Após 33 anos nas drogas e descobrir HIV, atleta do Vasco 'renasce' no esporte

Leonardo Damico
LANCE!

"O esporte é o maior transformador de vida do ser humano". Essa é a frase usada por Salomão Petra Bittencourt para definir sua própria trajetória até aqui. O amazonense de 54 anos superou um período de mais de três décadas de vício em drogas e a descoberta de HIV, para se tornar um atleta de alto rendimento. Neste domingo, após participar de grandes provas, Salomão vai realizar o maior desafio da carreira até aqui e disputará o Iron Man 2019, em Florianópolis. O LANCE! conversou com o esportista que contou sua história.

Infância no Rio e primeiro contato com as drogas
Nascido no Amazonas, Salomão veio para o Rio de Janeiro ainda bebê junto com o pai, e aos 9 anos de idade, começou a praticar esportes aquáticos no Vasco com os irmãos. Com o tempo, ele começou a competir pelo cruz-maltino, até que uma rejeição mudou a sua vida. Salomão fez um teste para seleção de profissionais de saltos ornamentais no clube carioca e foi reprovado.

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- Com 14 anos, receber aquele 'não' foi muito complicado. Eu era muito novo, não tinha muito suporte, um acompanhamento de alguém para fazer uma triagem para outro esporte. Como uma criança, entendi que estava tudo acabado pra mim, me senti rejeitado. Então comecei a andar com alguns jovens mais velhos que não me fizeram muito bem - comentou o amazonense.

Na adolescência, se juntando a esses jovens mais velhos citados, Salomão experimentou maconha e bebida alcoólica pela primeira vez. À medida que o tempo passava, começou a usar drogas mais pesadas como cocaína e injetáveis. Morador da Zona Norte do Rio, ele largou os estudos no ensino médio e começou a apresentar problemas de comportamento causados pelos entorpecentes.

- Experimentei a maconha pela primeira vez, andava com os 'descolados' e tinha uma falsa sensação de poder. Com o tempo fui me tornando um mau filho, deixei os estudos de lado e fui aos poucos me desvinculando da sociedade. Eu criei uma realidade na minha cabeça que achava que estava certa e me fiz acreditar nela por 33 anos da minha vida - disse.

As três décadas de vício e a descoberta do HIV
Nos 33 anos de consumo de drogas, Salomão não conseguiu manter um emprego fixo e perdeu o amor próprio, deixando até de fazer higiene pessoal. No final dos anos 90, quando ia retirar um cisto sebáceo da perna, um exame diagnosticou o amazonense com HIV. Depois da notícia, ele ficou ainda mais desmotivado com a vida e aumentou a dose das drogas. Salomão afirmou que chegou até a fazer parte do tráfico para poder se drogar.

- Com o passar dos anos, fui perdendo o desejo de crescimento, abandonei o ensino médio e potencializei alguns defeitos de caráter. Cheguei a um nível de falta de amor próprio, andava sujo, mal vestido, não cortava o cabelo e não fazia barba. Me sujeitei a coisas degradantes como fazer o 'avião' no tráfico, só para poder comprar as drogas - disse ele, que completou dizendo que chegou a pensar em suicídio.

- Quando eu recebi a notícia do HIV, agi como se fosse minha sentença de morte. Comecei a usar mais e mais, achando que ia dar logo um ponto final na minha vida. Cogitei tentar suicídio, mas não tive coragem. Não conseguia me manter em um emprego fixo, destruí dois casamentos e perdi o contato com o meu filho, o que me deixou mais compulsivo e obsessivo pelas drogas - revelou ao L!

Retomada de vida através do esporte aos 47 anos
Já nos anos 2000, Salomão virou taxista e continuou com o uso abusivo de drogas até 2011. Neste ano, uma médica do motorista disse à ele que se mantivesse o vício, os medicamentos para o tratamento do HIV não iriam surtir mais efeito. Pouco tempo depois da consulta e sofrendo com as agoniantes dores físicas e psicológicas, Salomão decidiu colocar um ponto final nesse capítulo de sua vida.

- Às vezes, em casa, sozinho, me escondia em baixo da cama achando que a polícia ia me pegar, que alguém iria me matar. Tinha perdido o controle total da minha vida. E finalmente, aos 47 anos, eu decidi que queria parar de sofrer. Entrei para o CEAD (Conselho Estadual Antidrogas) e para o Narcóticos Anônimos e nesses lugares, com o devido acolhimento e acompanhamento, comecei a mudar de vida - falou.

No processo de reabilitação, o amazonense começou a fazer caminhadas e ainda em 2011 voltou para as piscinas do Vasco para resgatar a história mal acabada de sua infância. Salomão retomou o condicionamento através da natação, disputou competições pelo clube e fez sua primeira prova de longa distância em 2011, quando realizou a Travessia dos Fortes, de Copacabana ao Leme.

No entanto, a crise de falta de água no Vasco em 2012, afastou o motorista das piscinas e ele teve uma recaída às drogas. Mas no mesmo ano, um amigo próximo o levou para continuar os treinamentos no Tijuca Tênis Clube, na Zona Norte do Rio, onde ele se recuperou novamente. Também em 2012, ele conheceu sua atual esposa Lucimar Souza, que o acompanha em todas as provas desde então.

- A tríade casa, grupos e esporte salvou minha vida. Eu sempre fui um atleta, mas minha mente ficou parada em uma esquina durante 33 anos. Caminhando e nadando no Vasco, melhorei meu condicionamento físico e botei como objetivo pessoal atravessar o Canal da Mancha. Eu costumo dizer que essa meta é a que me faz continuar praticando ao longo de todos esses anos - contou.

Provas realizadas e criação do instituto filantrópico
Visando o objetivo maior de sua carreira, que é atravessar o Canal da Mancha, o hoje motorista de aplicativos sempre testou seus limites e já fez inúmeras provas de alto rendimento: Rei e Rainha do Mar (2012), Circuito de Águas Abertas (2013), Campeonato Brasileiro de Maratona Aquática (2014), Travessia 14 Bis (2014), Aquatlon (2016), Ultra Trail Run, na Argentina (2018), além de outras diversas provas.

Em 2013, após já ter participado de algumas grandes provas e conquistar algumas medalhas nas piscinas, Salomão começou a ganhar popularidade. Ao conhecer a história do amazonense, pessoas o procuravam para pedir ajuda e conselhos para deixar os vícios. Se sentindo na responsabilidade de fazer algo pela sociedade, o nadador decidiu fundar o Instituto Renascer das Águas, que tem como objetivo dar oportunidades a dependentes químicos, soropositivos e outras pessoas a mudar de vida através do esporte.

- No Tijuca, eu comecei a me aventurar em provas mais ousadas e cheguei até a disputar uma prova internacional. Mesmo com os bons resultados, eu nunca procurei o pódio, queria apenas me superar cada vez mais. Fui ficando conhecido e muita gente me procurou pedindo ajuda, queriam se espelhar em mim, então daí surgiu a ideia do instituto 'Renascer das Águas' - comentou o atleta de 54 anos.

Em 2018, voltou ao Vasco, onde com o apoio do clube e do vice-presidente de esportes aquáticos do cruz-maltino, Walther Ramos, conseguiu se inscrever para o Iron Man 2019. O evento será o mais desafiador da carreira de atleta de Salomão até aqui, onde ele terá de percorrer 3.8 km de natação, 180.2 km de ciclismo e 42.2 km de corrida.

- Estou preparado para a prova. Hoje eu me sinto uma pessoa auto-confiante e cheia de esperança. Melhorei como ser humano, estou muito bem com a minha esposa e reatei as relações com a maioria dos familiares. Hoje eu só procuro o necessário para ter uma boa qualidade de vida e quero encontrar os novos Salomões para transformar a vida deles também. O esporte é o maior transformador de vida e resgate do ser humano - finalizou.

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