Argentina goleia Brasil em manifestações de clubes contra golpe militar

BRUNO RODRIGUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apenas uma semana separa os aniversários dos mais recentes golpes militares de Argentina e Brasil. Ainda que compartilhem a proximidade da data e uma fronteira física que os une territorialmente, a diferença na forma de lidar com a memória do período escancara uma distância considerável entre os dois países. Reflexo da sociedade em que está inserido, o futebol age de acordo com o ambiente à sua volta. No último 24 de março, dia em que os argentinos recordaram o golpe de 1976, todos os 26 clubes da primeira divisão nacional se posicionaram sobre o tema nas redes sociais com a hashtag #NuncaMás. Alguns deles se uniram à campanha "Plantamos Memória", em que torcedores, sócios e dirigentes de diferentes instituições esportivas plantaram árvores em homenagem aos mortos e desaparecidos. Neste 31 de março, completados 57 anos de instauração da ditadura militar no Brasil, apenas 7 clubes brasileiros da elite se manifestaram com relação à data histórica. Atlético-MG, Bahia, Corinthians, Fluminense, Fortaleza e Internacional se posicionaram com mensagens mais firmes em defesa da democracia. "Ditadura nunca mais", publicou o Fluminense no Twitter, mesma frase utilizada pelo Fortaleza e pelo Atlético-MG, que postou uma foto do ídolo Reinaldo com o punho erguido. Os baianos subiram a hashtag #NuncaMais acompanhada de um vídeo com ações afirmativas do clube, e o time do Parque São Jorge, com uma foto do time da Democracia Corintiana, usou a frase "Nossa História é a nossa opinião". O Flamengo foi outro da elite a se manifestar, mas discretamente, apenas com a imagem da hashtag #DemocraciaSempre em um fundo rubro-negro. Ao considerar também a segunda divisão, o placar da goleada entre Argentina e Brasil fica ainda mais dilatado. Das 35 agremiações que compõem a segundona argentina, 29 se manifestaram nas redes sociais. No Brasil, dos 20 clubes participantes da Série B, somente 5 fizeram menção ao golpe de 1964. Do segundo escalão nacional, Confiança, Náutico, Ponte Preta, Remo e Vasco abordaram o tema. Os cariocas recordaram a data do golpe com a música "O Bêbado e a Equilibrista", de autoria do vascaíno Aldir Blanc, que morreu em 2020 vítima do novo coronavírus. Entre jogadores brasileiros, destaca-se a manifestação de Igor Julião, lateral direito do Fluminense, que publicou no Twitter frase célebre de Ulysses Guimarães: "Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo." A sociedade argentina já carrega uma tradição longeva de movimentos de direitos humanos que reivindicam reparações e justiça pelos horrores praticados por militares. Quem deu início a essa militância foram as Mães da Praça de Maio, ainda na década de 1970, com a denúncia incansável da desaparição de seus filhos durante a ditadura, iniciativa que originou também o grupo das Avós da Praça de Maio, que passaram a buscar seus netos. O futebol local, que celebrou em pleno regime o título do Mundial disputado no país, em 1978, levou algum tempo para incorporar ações e assumir uma posição em prol da memória. Clubes ainda estão amadurecendo a sua participação nesse processo, mas dão passos importantes para a consolidação de sua contribuição ao debate. No aniversário de 20 anos do golpe, em 24 de março de 1996, a AFA (Associação do Futebol Argentino) determinou que todos os jogos da primeira divisão realizados no dia deveriam ter um minuto de silêncio antes de a bola rolar em lembrança às vítimas do terrorismo de Estado. A determinação foi dada pela entidade um ano depois que Adolfo Scilingo, ex-oficial da Marinha, tornou pública a realização dos chamados voos da morte, nos quais presos políticos detidos pelos militares eram dopados e arremessados dos aviões no oceano Atlântico e no Rio da Prata -Scilingo, inclusive, reconheceu sua própria participação nos crimes. Apenas uma partida naquele dia não teve o minuto de silêncio respeitado: Racing 2 x 2 Belgrano, disputado em Córdoba. Sargento do Exército, o árbitro Daniel Giménez se negou a atender o pedido da AFA e deu início ao jogo, para imediatamente ganhar vaias das duas torcidas. Recentemente, os clubes e seus dirigentes abraçaram com maior força o apoio aos movimentos de direitos humanos, reconhecendo seu papel como importantes agentes sociais. Um marco desse reconhecimento foi uma iniciativa do Banfield, em 2019. O clube da região metropolitana de Buenos Aires restituiu simbolicamente a condição de sócios a 11 torcedores desaparecidos na ditadura. Foi a primeira instituição do futebol nacional a realizar tal ato reparatório. Agora em 2021, outros clubes se uniram a essa corrente, incluindo equipes com numerosas torcidas, como Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing. "Há uma década, esse fato de os clubes se posicionarem em um 24 de março não aconteceria. Uma explicação potente é o apoliticismo esportivo, essa teoria de que esporte e política não devem se mesclar. Durante muito tempo, esse discurso foi muito dominante no mundo dos esportes e do futebol", diz o sociólogo Julián Scher, autor do livro "Desaparecidos de Racing", ao jornal Folha de S.Paulo. "Hoje há agrupações de torcedores, de sócios, que impulsionaram esses atos reparatórios e essas homenagens. Os clubes também foram vítimas do genocídio, porque os clubes são das pessoas. Os donos dos clubes são a sua massa societária. Se há um sócio preso, desaparecido ou morto, o plano sistemático de extermínio afetou também o futebol." Em seu livro, Scher conta a história de Alberto Krug, torcedor do Racing e membro dos Montoneros (a guerrilha da esquerda peronista), sequestrado em 2 de dezembro de 1976. Sua mãe, Rosa, continuou pagando ao clube as mensalidades do filho até 1980, com a certeza de que ele, se aparecesse com vida, voltaria a marcar presença na arquibancada do Cilindro de Avellaneda. Alberto nunca voltou. Foi torturado na ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) e arremessado de um avião nas águas do Rio da Prata. No último dia 24, o Racing anunciou, com a presença de seu irmão, Carlos Krug, a restituição da condição de sócio a Alberto. A reação das instituições argentinas respeita uma história de preservação da memória e luta por justiça, marcada pelos movimentos sociais e também pela histórica condenação aos líderes da junta militar, em 1985, no governo de Raúl Alfonsín. Em 2017, quando a Suprema Corte utilizou um recurso legal revogado para aliviar a pena dos militares presos com o chamado "dois por um", em que cada dia passado em prisão preventiva valeria por dois, houve intensa manifestação popular contra a medida. O Senado argentino, por unanimidade, aprovou uma lei que impedia a aplicação do "dois por um" para crimes de lesa-humanidade. "A sociedade argentina rejeita qualquer pacto de impunidade", disse na época a então deputada Victoria Donda, filha de desaparecidos, nascida em um centro de detenção e criada por um repressor detido (Adolfo Donda) e que poderia ter se beneficiado da medida para aliviar sua condenação. No Brasil, o 31 de março e o período da ditadura que governou o país de 1964 a 1985 são celebrados por setores do alto escalão do poder, principalmente na figura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No último dia 18, a Justiça autorizou o governo a manter no ar uma nota que celebrava o golpe militar como "marco da democracia brasileira". O texto havia sido publicado no dia 31 de março de 2020 no site do Ministério da Defesa. O novo ministro da Defesa, Walter Souza Braga Netto, afirmou que o golpe de 1964 "é parte da trajetória histórica do Brasil" e "assim devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março". A maioria dos grandes clubes de futebol do país, amparados na simpatia que o poder e parte da população (incluindo seus torcedores) têm pela data, se mostram confortáveis em manter o silêncio. "Aqui na Argentina, quem reivindica a ditadura é a minoria da minoria. E o futebol não pode se descontextualizar da sociedade. Por certa condição de sentido do nosso país, aos dirigentes lhes traz mais problemas negar essas iniciativas do que apoiá-las", completa Julián Scher.