Apoio a Bolsonaro e a Lula movimentou mundo do esporte brasileiro como nunca

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Talvez cansado das críticas, Neymar foi ao Instagram pedir para as pessoas manifestarem suas opiniões políticas.

"Eu convoco a todos que não se posicionaram e que podem se posicionar, sim, porque você tem a sua liberdade de se posicionar, expressar seus sentimentos, seus valores."

Foi uma reação do melhor jogador do país e capitão da seleção brasileira às críticas. Ele havia apoiado de forma pública a candidatura de Jair Bolsonaro (PL) à reeleição para presidente da República.

O camisa 10 pode ter sido o mais famoso. Mas não foi o único a fazer isso. A disputa entre Bolsonaro e Luis Inácio Lula da Silva (PT), que acabou eleito, movimentou esportistas na ativa e aposentados como jamais havia acontecido antes, constatam sociólogos do esporte e especialistas em marketing.

"Eu não tenho os dados, mas a percepção é essa", afirma o sociólogo Ronaldo George Helal, coordenador do Grupo de Pesquisa Esporte e Cultura da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), sobre o crescimento da manifestação política de esportistas. "Eu não sei se ele [Neymar] tem consciência política. Eu creio que ele acha que tem e está no dever dele. Mas eu creio ser mais grave o que a diretoria do Flamengo fez. Uma coisa é o CPF. A outra é o CNPJ."

Ele se refere ao comportamento do clube após a conquista do título da Libertadores no último sábado (29). O mandatário Rodolfo Landim e outros dirigentes posaram para fotos no gramado de Guayaquil, no Equador, onde aconteceu a final, fazendo sinais do número 22, usado por Bolsonaro. O candidato se encontrou com a delegação no dia da eleição, no domingo (30), e levantou a taça.

Mas não foram apenas dirigentes. Jogadores da equipe, como o lateral Rodinei e o atacante Everton Cebolinha também manifestaram apoio à reeleição ao fazerem 22 com os dedos ao lado do presidente da República.

"Hoje em dia os atletas possuem um canal de comunicação direto com o público. Antes, para se manifestar, o esportista precisava fazê-lo por intermédio da imprensa. Tinha de dar uma entrevista. Com as redes sociais, fica facilitado o posicionamento político, o posicionamento ideológico. A gente consegue colocar essa pessoa dentro de um espectro político", analisa o sociólogo Marcel Diego Tonini, pesquisador sênior do Centro de Referência do Futebol Brasileiro do Museu do Futebol.

Nos dias que antecederam a votação no primeiro turno (2 de outubro) e durante a campanha do segundo turno, os candidatos receberam diferentes apoios do mundo do esporte.

Nisso, Bolsonaro parece ter vencido. Recebeu manifestações de apoio do zagueiro Thiago Silva (do Chelsea-ING e da seleção), do lateral Daniel Alves (do Pumas-MEX), do lateral Rafael e do defensor Fernando Marçal (ambos do Botafogo), do goleiro João Paulo (do Santos), do técnico Renato Gaúcho (hoje no Grêmio), dos ex-jogadores Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, dos lutadores de MMA José Aldo, Fabricio Werdum e Wanderlei Silva, para ficar em alguns nomes.

O gesto mais significativo que Lula recebeu foi de Raí, ex-jogador do São Paulo e da seleção brasileira, campeão mundial por ambos. Ao entregar o Prêmio Sócrates, em homenagem ao seu irmão, durante a Bola de Ouro, em Paris, ele fez gesto com a letra L, para lembrar Lula.

O petista também recebeu apoio do técnico Vanderlei Luxemburgo, da jogadora de vôlei Carol Solberg, do atacante Paulinho (do Bayer Leverkusen) e do ex-meia Juninho Pernambucano. Entre outros.

Bolsonaro já usou a seleção de futebol no passado para angariar popularidade. Entrou em campo em intervalo da semifinal da Copa América de 2019, contra a Argentina, e caminhou pela beira do campo com uma bandeira do Brasil. Após vitória na final sobre o Peru, ergueu o troféu com os jogadores e diante da torcida. Fez o mesmo no título brasileiro do Palmeiras, seu time do coração, em 2018.

"Redes sociais são uma arena de conflito muito bélico, de linchar as pessoas. Neste sentido, o atleta poderia tomar mais cuidado. Manifestar apoio a um candidato não seria nada demais se não houvesse o lado extremo. Não sei se eles [os atletas] percebem isso. Não perceberam que quem ameaçava a democracia era o candidato deles", critica George Helal.

A manifestação política trouxe também a discussão sobre a imagem pública do atleta na questão do marketing e da atração para marcas. Isso está dentro da tendência de mercado, acreditam especialistas, mesmo que na contramão da ideologia política. Geralmente, a busca das empresas é por uma visão considerada progressista, não conservadora.

"Algumas das principais marcas do mundo têm valorizado a atuação política de um atleta, mas há uma evidente preferência por aquelas ligadas a pautas mais progressistas. Além disso, atuação política é diferente de dar opinião política ou declaração de voto. Atitudes, envolvimento em causas de interesse público é que têm valor nesse contexto e criam uma imagem relevante, para o bem ou para o mal", defende Bruno Maia, especialista em novas tecnologias do esporte.

E, para eles, a tendência é que manifestações políticas ou eleitorais, como as que aconteceram neste ano no Brasil, tornem-se cada vez mais comuns.

"Com o passar do tempo, nós, brasileiros, vamos encarar isso com ainda mais naturalidade. Os atletas são pessoas com gostos e preferências. Se meu ídolo pensa diferente de mim, qual o problema? Há uma tendência [no mercado] a se naturalizar isso porque todos temos opiniões", finaliza Bernardo Pontes, especialista em marketing esportivo que atende marcas, atletas e influenciadores digitais.