Após chorar de saudade do futebol, Mourinho volta mais espirituoso

ALEX SABINO
Folhapress
***FOTO DE ARQUIVO*** LISBOA, PORTUGAL, 18.10.2017 - José Mourinho, então treinador do Manchester United, durante a partida contra o Benfica, no estádio da Luz, em Lisboa, no Portugal. (Foto: Bruno de Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** LISBOA, PORTUGAL, 18.10.2017 - José Mourinho, então treinador do Manchester United, durante a partida contra o Benfica, no estádio da Luz, em Lisboa, no Portugal. (Foto: Bruno de Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Parecia uma boa sacada mandar uma equipe de TV a Portugal para passar um dia ao lado do técnico famoso que, pela primeira vez em 17 anos, estava desempregado, em férias forçadas.

José Mourinho, 56, aceitou a oferta do canal britânico Sky Sports News, mas a entrevista saiu do script quando o treinador começou a falar sobre seus dias ociosos.

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"No momento em que fui para o futebol profissional tive o clique na cabeça. Tem sido algo muito sério. E então agora [o futebol] parou e em vez de aproveitar isso, não consigo. Sinto falta", disse o técnico, que começou a chorar no meio da explicação.

Pouco mais de um mês depois, Mourinho foi contratado para o lugar do argentino Mauricio Pochettino no Tottenham Hotspur. Pode ser um casamento perfeito. O treinador que fez fama como máquina de ganhar títulos chega ao clube com dificuldade para ser campeão nos últimos 30 anos.

São três jogos e três vitórias para a equipe sob o comando do português. A última no sábado (30), 3 a 2 sobre o Bournemouth, pelo Inglês.

Mourinho estava sem trabalho desde dezembro do ano passado, mês em que acabou demitido pelo Manchester United --time que ele reencontra nesta quarta (4), também pela Premier League. Encerrou ciclo de dois anos e meio que começou com muita promessa, mas acabou mal. Nas semanas finais em Old Trafford, ele nem sequer conseguia conversar com o chefe executivo Ed Woodward sem que ambos terminassem gritando um com o outro.

O treinador estava frustrado com a falta de investimento em reforços. O dirigente argumentava que a família Glazer (dona do United) havia gasto 400 milhões de libras (cerca de R$ 2 bilhões em valores atuais) em novos jogadores.

Mourinho também não tinha mais qualquer relacionamento com Paul Pogba, o jogador mais caro do elenco. Pouco ajudava o futebol burocrático, sem vida ou vitórias que o time mostrava em campo.

Em duas temporadas e meia, porém, Mourinho pode lembrar que conquistou dois títulos: a Copa da Liga e a Liga Europa de 2017, este último o troféu mais importante da agremiação após a aposentadoria do lendário treinador Alex Ferguson, em 2013.

Ele se sentiu vingado porque, em 2018, pediu que o zagueiro Harry Maguire fosse comprado do Leicester por cerca de 20 milhões de libras (por volta de R$ 100 milhões). Ouviu como resposta que não valia o investimento. Há quatro meses, o Manchester United contratou o defensor por 80 milhões de libras (R$ 400 milhões).

No Tottenham, além de voltar a vencer, Mourinho precisa acabar com a imagem de que se tornou um técnico com prazo de validade cada vez menor. O último emprego de que saiu por vontade própria foi a Internazionale (ITA), em 2010.

No Real Madrid, nas duas passagens pelo Chelsea (onde se autoproclamou "o especial") e no Manchester United, começou bem e depois implodiu.

Sob o comando de Pochettino, o Tottenham voltou a ser uma força do futebol britânico. Chegou à final da última Champions League e brigou por outros títulos. Esteve perto, mas não ganhou nenhum. A equipe não vence a liga nacional desde 1961. A última conquista europeia foi a antiga Copa da Uefa (atual Liga Europa), em 1984. O jejum começou em 2008, quando levantou o troféu da Copa da Liga.

Mourinho parece estar à vontade em suas primeiras semanas do retorno a Londres. É a cidade em que se habituou a viver e onde seus filhos estudam.

Uma das reclamações sobre sua passagem pelo Manchester United foi que se recusou a alugar uma casa. Passou 895 dias morando em suíte no luxuoso The Lowry Hotel, um dos mais caros da região, às custas do clube. Quando foi embora, a conta ficou no equivalente a R$ 2,5 milhões.

Mesmo diante das perguntas mais agressivas das entrevistas, ele tem se saído como um comediante de stand up. Com respostas curtas, de uma linha e engraçadas.

Ele nem sequer vacilou quando questionado se o elenco do Tottenham ainda sentia o baque por ter perdido a decisão do principal torneio europeu. "Não sei. Eu nunca perdi uma final de Champions League", devolveu.

Mourinho foi campeão em 2004, com o Porto (POR) e em 2010, com a Internazionale.

Também deu uma alfinetada no eterno rival Pep Guardiola ao ser perguntado sobre o que disse aos jogadores no intervalo do jogo contra o Olympiacos (GRE), na última terça: "Você vai ter de esperar alguns meses e comprar o filme da Amazon".

Quando ele estava no United, o serviço de streaming produziu série sobre a temporada do Manchester City, comandado por Guardiola, em que o português aparecia como vilão, o contraponto ao futebol bonito e ofensivo do espanhol.

O que continua imutável é seu gosto por chamar a atenção para si. Fez questão de cumprimentar e abraçar o gandula Callum Hynes, 15, que entregou rapidamente a bola para a cobrança de um lateral dos Spurs diante do time grego. Na sequência do lance, saiu o gol de empate da sua equipe --o jogo acabou 4 a 2.

"Eu gosto de gandulas inteligentes, como eu fui. Eu fui um gandula brilhante quando era garoto. E esse menino hoje foi brilhante. Ele lê o jogo, o entende e fez uma assistência importante", elogiou.

Hynes foi convidado para para almoçar com o elenco neste sábado, antes da partida no New Tottenham Football Stadium.

A equipe está em quinto lugar na tabela da Premier League, a 20 pontos do líder Liverpool. Entrar na disputa pelo título nesta temporada é praticamente impossível. Mas nada que preocupe José Mourinho.

Ele não perdeu o rebolado ao ser lembrado do juramento feito quando era técnico do Chelsea, de que jamais dirigiria o rival Tottenham. Então, o que mudou? "O Chelsea me demitiu."

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