Após reprovação de TCC sobre racismo, estudante acusa universidade de racismo institucional

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Após reprovação de TCC sobre racismo, estudante acusa universidade de racismo institucional. Foto: Reprodução/Mackenzie
Após reprovação de TCC sobre racismo, estudante acusa universidade de racismo institucional. Foto: Reprodução/Mackenzie

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire

O dia 20 de fevereiro era para ser lembrado por Michelle Euzébio Carvalho como um divisor de águas na sua vida acadêmica. Nesta data, a estudante de Psicologia se formaria ao lado de seus colegas, mas não conseguiu por causa da reprovação do seu trabalho de conclusão de curso. Para a aluna da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o caso se trata de racismo institucional por parte da universidade.

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Michelle conta ter se sentido desapontada com a instituição de ensino desde o período de orientação da primeira fase do trabalho de conclusão de curso, no primeiro semestre de 2019. Segundo ela, a professora Mariana Aron não concordou com o tema proposto pela aluna “A psicologia reconhece os impactos do racismo?”. 

“A Mariana Aron não gostou do tema, disse que não conhecia a respeito e me indicou uma outra temática. Fiquei desapontada e meus 10 minutos de orientação se encerraram. Me senti pressionada a mudar a dissertação que seria meu último ato político dentro da universidade. Eu queria falar sobre os impactos do racismo que são ignorados pela ciência da psicologia”, relata.

Na tentativa de mudar de orientadora do trabalho acadêmico, a aluna procurou o núcleo de trabalho de conclusão de curso da universidade. Michelle não teve sua solicitação acolhida e permaneceu com a professora Mariana Aron, na qual a estudante teve problemas durante o processo de orientação, que resultou na reprovação do trabalho.

“A professora sempre leu meu trabalho e nunca me alertou sobre os problemas com citações de autores. Somente nos últimos dias de orientação, ela me disse que a introdução precisava ser ampliada e sumiu. Um dia antes do prazo final, ela marcou um encontro comigo para o dia seguinte e indicou os erros nas citações, que nunca havia mencionado antes e ameaçou me reprovar”, recorda.

Conversa da aluna Michelle Euzébio Carvalho com a professora orientadora Mariana Aron. Foto: Acervo Pessoal
Conversa da aluna Michelle Euzébio Carvalho com a professora orientadora Mariana Aron. Foto: Acervo Pessoal

A estudante de psicologia foi reprovada sob a justificativa de que seu desenvolvimento durante o processo do trabalho de conclusão de curso não foi satisfatório. Inconformada, a aluna procurou o coordenador do curso de psicologia, Marcos Araújo, e fez uma reclamação por perseguição e racismo institucional.

“O coordenador disse que conversaria com a professora embora ela tivesse autonomia para me reprovar. Depois, ele disse que a Mariana Aron me reprovou não apenas pelos erros nas citações do trabalho, como também pelas vezes que eu precisei faltar ou que me atrasei. As duas vezes que eu precisei faltar, eu a avisei com antecedência para que pudéssemos remarcar sem causar prejuízos. A própria professora precisou remarcar alguns encontros devido a contratempos da vida dela. Além disso, minha reclamação de perseguição e racismo institucional não foi acolhida pela instituição”, afirma.

Para não precisar refazer o trabalho e conseguir apresentá-lo ainda em 2019, Michelle abriu um requerimento administrativo e um mandado de segurança para solicitar a inclusão das duas disciplinas relacionadas ao TCC no segundo semestre do ano. 

A aluna fez as correções indicadas pelo novo orientador e, no fim de 2019, no momento de apresentar o trabalho, foi informada de que o coordenador do curso de psicologia, Marcos Araújo, não a matriculou na disciplina necessária para que ela pudesse apresentar seu trabalho de conclusão de curso e ser avaliada adequadamente.

“O coordenador não quis deixar eu me formar e disse que eu vou ter que ficar na universidade por mais seis meses para aprimorar o meu trabalho que ainda não estava bom o suficiente. De todos os direitos que o racismo me roubou,  o mais doloroso foi ter que assistir da plateia a formatura que deveria ser minha”, desabafa.

Repercussão

Em fevereiro, Michelle Euzébio Carvalho publicou em suas redes sociais o ocorrido e recebeu apoio de outros alunos da universidade. Relatos dão conta de que outros estudantes negros também passaram por situações semelhantes com professores e coordenadores da instituição de ensino.

Alma Preta procurou a Universidade Presbiteriana Mackenzie, a professora Mariana Aron e o coordenador do curso de psicologia Marcos Araújo a fim de ouvir a versão deles sobre o caso.

A professora Mariana Aron atribuiu como “gravíssimas” as acusações feitas por Michelle e disse não considerar oportuno se pronunciar com mais detalhes no momento. O coordenador Marcos Araújo, por sua vez, informou que o caso está sendo tratado a nível institucional e por ser citado no processo também não considera adequado se posicionar publicamente sobre o assunto no momento.

Em nota, a Universidade Presbiteriana Mackenzie afirmou que a aluna  não cumpriu os requisitos necessários para a realização da primeira etapa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC-1), de acordo com o regulamento acadêmico da instituição, e que as demais questões levantadas por Michelle estão em apuração. A universidade informou ainda não tolerar discriminação em qualquer hipótese, seja por raça, gênero, sexo, ideologia, religião ou origem. 

* Matéria atualizada em 6 de março às 9h28 para inclusão do posicionamento da Universidade Presbiteriana Mackenzie, enviado às 17h11 de 5 de março, sobre os questionamentos da reportagem.


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