Apoiado por jogadores, clube norueguês inicia movimento por boicote à Copa

ALEX SABINO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os jogadores de um pequeno time que até o ano passado estava na segunda divisão da Noruega passaram o dia em discussões até chegarem a um consenso. Após votação, o elenco resolveu abraçar uma proposta que poderia parecer irrelevante, por sair de clube tão inexpressivo. Mas a ideia se tornou uma dor de cabeça para a Fifa e o Qatar. O Tromso Idrettslag propôs, de maneira oficial, que a Federação Norueguesa de Futebol boicote a Copa do Mundo de 2022. "A federação disse que através do diálogo tudo seria melhor. Que tudo mudaria [no Qatar] por causa do Mundial. Nós agora vemos que nada de importante aconteceu. Não há respeito pelos direitos humanos no país. Existe um sistema de escravidão", diz à reportagem o volante e capitão Ruben Yttegard Jenssen, um dos que eram reticentes quanto à ideia, mas depois se tornou entusiasta. Mesmo em seus momentos de glória, o Tromso não pareceria capaz de abalar o futebol. Campeão da primeira divisão em 1986 e 1996, a equipe participou das principais competições europeias no século passado. Mas a proposta de boicote ganhou apoio de rivais do país, como Rosenborg, Odd, Stromsgodset, Viking e Brann. Na última semana, seleções da Noruega, Alemanha, Holanda, Áustria, Dinamarca e Irlanda entraram em campo em partidas das eliminatórias com camisas ou faixas pedindo respeito aos direitos humanos. A situação da massa imigrante envolvida nas construções dos estádios e infraestrutura para a Copa do Mundo é motivo de polêmica desde 2010, quando o Qatar ganhou o direito de sediá-la. As denúncias de entidades internacionais falam na inexistência de direitos trabalhistas para estrangeiros, jornadas exaustivas em temperaturas que podem superar os 50°C no verão, moradias precárias e, principalmente, a kafala. Trata-se da legislação que proíbe o imigrante de trocar de emprego, a não ser que o seu patrão atual assine uma carta autorizando a mudança. A gota d'água para os noruegueses foi reportagem publicada pelo diário inglês The Guardian no final de fevereiro. O jornal revelou que mais de 6.500 trabalhadores imigrantes morreram desde que a nação do Oriente Médio venceu a concorrência para receber o evento. "Antes de tudo, nos deixa tristes que tenhamos sido nós a fazer isso. Somos um clube pequeno. Deveria ter sido um time maior ou uma organização a ter essa iniciativa. Isso pela maneira como eles [do Qatar] conseguiram a Copa do Mundo, via corrupção, pela maneira totalmente racista como tratam operários imigrantes, pela maneira como tratam gays e mulheres. Nós sentimos que é errado jogar uma Copa do Mundo por cima de pessoas mortas", se queixa Oyvind Alapnes, CEO do Tromso. A federação norueguesa é contra o boicote. O presidente da entidade, Terje Svendsen, divulgou nota dizendo que a iniciativa não contribui para a melhoria das condições de trabalho no Qatar. "O cancelamento do Mundial traria um agudo aumento do desemprego, com a perda de centenas de milhares de vagas." Embora não seja uma das favoritas para a classificação, a Noruega tem chances. Ela está em grupo com a Holanda, Turquia, Montenegro, Letônia e Gibraltar. O primeiro colocado garante um lugar no Mundial. O segundo vai para um sistema de repescagem. O time tem o atacante Erling Haaland, 20, do Borussia Dortmund (ALE), um dos jogadores mais valorizados do futebol atual. "No início, a federação falou muito sobre possíveis sanções da Fifa por causa da nossa iniciativa. Não aconteceu nada e eles tiveram de colocar o problema em discussão. Por isso é importante também que os clubes grandes se manifestem", acredita Jenssen. Apesar do apoio de jogadores em partidas de seleções, as principais agremiações da Europa, demais federações nacionais ou confederações mantêm-se calados. O Paris Saint-Germain, onde joga o brasileiro Neymar e que está nas quartas de final da Champions League, pertence a um conglomerado controlado pela família real do Qatar. Para que o boicote norueguês se torne real, o parlamento do país tem de aprovar. O caso recente mais parecido na história do torneio aconteceu em 1973, quando a então União Soviética se recusou a enfrentar o Chile em Santiago pela repescagem das eliminatórias. Era uma retaliação pela queda do presidente socialista Salvador Allende, derrubado por um golpe militar. A Fifa se recusou a mudar o local da partida e os chilenos entraram em campo sem adversário, fizeram um gol no estádio vazio e se classificaram. "Algumas pessoas pensam que futebol e política não deveriam se misturar. Eu acredito que isso é apenas uma desculpa para fugir da responsabilidade. E neste caso, é da própria política do futebol que estamos falando. Há quem diga que um clube pequeno como o nosso não pode mudar nada, mas olhe o que está acontecendo no mundo agora", ressalta Alapnes. A Fifa afirma trabalhar com a organização do Qatar pela melhoria das condições de trabalho no país. O governo do país contesta os números apresentados pelo The Guardian, lembra que, desde 2010 houve várias melhorias na vida da força operária imigrante do país e que a taxa de mortalidade entre imigrantes está dentro do esperado se analisada a densidade demográfica. Dos 2,8 milhões habitantes da nação árabe, apenas 300 mil são qataris. "A Fifa tem o poder de mudar tudo isso, sem se deixar levar pelo dinheiro. Mas ela, antes de tudo, precisa querer", finaliza o capitão do Tromso.