Ao EXTRA, Susana Naspolini refletiu sobre viver 'todo dia como se fosse o último' e a morte: 'Vou encontrar meu pai e meu marido'

Durante sua vida, a repórter Susana Naspolini, que morreu nesta terça-feira, 25 de outubro, aos 49 anos, deu diversas entrevistas ao EXTRA, sempre compartilhando e agradecendo pelas reportagens do jornal em suas redes sociais. Nos lançamentos de seus livros, nas licenças para cuidar da saúde, no retorno ao trabalho... A jornalista da TV Globo sempre tinha uma palavra inspiradora para dizer sobre os percalços que encontrou na vida.

Na última entrevista que deu ao EXTRA, no lançamento do livro "Terapia com Deus", em setembro de 2021, a repórter disse que a morte de seu pai, Fúlvio, em maio daquele ano, foi a maior dor que já sentiu. A perda aconteceu justamente no processo de escrita da obra. Por conta da perda, ela refletiu muito sobre a morte.

— Deus não nos chama porque estamos com 90 anos, mas porque chegou a nossa hora. E Ele é tão sábio que a gente nasce sem saber qual é o nosso dia. Por isso, a gente tem que viver todo dia como se fosse o último. A maioria empurra o assunto morte para baixo do tapete. Mas ter consciência da morte não deve gerar medo, e sim gratidão por cada dia vivido. Além de uma vontade de sermos melhores como pessoas, para partirmos bem quando chegar a nossa vez. Vou encontrar meu pai, meu marido (o jornalista Maurício Torres, que morreu em 2014, aos 43 anos) — falou ela.

Em 2019, a jornalista participou de um ensaio da revista dominical do EXTRA, a Canal Extra, sobre o outubro rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama e de útero. Por todo o seu histórico de dramas pessoais — incluindo a morte precoce do marido, o apresentador e locutor esportivo Maurício Torres, aos 43 anos, em 2014 —, somado às suas vitórias e ao seu talento no jornalismo comunitário, ao ajudar a resolver problemas cotidianos da população do Rio, Susana se tornou uma espécie de heroína real. Ela contou naquela entrevista que, apesar do desespero inicial ao receber diagnósticos de câncer, nunca ficou tentando achar um culpado para tudo o que lhe aconteceu:

— Tive câncer porque sou humana, tenho um monte de fragilidades, limitações físicas. Eu não fiz nada de errado para merecer. Nunca passou pela minha cabeça que foi castigo de Deus. E não acredito que raiva e mágoa causem câncer, isso não explicaria o meu caso. Não sou uma pessoa raivosa, rancorosa.

Como indica o título de seu segundo e último livro, "Terapia com Deus", Susana contou que sua terapia do dia a dia era realmente ligada a sua religiosidade.

— Fiz (terapia) durante um tempo, mas não gostei. A minha (terapia) é ir à missa, conversar com o padre... Eu rezo muito, sou uma pessoa de fé. Costumo dizer que o câncer é a minha cruz. Todo mundo tem a sua nesta vida. Sentar e chorar não adianta. Ser feliz é uma escolha diária, daí o título do livro. Penso sempre assim: vai dar certo — contou ela.

Susana mostrou em seu último post no Instagram, em 28 de setembro, uma foto em que estava no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. A jornalista da Rede Globo tinha ido ao estado para fazer um exame.

"Depois de encarar o frio de SP (fui fazer exame!), uma parada pra agradecer e pedir no santuário da nossa mãezinha, Santuário da Nossa Senhora Aparecida!!", escreveu ela, postando uma foto ao lado da mãe, Maria, e um amigo que as acompanhava.

Susana enfrentou diversos problemas de saúde ao longo da vida. Aos 18 anos, teve o primeiro diagnóstico de câncer, um linfoma de Hodgkin. Aos 37, descobriu um tumor maligno na mama e, logo em seguida, um câncer na tireoide. Em 2016, a catarinense enfrentou outro tumor de mama. Há dois anos, soube que estava com câncer na bacia e começou um novo tratamento. Este primeiro, via oral.

— Nos meus diagnósticos de câncer (linfoma, tireoide, duas vezes na mama e mais recentemente na bacia), meu primeiro impulso foi chorar e me desesperar. Mas refleti que estou tratando o câncer desde os 18 anos. Hoje tenho 48. Se lá aos 18 eu tivesse me desesperado, como teria sido? — disse Susana ao EXTRA, em setembro de 2021.

Em março de 2022, Susana contou no Instagram que precisaria fazer quimioterapia venosa, porque a doença persistia. Na época, ela falou:

"Não era a notícia que eu queria estar dando. Queria dizer: 'Olha, acabou o tratamento, não tem mais nada', mas ainda não foi dessa vez. Mas esse dia vai chegar. Tenho muita certeza disso".

Ela ainda desabafou: "Eu estou meio triste ainda porque não contava com essa rasteira. Queria seguir meu trabalho, mas não é como a gente quer. Estou dando essa parada obrigatória".

No fim de agosto de 2022, por conta da queda intensa do cabelo em decorrência do tratamento, a jornalista decidiu raspar a cabeça e compartilhou o momento em suas redes sociais. Por causa do tratamento agressivo, Susana passou por algumas internações nos últimos tempos.


Em setembro deste ano, a jornalista fez uma postagem nas redes sociais após uma das internações. Ela contou que havia recebido alta após ter ficado internada por conta de uma infecção. Na ocasião, ela publicou:

"Os braços abertos são para abraçar os técnicos em enfermagem, enfermeiros, médicos, meninas da copa e da limpeza, por todo carinho q me deram!! Com certeza ajudou muito no tratamento! Também quero abraçar a Pastoral de Saúde do hospital que todos os dias me levou o principal alimento e principal remédio: a Eucaristia!! E claro, os braços abertos são para dar um abraço bemm apertado em todos vocês que torceram pela minha alta!! Obrigada mesmo! Agora vamos em frente, juntos…! Obrigada meu Deus, por tudo!!!".

Ao longo de seus tratamentos, Susana sempre compartilhou o diagnóstico com os fãs e, muito religiosa, pedia por orações. Ela explicou em entrevista o motivo:

— Imediatamente quando posto, começa uma onda de energia. Isso dá força, dá um gás. Falar com as pessoas é uma forma de desmitificar a doença. Tudo que é compartilhado na vida fica melhor. Inclusive essas histórias. Porque, quando a gente conta, a gente está se ouvindo. Aprendemos com os outros e damos um sentido para os sofrimentos que passamos. Se o meu sofrimento servir pra ajudar alguém que está vivendo isso agora, eu já entendi por que passei por aquilo — afirmou ela.

A jornalista disse que não se considerava uma pessoa forte e que conseguia enfrentar os diversos diagnósticos da doença por conta de sua fé:

— Eu não sou forte coisa nenhuma. Sozinha eu já teria ficado no meio do caminho há muito tempo. Tenho plena convicção de que, se estou tocando a vida, trabalhando, cuidando da minha filha e sendo feliz, é porque Deus me dá essa força.

Além de jornalista, autora de livros

A jornalista foi autora de dois livros. Antes de "Terapia com Deus", de 2021, lançou "Eu escolho ser feliz", de 2019, uma autobiografia que enfatizava sua luta contra o câncer e o otimismo que ela dizia ser seu motor de superação para seguir em frente.

Susana foi casada com o narrador e apresentador esportivo Maurício Torres. Em maio de 2014, a jornalista sofreu a perda do marido, que morreu aos 43 anos de falência múltipla de órgãos decorrente de um quadro infeccioso. Juntos, os dois tiveram uma única filha, Julia, que hoje tem16 anos.

Natural de Criciúma, Santa Catarina, Susana Dal Farra Naspolini Torres nasceu no dia 20 de dezembro de 1972. Filha da professora Maria Dal Farra Naspolini e de Fúlvio Naspolini, sócio de uma transportadora de cargas, Susana sempre sonhou ser repórter.

Ela começou a carreira de jornalista em emissoras do estado em que nasceu. No Rio de Janeiro, foi repórter da GloboNews e dos telejornais locais da TV Globo, onde passou a conduzir o quadro de jornalismo comunitário "RJ Móvel", do "RJTV". Lá, ela se popularizou pela abordagem popular na denúncia dos problemas locais em bairros do Rio e da Região Metropolitana do Rio, sempre com bom humor.