Após pagar promessa de joelhos, herói de vitória gremista pede que torcida fique em casa

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PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - As luzes do estádio Beira-Rio já estavam apagadas e os jogadores, dentro dos vestiários, na noite de domingo (16), quando o centroavante gremista, Ricardinho, 20, contornou o gramado em uma volta olímpica de joelhos, para pagar a promessa feita no velório do pai, morto em decorrência da Covid-19 no último dia 30 de março.

Reserva do Grêmio, o centroavante entrou em campo aos 34 minutos do segundo tempo, no lugar de Diego Souza, e marcou um gol de cabeça que garantiu a vitória do time tricolor em cima do Internacional, na primeira partida da final do Campeonato Gaúcho.

O placar de 2 a 1, de virada, deixou o Grêmio a um empate do tetracampeonato, na decisão em casa no próximo domingo (23).

No velório do pai, Ricardo Viana, 50, policial do Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo, de quem leva o nome, Ricardinho prometeu que atravessaria de joelhos o campo onde tivesse chance de marcar o primeiro gol a partir dali.

Nem a mãe sabia da promessa, segundo ele. "Era uma coisa minha e dele", contou o atleta, em uma transmissão no canal do Grêmio no YouTube, nesta segunda-feira (17).

"O futebol para mim é como se fosse um remédio. Quando estou fora de campo, ainda é muito difícil estar com a minha família, sem meu pai e sem meu avô. Mas, quando entro em campo, esqueço tudo, sou feliz", afirmou ele. "Tive palavras de apoio do [Pedro] Geromel e do Maicon, capitães do elenco."

Além do pai, Ricardinho perdeu o avô materno, José Alfredo Luís França, 84, também em decorrência de infecção pelo novo coronavírus, no dia 1º de abril. Os dois eram seus heróis, diz ele. Na comemoração do gol, como faz desde que tinha 15 anos, o jogador bateu continência, em homenagem ao pai militar.

Logo depois, levantou a camisa do Grêmio e mostrou a camiseta que usava por baixo, com uma foto na qual aparecia ao lado dos dois e a frase: "Tudo por eles".

Faltando poucos minutos para o fim do jogo, Ricardinho recebeu o cruzamento de Léo Pereira e cabeceou. Ele conta que, quando viu que o goleiro colorado Marcelo Lomba não conseguiria chegar à bola, ficou feliz e lamentou que o pai não estivesse ali para compartilhar esse momento.

"A mensagem que eu quero passar é: se você não tem necessidade de sair de casa, se não é por trabalho, fique em casa, use máscara, passe álcool em gel, porque a pandemia é coisa séria. Eu perdi meu pai, perdi meu avô, perdi pessoas queridas, essa pandemia não acabou ainda. É o único jeito que a gente tem de se prevenir", afirmou ele.

Natural de São Paulo, o atleta cresceu em Guarulhos e começou a jogar no Flamengo de São Paulo e no Guarulhos. Ele ficou na base do São Paulo de 2017 a 2020, quando assinou com o Grêmio. No tricolor gaúcho, foi artilheiro do time no Campeonato Brasileiro sub-20, marcando nove gols em 12 jogos.

No final do Gre-Nal deste domingo, Ricardinho era um dos oito jogadores em campo que passaram pela base gremista.

O centroavante comentou que sempre gostou de fazer gol de cabeça, mas pela altura (1,81 m) tinha dificuldade. Os treinamentos ao lado de Diego Souza e do argentino Diego Churín, com quem ele disputa a reserva, têm ajudado no posicionamento dentro da área. Ricardinho elogiou os companheiros, que considera excelentes cabeceadores.

No time profissional, ele participou de 12 jogos, foi titular em cinco e marcou cinco gols. O gol da vitória no jogo de ida da final do campeonato estadual foi o primeiro dele sob o comando do técnico Tiago Nunes, substituto de Renato Gaúcho, que ficou quatro anos no Grêmio e saiu em abril.

"A história que ele passou é um drama, todos nós ficamos sensibilizados. O que nos chama a atenção é a força de vontade, a resiliência, o equilíbrio emocional em meio a uma tragédia como essa. Impressiona ele passar por tudo isso mantendo o foco, o objetivo claro e o propósito dele em relação ao que quer dentro do clube", afirmou o técnico.

"No momento em que ele entrou, a característica do jogo pedia um pouco um jogador como ele. Além do jogo de pivô, de força física, ele é um atleta rápido para atacar os espaços. Era um momento em que a gente precisava disso. Ele entrou bem e foi abençoado com esse gol."