar que a colocará em um cofre, mas sua prioridade, antes de tudo, é estar na equipe e nas condições ideais. Seria mais uma recompensa para o garoto que descobriu a ginástica ao assistir Daiane dos Santos, pela TV, competindo nos Jogos de Atenas, em 2004 e se apaixonou pelo esporte.

Mesmo nos tempos em que o pai o fazia também praticar judô e ter aulas de piano, ele não desistiu da modalidade.

"Competir, representar o Brasil, ter a chance de subir ao lugar mais alto do pódio e cantar o hino nacional são as coisas com as quais eu sempre sonhei desde que comecei. A Olimpíada é o máximo para todo atleta", finaliza.

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