Apesar de críticas de estrelas, clubes não abrem mão do ranking no vôlei

Jonas Moura

Motivo de reclamações de oito campeãs olímpicas nas redes sociais durante a semana, a manutenção do ranking da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) somente para as atletas de ponta da Superliga feminina foi proposta pelo Camponesa/Minas e teve rejeição total de um único clube, o Vôlei Nestlé.

Em reunião realizada no dia 14 de março, em São Paulo, oito dos 10 times garantidos na elite debateram com a Comissão de Atletas e a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) o regulamento para montagem dos elencos da temporada 2017/2018. Como não enviaram representantes, Terracap/BRB/Brasília e Rio do Sul foram os únicos que não votaram.

Rexona-Sesc, Dentil/Praia Clube, Genter Bauru, Fluminense, Pinheiros e São Cristóvão Saúde/São Caetano, além do Minas, se posicionaram a favor do ranking. A Comissão de Atletas, representada pelo ex-jogador Kid, foi contra. Com isso, a CBV manteve a regra, que visa equilibrar o campeonato.

No texto aprovado, cada elenco só pode ter duas atletas de sete pontos e duas estrangeiras, que não são pontuadas. As brasileiras mais bem ranqueadas são a levantadora Dani Lins, as centrais Fabiana e Thaisa, as ponteiras Fernanda Garay, Jaqueline, Natália e Gabi, e as opostos Sheilla e Tandara.

Como há poucos times em condições de pagar os salários desejados pelas grandes estrelas, muitas ficam sem mercado e optam por ir para o exterior, como Thaisa e Garay. Antes, havia pontuação de zero a sete, e cada equipe tinha um teto de 43 pontos. Agora, não há limite.

Embora aprovado pela maioria, o ranking ainda gera discordâncias. O LANCE! apurou que quatro propostas foram colocadas na mesa. Além da vencedora, o próprio Minas sugeriu aumentar o limite de jogadoras de sete pontos para três por equipe. O Rexona queria que também fosse mantida a classificação de seis e cinco pontos, bem como um somatório limite para evitar desequilíbrio. E o Vôlei Nestlé propôs e extinção total do ranking.









O novo regulamento será adotado por uma temporada e reavaliado. Por enquanto, a CBV diz que não acabará com o ranking, já que os clubes, por maioria, decidiram pela sua manutenção, em encontro que teve participação da Comissão de Atletas.

– Até onde vai o equilíbrio do ranking? A Sheilla (sem clube) tem sete pontos, mas por que a Hooker (do Minas), que é o grande destaque da Superliga, não tem pontuação? – questionou Gabi, que ainda espera por uma mudança de postura da entidade máxima do vôlei brasileiro.

A ideia de manter o ranqueamento apenas para as estrelas e eliminar o somatório de pontos por clube era um desejo antigo de Paulo Coco, técnico do Minas e assistente de José Roberto Guimarães na Seleção feminina. Ele já havia tentado aprová-la nos últimos anos, mas foi voto vencido nas ocasiões.

Gabi explica ‘ataque’ só à CBV e não a clubes

Em comunicado divulgado no início da semana, as jogadoras ranqueadas com sete pontos criticaram a CBV por não acabar com o sistema de pontuação, criado pela entidade na edição 1992/1993, e disseram ser alvo de discriminação, pois só elas são pontuadas. Mas não mencionaram o fato de seus próprios clubes votarem a favor da manutenção da regra.

Questionada sobre o fato pelo L!, Gabi admitiu que há um conflito de interesses entre times e atletas.

– Falamos sobre a CBV porque foi ela que criou o ranking. Uma vez que o assunto é colocado em votação, os clubes pensarão em seus interesses. Sempre há equipes que tentam prejudicar outras para montar elencos melhores. Mas somos nós que representamos a Seleção e justificamos patrocinadores – disse a atleta.

O L! procurou a diretoria do Vôlei Nestlé para comentar sua posição contrária à das demais equipes. O clube respondeu por meio de nota oficial, em que reforçou a opinião, mas passou a responsabilidade para a CBV.

"A Diretoria do Osasco Voleibol Clube compareceu à reunião em que os representantes envolvidos na Superliga feminina discutiram o Ranking de Atletas para a próxima temporada. Estamos classificados para a semifinal da edição de 2016/17 e, neste momento, o nosso foco está na disputa por uma vaga na final da competição. O campeonato é organizado pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e o clube de Osasco se posicionou em plenária contra a manutenção do Ranking. Acreditamos que o aspecto esportivo é a prioridade neste instante, portanto, esse assunto passa a ser de responsabilidade da CBV", disse a nota.

Homens têm reunião nesta sexta

A decisão sobre manter ou não o ranking na Superliga masculina 2017/2018 será conhecida nesta sexta-feira, em São Paulo, em uma reunião da Associação dos Clubes, sem a presença da CBV. Minas e Brasil Kirin não participam.

OS BASTIDORES DA REUNIÃO

As votações
As equipes votaram duas vezes. Uma para decidir se haveria ranking ou não, e outra para definir de que forma o sistema seria utilizado, uma vez que ele foi aprovado por 7 a 2. Na segunda votação, os times apresentaram propostas.
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Camponesa/Minas
A equipe apresentou duas propostas. Uma, que foi posta em votação e venceu, manteve a pontuação sete para as nove maiores estrelas do vôlei brasileiro (oito são campeãs olímpicas), bem como o limite de duas estrangeiras por clube, e derrubou o somatório de 43 pontos, o qual os times não podiam ultrapassar. A outra, rejeitada, permitiria que cada time tivesse até três atletas de sete e apenas uma estrangeira.
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Rexona-Sesc
Propôs a manutenção do ranking para as atletas de sete, seis e cinco pontos, com limite de somatório (não definido). A ideia agradou a alguns clubes, mas foi preterida pela sugestão do Minas.
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Contra o ranking
O Vôlei Nestlé propôs o fim do ranking para todas as jogadoras, o que não foi aceito por nenhuma das outras sete equipes presentes. Representada pelo ex-jogador Kid, vice-presidente, a Comissão de Atletas também foi contra manter o ranking. Foram voto vencido.

COM A PALAVRA

Harry Bollmann
Supervisor do Rexona-Sesc

Acreditamos que o ranking é válido. Não fomos a favor de tirá-lo. Nossa proposta era para manter a pontuação de sete, seis e cinco, e achar um limite para a montagem do clube. Entendemos que o ranking é positivo e atende ao que se propõe, que é nivelar a Superliga.

A reclamação das jogadoras de sete é legítima, mas há outras circunstâncias que não estão sendo levadas em conta. Será que o ranking é prejudicial a todas as atletas? Talvez, para quem tem dois, três e quatro pontos, ele pode ser a chance de elas serem empregadas em equipes de médio porte.

O que define se o torneio é mais ou menos equilibrado é o número de times com poder de investimento, não o ranking. Eu temo, com o formato atual, pela formação de superequipes e pela falta de mercado às jogadoras com menos pontos. Como não há limite, você poderá montar um grupo só com estrelas de sete e seis pontos e duas estrangeiras, sem preocupação com novas atletas.












































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