Ano olímpico e eleitoral acirra disputa por poder dentro do COB

DANIEL E. DE CASTRO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Bastaram nove dias para que 2020 se mostrasse um ano fundamental na vida do Comitê Olímpico do Brasil (COB) não apenas pelos Jogos de Tóquio, de 24 de julho a 9 de agosto, mas também pela corrida eleitoral da entidade, marcada para o fim de novembro.

Na noite desta quinta-feira (9), o advogado Alberto Murray Neto apresentou seu pedido de afastamento definitivo do cargo de presidente do conselho de ética do COB.

Neto de Sylvio de Magalhães Padilha (1909 - 2002), que presidiu o comitê por 27 anos, Murray está rompido com o presidente da entidade, Paulo Wanderley Teixeira.

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"Meu desapontamento com alguns atos recentes de sua gestão, sobre os quais me manifestei publicamente, são as razões para a minha renúncia", escreveu o advogado no documento endereçado a Paulo Wanderley.

O estopim público do desentendimento entre os dirigentes ocorreu no fim de novembro, quando o presidente do COB convocou uma assembleia geral extraordinária com o objetivo de alterar cerca de 50 pontos do estatuto da entidade.

Algumas delas, que tirariam poderes do conselho de ética, acabaram barradas no colegiado de confederações e atletas.

Outras porém, foram aprovadas, como a obrigatoriedade de afastamento de cargos no COB 120 dias antes dos Jogos Olímpicos para ser elegível à presidência —a medida não vale para quem concorre à reeleição, o que deverá ser o caso de Paulo Wanderley.

A saída de Murray coincide com seu desejo de se lançar como candidato de oposição e o permite colocar a campanha na rua sem constrangimentos éticos ou impedimentos legais.

Apesar de ainda não se colocar abertamente como postulante, ele vem afirmando a pessoas do meio que já recebeu vários apoios de integrantes do colégio eleitoral do comitê.

No fim de 2017, os atletas e ex-atletas tiveram sua participação ampliada de 1 para 12 membros votantes de um total de 49 do colegiado (também o compõem os 35 presidentes de confederações e os dois representantes brasileiros do Comitê Olímpico Internacional).

A expectativa do bloco oposicionista em formação é obter o apoio de todos os representantes dos atletas e mais algumas confederações para chegar à maioria.

Logo após a polêmica votação de novembro, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Rugby Sami Arap Sobrinho, também membro do conselho de ética, já havia manifestado interesse em concorrer ao cargo como "candidato independente, nem de situação nem de oposição".

Resta saber como ele e Murray acomodarão seus interesses para tentar fazer frente a Paulo Wanderley.

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Judô foi eleito vice-presidente na chapa de Carlos Arthur Nuzman em 2016. Assumiu o comando do COB em outubro de 2017, após prisão e renúncia do seu antecessor, acusado de participar de um esquema de compra de votos para que o Rio fosse escolhido sede da Olimpíada.

Seu discurso de rompimento com as práticas autoritárias da era Nuzman foi posto em xeque após a tentativa abrupta de mudança de estatuto. Atualmente, Paulo Wanderley também enfrenta investigações internas e externas sobre contratos da entidade na área de TI.

Ele tem a seu favor a máquina administrativa funcionando em ano olímpico. Caberá ao COB repassar R$ 120 milhões da verba oriunda das loterias federais às confederações em 2020, sem contar investimentos diretos feitos pelo comitê nas modalidades.

Em meio a esse cenário conturbado, há também potenciais conflitos envolvendo a área médica do COB. Uma contratação de serviços médicos sem concorrência está sendo contestada pelo comitê de conformidade, vinculado ao conselho de ética.

Tudo isso já permite imaginar que a Olimpíada de Tóquio, a quatro meses das eleições, e o período de preparação para ela irão ocorrer sob tiroteio político.

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