Aprender pela internet impactou o desenvolvimento das crianças nessa pandemia?

Nathan Vieira
·7 minuto de leitura

Sem dúvidas, a pandemia de COVID-19 proporcionou grande impacto na área da educação, uma vez que, mais do que nunca, foi necessário recorrer à tecnologia para dar continuidade ao ensino. A questão das escolas na pandemia tem sido responsável por uma verdadeira divisão de opiniões: de um lado, instituições que colocam a segurança acima de tudo, mantendo o ensino à distância. Do outro, instituições que percebem os obstáculos por trás do EAD e defendem a reabertura.

Em meio a isso, vem um questionamento: quais são as consequências do aprendizado pela internet? Esse longo período de aulas remotas pode prejudicar o desenvolvimento do público infantil?

A relação entre as crianças e a COVID-19 ainda é alvo de muito estudo e de muitas dúvidas, e acaba sendo um dos fatores mais delicados desta pandemia. Aqui no Canaltech, já trouxemos as possibilidades por trás da reabertura escolar, tal como seus riscos. Para entender as consequências do ensino remoto, conversamos com Evelise Portilho, pós-doutora em Educação, professora do curso de Pedagogia e coordenadora do curso de Psicopedagogia da PUCPR e com Dr. Clay Brites, pediatra, neurologista infantil e um dos fundadores do Instituto NeuroSaber.

Saúde mental das crianças na pandemia

(Imagem: August de Richelieu / Pexels)
(Imagem: August de Richelieu / Pexels)

Dr. Clay Brites reconhece que a pandemia gerou impacto na saúde mental das crianças. O pediatra observa que não foi um impacto linear ou homogêneo, mas que cada família foi impactada de uma forma diferente, uma vez que cada família tem um perfil diferente de personalidade, de condução, de características. O profissional ressalta várias características causadas por esse impacto. "Em algumas crianças pode levar a sintomas depressivos, transtornos de ansiedade, fobias. A criança pode passar a ter distúrbios do sono, problemas alimentares e outros grupos de criança podem piorar quadros de irritabilidade, de agressividade, dificuldade de lidar com regras", conta.

Por outro lado, o pediatra afirma que outras crianças foram favorecidas pelo isolamento social, porque os pais ficaram em casa, estiveram mais presentes, a família ficou mais em contato um com o outro dentre seus integrantes, o que foi muito positivo para algumas crianças.

Questionado sobre o que é preciso fazer para manter a saúde mental da criança, o especialista explica que se é uma criança que não tem nenhum problema de saúde mental, deve-se apenas manter o ritmo da casa, tranquilizar a criança, mostrar que essa pandemia é uma coisa temporária e que o adulto está ali e a criança não vai ficar sozinha.

"Mas a criança que já tem transtorno neurodesenvolvimental vai precisar de uma supervisão mais de perto para ver se ela está dando conta dos processos relacionados a essa nova realidade, ficar de olho para ver se não haverá uma piora de seu padrão comportamental dentro do âmbito diagnóstico e dentro daquilo tudo que o médico e a equipe multidisciplinar está preconizando, e ver se essa criança está conseguindo lidar da melhor forma possível com as ações que são orientadas por essas equipes para compensar as dificuldades geradas pela pandemia", acrescenta o especialista.

Já na visão de Evelise, tanto as crianças quanto os jovens e os adultos estão sentindo muito o reflexo da ausência social. "A ausência social sem dúvida é o aspecto que mais está pesando, independentemente da idade. Não existe uma fase só que esteja sentindo. Todos nós sentimos porque é uma situação que impede que tenhamos contato com outras pessoas que são importantes para o nosso desenvolvimento. No caso da criança pequena, ela sente muita falta dos colegas. Por mais dificuldade que uma criança pequena tenha de fazer relações e interações porque ainda está em uma fase de centração, é necessário o contato com os colegas justamente para ‘cutucar’ o desenvolvimento", explica a pedagoga.

Ensino remoto e desenvolvimento infantil

(Imagem: Cheney Song/Pixabay)
(Imagem: Cheney Song/Pixabay)

Questionada se ausência de aulas presenciais afetam o desenvolvimento das crianças, Evelise Portilho observa que o desenvolvimento das crianças e o processo de aprendizagem não acontecem apenas na escola. "A criança, como qualquer um de nós, está sempre em desenvolvimento. O que acontece é que neste momento a criança está recebendo outros estímulos por conta da ausência da escola. A escola, de uma maneira sistematizada, estimula alguns aspectos do desenvolvimento que são importantes, mas quando a criança está em casa, com a família, também está se desenvolvendo, mas a partir de outros estímulos. O desenvolvimento não deixa de acontecer", explica.

Enquanto isso, Dr. Clay menciona cinco aspectos do desenvolvimento: motor, emocional, acadêmico, social e adaptativo. Dentre todos esses tipos de desenvolvimento, esse aprendizado à distância decorrente da pandemia afetou mais o acadêmico em si. "Trouxe um impacto predominantemente negativo. Não é um ambiente preparado, tem muito barulho, muito fator de distração. Muitas crianças acharam que estavam em casa de férias, e não na escola, então reduz a capacidade de prontidão e de engajamento desse aluno". Por outro lado, o pediatra reconhece que muitos pais passaram a participar mais da vida escolar e dar mais suporte.

Mas quem sofre mais impacto no desenvolvimento com essa ausência das aulas: as crianças pequenas, em processo de alfabetização, ou as crianças maiores? Do ponto de vista do Dr. Clay, as crianças que sofreram mais foram as que estão em processo de alfabetização. "Crianças de seis a nove anos perderam, nesse processo, muitos requisitos básicos que a escola teria muito mais facilidade de veicular e avaliar se houve ou não absorção desses conteúdos", disserta.

Para a pedagoga Evelise, a aula à distância não é suficiente para suprir as necessidades de aprendizado de uma criança. "O ensino online desenvolve algumas habilidades, nos coloca em contato com alguns instrumentos tecnológicos que nem sempre tivemos contato, faz com que a gente estabeleça outros propósitos e exige algumas questões". Ela menciona que a criança pequena, por exemplo, precisa de mais atenção. O jovem precisa ser muito disciplinado, assim como o adulto, caso contrário se dispersa muito fácil. "Esse é um dos principais motivos que a gente tem visto na rede pública, que é a grande dificuldade que os alunos têm em devolver as atividades propostas pela escola porque acabam se desinteressando".

A especialista reitera que a interação, o contato, a pergunta e a resposta em sala de aula instigam cognitiva, social e afetivamente. "É importante levar tudo isso em conta para que a gente possa realmente aprender com significado e sentido, dando a nossa compreensão para o que está sendo passado. A aula à distância está sendo importante neste momento, mas ao voltarmos, após a pandemia, acredito que a escola vai ter que rever uma série de questões e talvez fazer até algumas transposições do que foi aprendido em isolamento. O ensino à distância, portanto, não é suficiente para que a aprendizagem significativa aconteça".

Evelise ressalta a importância da parceria dos pais com a escola, mas também deixando claro que pai é pai, não é professor. "Os pais só podem fazer o que está ao alcance, como acompanhar a criança.
Quando a criança é muito pequena, por exemplo, ela não dá conta sozinha de ficar em frente de um computador e precisa de um adulto para fazer a mediação", relembra. "É importante que a família valorize esse momento estimulando os seus filhos a pensarem que isso tudo vai passar, mas que nesse momento precisamos nos refazer e criar novas estratégias de estudo e organização. É difícil porque não estávamos acostumados a esse tipo de ensino e como aprender a partir dessa nova modalidade. É um desafio para todos e por isso é tão importante que a família incentive os filhos. O incentivo já é uma grande coisa", reitera a especialista.

Dr. Clay também entende que os pais devem fiscalizar se as crianças estão assistindo às aulas, se não estão se distraindo com questões relacionadas à internet, se estão fazendo as tarefas diariamente. "O pai e a mãe precisam estar do lado, buscar caminhos para flexibilizar os horários de aula para que um adulto esteja do lado da criança, e mostrar que não está ali apenas para fiscalizar, mas também para ajudar, dar um apoio para a criança não ficar insegura ou com medo de que não vai dar conta do processo escolar. A escola deve disponibilizar sempre a atenção de um professor", conclui.

Fonte: Canaltech

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