Ao L!, André Mazzuco avalia o ano de 2019 do Vasco e projeta o de 2020

Felippe Rocha e Luiza Sá
LANCE!
André Mazzuco entende que, em 2020, o Vasco dará mais um passo rumo à reconstrução (Foto: Felippe Rocha)
André Mazzuco entende que, em 2020, o Vasco dará mais um passo rumo à reconstrução (Foto: Felippe Rocha)


O ano de 2019 foi o primeiro de André Mazzuco como diretor executivo de futebol de um clube da dimensão do Vasco. No clube desde junho, coube a ele apagar incêndios junto a um grupo que viveu diferentes tipos de problemas. Contratações foram poucas, até agora. E mesmo ciente de que as coisas devem ser ligeiramente melhores no aspecto financeiro, o dirigente projeta evolução na equipe cruz-maltina. Poucas horas antes de Vanderlei Luxemburgo surpreender e definir que não continuaria no Cruz-Maltino, o dirigente recebeu a reportagem do LANCE! em São Januário e fez, além de um balanço da temporada que acabou, uma análise do que vem por aí.

- O torcedor pode esperar muito trabalho. Buscar as melhores soluções para o clube. O intuito é sempre ter um time competitivo dentro das limitações. Acho que é um trabalho que está sendo feito por todos aqui. Estamos buscando dar continuidade ao processo de recuperação. O Vasco não passa por momentos fáceis, então precisamos estar conscientes disso. Ao mesmo tempo, o futebol é o carro-chefe. Temos um calendário recheado e precisamos estar atentos e criar coisas boas - afirmou.

Qual avaliação que você faz do ano do Vasco?

Vejo um cenário que era muito claro: um ano de dificuldades. Quando terminou, em 2018, foi difícil, escapando do rebaixamento na última rodada, entrou em 2019 com uma expectativa melhor e começou - eu ainda não estava aqui - no Brasileiro conturbado, apesar da conquista (da Taça Guanabara), houve insucessos que culminaram com a troca de comando (de Alberto Valentim para Vanderlei Luxemburgo). Ficou um período com técnico interino (Marcos Valadares, então treinador do time de juniores) e a chegada do Vanderlei em meio ao cenário já estabelecido de dificuldades. Quando eu cheguei, a primeira pergunta foi do que eu iria fazer, quem trazer e eu respondi na época que a solução não era trazer, mas, sim, equilibrar o ambiente porque estava tudo virado. Mudança de treinador, problema financeiro, crise técnica, Vasco em último - quando o Vanderlei chegou, o Vasco estava com um ponto; quando eu cheguei, estava com três, mas ainda em último. Era crise instaurada. Precisava criar um ambiente um pouco mais sadio para que as coisas se encaixassem e acontecessem. E uma das premissas foi ser sempre transparente. Ninguém deixou de saber que tivemos problemas financeiros, carências no elenco, dificuldades. Isso foi feito, algumas recolocações foram feitas. Saíram alguns jogadores que não vinham sendo utilizados, outros chegaram. Houve uma contribuição grande do clube, ajuste técnico de ambiente e valorizo a postura dos atletas na temporada. Eles entenderam, compraram a ideia para que pudéssemos partir para as metas estabelecidas.





E quais eram essas metas?

A primeira era livrar o time do rebaixamento; a segunda era buscar algo melhor, no caso, a Sul-Americana, e tínhamos como terceira meta ficar, pelo menos, em décimo lugar, até porque, financeiramente, traria mais benefícios. E essa nós não alcançamos. Ficamos em 12º lugar. Para o ano foi um alento, mas, como gestão, foi um objetivo não atingido. Mas que não apaga o que foi feito num ano muito difícil do clube. Ano de recuperação. Sabemos que são passos lentos, muitas dívidas, como outros clubes. O presidente (Alexandre Campello), hoje, capitaneia um plano de recuperação muito claro para o clube. O Vasco vem buscando alternativas para tornar o clube melhor e o ápice da temporada foi a adesão dos sócios. Um fenômeno que acho que foi um elemento para mostrar a força do torcedor. O torcedor é um patrimônio, e que faz acontecer. Está sempre ansioso por coisas grandes, títulos, e que não são a nossa condição atual. Estamos buscando essa recuperação. Mas as coisas no Vasco devem ser feitas para o clube ter sua identidade, independentemente dos profissionais que aqui estão. O clube precisa criar situações para que se diga: legal, o legado deixado está sendo positivo para o clube. Às vezes, os clubes são muito dependentes das pessoas, essa que é a verdade. Sai um cara, fica todo mundo desesperado. É o meu perfil e das pessoas daqui se envolverem com o clube. À medida que um saia, vai poder ser dada continuidade.

O Alberto Valentim, treinador até o Estadual, falava que sempre se falava de rebaixamento do Vasco, mesmo antes do início do Brasileiro. Isso atrapalha mesmo?

A gente viveu isso, e com razão. Ao mesmo tempo em que as pessoas estão machucadas pelo histórico recente. É natural. O momento do clube foi difícil no ano passado (2018), foi muito difícil esse ano (2019) e vai ser difícil ainda, não é um processo da noite para o dia. Isso não nos tira o empenho de fazer o melhor. Estamos preparados, o torcedor do Vasco é do clube. É muito comum que torcedores de outros clubes, quando o time está bem, encherem o estádio, e quando o time está mal, três mil irem. O Vasco é gigante, temos consciência, como gestores, de buscar as melhores opções. talvez não sejam as melhores dentro da expectativa das pessoas, mas faz parte do processo. Futebol é isso: pressão constante, e tem que saber lidar com ela.

Você vê alguma falha de planejamento do Vasco nesta temporada, seja desde que você chegou ou antes? Alguns jogadores que renovaram acabaram saindo pouco tempo depois.

Sempre vai acontecer de terminar a temporada dizendo que poderia ser diferente. No futebol, está na literatura: 50% das variáveis você controla, 50% são ao acaso. É um esporte de muitas variáveis abertas, e foi um ano com muitos erros de arbitragem. Vários e vários fatores. Sou sempre dessa linha. Nunca vou fazer algo para não dar certo. Às vezes vem a crítica mais simples: "Jogador que não deu certo". É difícil fazer essa análise. O cara tem as variáveis que vão te atender, mas não atendem por uma série de fatores. Cheguei em junho. O que foi possível, conseguimos. Não é sucesso, estamos brigando. Cumprimos nosso objetivo que era livrar o Vasco (da queda), sem dinheiro, com uma condição apertada. Dentro do que pudemos fazer, ok. Mas dizer que isso é o que o Vasco anseia, não. o Vasco precisa sempre pensar grande, independentemente de quem vai estar aqui. mas isso é um processo, não muda da noite para o dia. Mas o que falo de planejamento é que, dentro da nossa obrigação, foi tudo muito bem cumprido.






O número de sócios, com a nova campanha, além do simbolismo, gerou uma garantia de receita de milhões. O presidente Alexandre Campello falou que seria investido no departamento de futebol. Mas vai se dar este investimento?

Aumenta a responsabilidade. A torcida deu uma resposta muito bonita de suporte ao clube. Compraram a ideia de ajudar o Vasco. Não vai permear uma mudança de planejamento, mas é uma resposta até com relação à nossa responsabilidade. Só entendemos e esperamos que eles andem ao nosso lado. Percebemos esse ano um entendimento da situação do clube, talvez por isso provocou a mobilização. Claro que vai ajudar, quem não quer jogar em um clube com 180 mil sócios? Isso ajuda. Não resolve os problemas maiores que estamos buscando solucionar. É uma conta difícil de fazer. Não é só o salário de mês do futebol que existe no clube. Poder jogar isso para o futebol significa ter mais responsabilidade financeira e não que poderemos chegar e torrar em alguma coisa. Não temos como fazer isso. Vai contribuir sim para passarmos um ano com mais equilíbrio. O que aconteceu no Vasco esse ano é fora do comum, vou levar para a vida. O que os atletas fizeram, a comissão técnica, de comprar a ideia de segurar a bronca assim. Não é fácil. Em todos os outros clubes estourou algo. Mas aqui não, e não é porque o Vasco blindou, mas porque entendemos o momento e falamos que não podia afetar o que precisamos dar ao clube. Não é sempre que dá para ajustar. A ideia é utilizar isso no futebol para a conta fechar. Vai para o aumento da folha, ajuste, equilíbrio. A ideia é não ter mais atrasos.


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