Apagão no Amapá: no 14º dia, periferia tem 'racionamento do racionamento' em Macapá

João Conrado Kneipp
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Foto: Myke Sena/Yahoo Notícias
(Foto: Myke Sena/Yahoo Notícias)

O Amapá chega nesta terça-feira (17) a duas semanas de apagão, com 13 das 16 cidades sem o fornecimento regular de energia elétrica e enfrentando um rodízio de distribuição após o incêndio em um transformador na principal subestação do estado.

O esquema de racionamento de energia adotado pelo governo do Amapá entrou em vigor na última quinta-feira (12) e seguirá por tempo indeterminado. No cronograma, os bairros de 13 municípios recebem energia de manhã e à tarde por um intervalo de 4 horas, enquanto no período noturno esse tempo diminui para 3 horas.

No entanto, na capital Macapá — que reúne quase metade da população do estado inteiro —, os bairros periféricos enfrentam o “racionamento do racionamento”.

“Os bairros mais distantes do centro estão recebendo energia por 2 horas, 3 horas. Outras regiões onde estão localizados os residenciais de classe média, onde geralmente moram empresários, políticos, estão com energia sem interrupção”, afirmou Valdinei Araújo, acadêmico da UNIFAP (Universidade Federal do Amapá).

Bairros próximos a serviços essenciais como hospitais ou instalações de distribuição de água foram “privilegiados” com o abastecimento sem interrupção, segundo ele. Com as bombas desligadas na maior parte da cidade, o fornecimento de água encanada também havia sido comprometido.

PREÇOS ALTOS E FAKE NEWS

Na primeira semana, eram recorrentes as cenas de pessoas tomando banho em cursos d’água, como córregos, ou mesmo indo nesses locais buscar água para beber ou cozinhar os alimentos. A solução foi recorrer às prateleiras de água potável.

“O garrafão de água que custa R$ 5, chegou a ser vendido por R$ 20. O balde de gelo chegou a ser vendido por R$ 20 também. A procura foi tanta que a gente sabe até de casos de briga nas filas”, conta Araújo.

MACAPA, BRAZIL - NOVEMBER 08: Detailed view of a freezer full with food, which works with a generator at Edmario Costa's bakery during a blackout due to fire in the Macapa substation on November 8, 2020 in Macapa, Brazil. The substation located in the North Zone of Macapa undergoes maintenance after a fire that has left 89% of the state of Amapa (about 765 thousand people) without electricity since Tuesday the 3rd. There is a lack of running water in the city and ATMs and card machines do not work and only gas stations with a generator are able to operate. (Photo by Luiza Nobre/Getty Images)
Vista detalhada de um freezer cheio de comida, que funciona com um gerador na padaria em Macapá, no dia 8 de novembro de 2020. Há falta de água encanada na cidade e caixas eletrônicos e máquinas de cartão não funcionam e só funcionam os postos com gerador. (Foto Luiza Nobre / Getty Images)

Além dos prejuízos com eletrodomésticos queimados devidos aos picos de energia que acontecem durante os rodízios ou com os alimentos que estragam por falta de acondicionamento, o apagão também mexeu com os preços de diversos produtos nos pequenos mercados de bairro em Macapá.

“O preço da caixa de vela pequena foi para R$ 7, onde antes geralmente custava de R$ 2 a R$ 3. O pacote de vela grande chegou a custar R$ 15”, conta a autônoma Waléria Figueiredo Bandeira, moradora da cidade de Amapá, homônima do estado.

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Durante os primeiros dias, antes de o governo do Amapá estabelecer os cronogramas de racionamento, a população recorreu aos hoteis e até mesmo ao aeroporto para conseguir utilizar notebooks ou carregar os celulares.

“Só que limitaram o acesso ao aeroporto depois porque estava muita gente indo. Com isso, alguns estabelecimentos estavam cobrando para carregar os aparelhos. Pediam R$ 5 de taxa por celular. Um absurdo”, revelou o acadêmico.

Os moradores também reclamam da quantidade de notícias falsas que chegam até eles, criando um alarmismo temendo que fiquem sem luz nos horários programados pela CEA (Companhia de Eletricidade do Amapá).

“Está tendo muita notícia fake, de que vão desligar a luz. E a CEA está tendo que desmentir. A gente fica sem saber”, completa Waléria.

Na sexta-feira (13), o juiz federal João Bosco Costa Soares da Silva, da 2ª Vara Federal Cível do Amapá, concedeu mais 7 dias de prazo para que a concessionária LMTE (Linhas de Macapá Transmissora de Energia) restabeleça o fornecimento de energia elétrica para o estado.

Silva também determinou que o governo federal estenda o pagamento de duas parcelas do auxílio-emergencial, que já vem sendo concedido às pessoas financeiramente afetadas pelo novo coronavírus, às famílias carentes afetadas pelo apagão e por suas consequências

O QUE CAUSOU O APAGÃO NO AMAPÁ E ATÉ QUANDO VAI?

A Polícia Civil do Amapá informou que um laudo preliminar realizado no transformador que pegou fogo em uma subestação em Macapá descartou que um raio tenha sido o causador do incêndio. Um outro laudo, mais detalhado, ainda será divulgado posteriormente.

Segundo o laudo, emitido na quarta-feira (11), foi detectado que o incêndio no transformador teve início após uma peça do equipamento superaquecer. O para-raios do local também não acusou nenhuma anormalidade.

Dos três transformadores existentes no local, um pegou fogo e sobrecarregou o segundo, que acabou danificado. O terceiro já não estava funcionando. Após o incêndio, um dos equipamentos foi consertado, o que garantiu a realização do rodízio de energia.

MACAPA, BRAZIL - NOVEMBER 08: A general view of the 230/69 kV Macapa substation during a blackout due to a fire on November 08, 2020 in Macapa, Brazil. The substation located in the North Zone of Macapa undergoes maintenance after a fire that has left 89% of the state of Amapa (about 765 thousand people) without electricity since Tuesday the 3rd. There is a lack of running water in the city and ATMs and card machines do not work and only gas stations with a generator are able to operate. (Photo by Luiza Nobre/Getty Images)
Subestação de Macapá, localizada na Zona Norte da cidade, passou por manutenção após um incêndio que deixou 89% do estado do Amapá - cerca de 765 mil pessoas - sem luz. (Foto Luiza Nobre / Getty Images)

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) afirmou nesta terça que espera finalizar em um prazo de 10 dias o relatório sobre as causas do apagão que atinge o estado do Amapá há duas semanas. Em seguida, promete aplicar penalidades aos responsáveis.

O diretor-geral da Aneel ressaltou que 80% da energia elétrica do Amapá já foi restabelecida e afirmou que o restante do fornecimento deve estar normalizado até o fim da semana. A Aneel também ressaltou que já desembarcam ainda nesta terça em Macapá os equipamentos para o fornecimento de 60 megawatts.

Já o fornecimento regular e seguro de energia nas cidades afetadas pode ficar somente para 7 de dezembro. A informação aparece em ofícios da empresa LMTE, responsável pelos transformadores e pela transmissão de energia na região.