Aranha fala de saúde mental: 'Aqui o atleta não tem Plano B'

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Aranha durante passagem pela Ponte Preta em 2017 (Foto: Marcello Zambrana/AGIF)
Aranha durante passagem pela Ponte Preta em 2017 (Foto: Marcello Zambrana/AGIF)

Mário Lúcio Duarte Costa, mais conhecido como Aranha, 40 anos de idade, é autor do recém-lançado livro “Brasil Tumbeiro”, que retrata sobre a escravidão no Brasil. O ex-goleiro, que jogou em grandes clubes do futebol brasileiro como Atlético-MG, Ponte Preta, Santos e Palmeiras, concedeu uma entrevista exclusiva ao Yahoo Brasil.

Antes, uma pausa uma homenagem especial. Em seu centenário, o saudoso goleiro Barbosa ganhou merecida exposição no Museu do Futebol. Goleiro histórico do Club de Regatas Vasco da Gama, Barbosa ficou por anos marcado pela derrota do Maracanazo, jogada em suas costas pelo racismo da mídia. Em seu centenário, será aclamado com exposição no Museu do Futebol em São Paulo. Atletas como Daiane do Santos, da ginástica artística, o ex-goleiro Zetti e Aranha estão entre os prestadores de homenagem ao mesmo na exposição que acontece no Museu.

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- Eu reconheci o goleiro Barbosa, como uma representatividade, há pouco tempo. O quanto que ele foi importante na Seleção Brasileira, não tinha ninguém melhor que ele na época, ele era um dos melhores arqueiros do mundo. Temos a percepção também do quanto ele foi gigante quando olhamos para o seu currículo. Foi ídolo no Vasco, e na Seleção. A única tristeza que tenho é o racismo ter anulado o que ele fazia dentro de campo. Era valorizado mais o erro, que ele às vezes falhava, do que o brilhantismo que ele fazia dentro das quatro linhas. Só pelo fato da cor da pele, muitos outros goleiros, são passíveis de erros, como eu fui também. Eu paguei um preço alto por isso, porque o Barbosa, pra mim é uma referência. Mas não o Barbosa ídolo, mas o Barbosa que fracassou, e todos outros goleiros negros, como nós, não era de confiança.

Nas Olimpíadas vivenciamos, muitos atletas, colocando sua saúde mental em evidência. Simone Biles, da ginástica artística, foi uma das atletas. Para o atleta negro dentro do esporte hoje, a saúde mental é uma das pirâmides mais afetadas em suas carreiras.

- O atleta de alto nível, é muito mais cobrado que os demais. Quando você gera uma expectativa, é normal que as pessoas vão depositando confiança em você, e colocando em cheque sua felicidade no atleta. Isso é muito perigoso. Isso, na ginástica, futebol, voleibol, em qualquer esporte. Quando você se torna um ídolo, a alegria do fã é ver você, ganhando, ela se sente vitoriosa com a sua vitória. Costumo dizer futebol, é o psicólogo do brasileiro. Porque é um momento de desestresse para muitos.

– A saúde mental no Brasil, na minha visão, tem a ver com questão histórica e cultural. O esporte e a arte eram a únicas saídas para o cidadão negro, que é a maioria pobre, era única válvula de escape para melhorar de vida. De ter uma vida melhor, sair da miséria, sair da pobreza, dar uma condição de vida melhor para sua família. Quando você entra no esporte e você começa a subir, e começa atuar em alto nível, essa pressão só vai aumentar. Tudo que o atleta começa a construir vai depender dele, estrutura familiar, emocional, e acaba acarretando um peso muito grande. Sem falar que para você hoje se tornar, um atleta de alto nível no Brasil, você tem que abdicar da sua juventude. O esporte suga toda nossa juventude, e quando não rendemos mais, estamos descartados, e vamos para o mercado de trabalho sem preparo nenhum, porque diferente de outros países, aqui o estudo não caminha paralelamente com esporte. Lá fora, você não é só um jogador de basquete, jogador de beisebol eles priorizam o plano B. O atleta pode sonhar em ser um cantor e um jogador de futebol lá fora. Aqui no Brasil não temos segundo plano. Para falarmos que não temos referência aqui, temos o Sócrates, que foi médico e jogador de futebol. O plano A aqui no esporte brasileiro, é o que acarreta mais a saúde mental dos atletas. A questão cobrada a todo instante, temos que nos vingar. Porque não temos o segundo plano. É importante você saber que não tem, só uma chance na vida, por isso que falo muito sobre o estudo hoje, para o atleta a pessoa em si, ir em busca do seu sonho, da sua meta com tranquilidade. Se acontecer do atleta ir para o mercado de trabalho, não será mais sem experiência, são vários caminhos mas todos passam pelo estudo, pela formação.

Aranha já foi vítima de racismo quando era jogador do Santos, em 2014, em uma partida contra o Grêmio em Porto Alegre (RS). Ele relembra que, ainda quando jogava, começou a ter a ideia de fazer um livro quando via que muitos dos companheiros de time não conheciam a história do negro no Brasil.

– Fiquei durante anos, um bom tempo pensando em como eu poderia contribuir, não só com entrevistas, com matérias, mas queria achar uma maneira em que eu poderia contribuir mais. Percebi a necessidade de recontar a história do Brasil com a participação negra para que todo mundo tivesse um pouco mais de conhecimento, entendesse um pouco mais o contexto de como aconteceu, para entender um pouco mais os dias de hoje também – falou.

'Brasil Tumbeiro' foi lançado em julho durante a 16ª edição do Festival Literário, em Poços de Caldas (MG). Na obra, o ex-jogador busca resgatar a história dos negros no Brasil e, segundo ele, mostrar aos jovens que existem outras referências e/ou caminhos de sucesso a serem seguidos por eles além do futebol.

Aranha diz que, com o livro, espera que possa contribuir não só para o aprendizado sobre a história do negro no Brasil. O ex-atleta destaca que deseja mudar a realidade de como o tema escravidão é “constrangedor para aluno e professor” na sala de aula. 

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