Anitta e Léo Dias nos ajudaram a entender melhor o machismo gay

A briga de Anitta e Léo Dias nos levou a pensar sobre o machismo gay (Foto: Instagram / Reprodução)
A briga de Anitta e Léo Dias nos levou a pensar sobre o machismo gay (Foto: Instagram / Reprodução)

Quem está na internet com certeza ama entender um barraco, mas a briga entre Anitta e Leo Dias nos fez pensar em outra coisa que áudios de WhatsApp e fofocas entre celebridades: o machismo gay. 

Já falamos muitas vezes sobre as diversas facetas do machismo por aqui, mas é importante lembrar que não só os homens héteros (ou as próprias mulheres) exercem o machismo no dia a dia. 

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"Ser machista não tem nada a ver com a orientação sexual. O que fala mais alto, nesses casos, é a identidade de gênero, ou seja, ser homem cis", explica a advogada Isabela Del Monde, co-fundadora da Rede Feminista de Juristas. 

Aliás, o advogado e militante dos direitos humanos Renan Quinalha conta como a questão de gênero é importante para entender, inclusive, a homofobia - afinal, a base dos dois é comum. "As relações de gênero organizam também o universo da orientação sexual e da identidade de gênero", diz. 

"Homofobia é uma violência contra os homens que se assemelham às mulheres", continua. "Por desejarem outro homens, eles se colocam num papel feminino, muitas vezes são muito afeminados, se colocam como mulheres, querem reproduzir modos de falar, de se vestir como mulheres, e tem uma violência, a homofobia, que coloca novamente a fronteira do gênero." E é isso, segundo ele, que torna o machismo gay tão forte. 

Essa visão, claro, tem sido passada de geração em geração. "O machismo pode ser entendido como as diferentes formas de domínio masculino sobre mulheres", diz a empreendedora e fundadora do Força Meninas, Déborah de Mari. "A Teoria da Aprendizagem Social, desenvolvida por Bandura (1997), nos diz que o machismo é aprendido durante a infância. Neste contexto, a mentalidade machista pode ser definida por duas características principais: agressividade e hipersexualidade."

Ou seja, são duas formas de conduta bem conhecidas por todos. De um lado, há o homem macho, que precisa exercer o seu domínio, é forte e não demonstra emoções ou sensibilidade. De outro, aquele que deve conquistar o máximo de mulheres possíveis, muitas vezes sem pedir licença. No geral, essas duas características aparecem de forma muito escancarada, também, em outros dois crimes, além da homofobia, e que são igualmente comuns: a violência doméstica (que pode também acontecer na relação mães e filhos ou netos e avós) e o abuso sexual de meninas e mulheres. 

Os efeitos do machismo gay

O machismo gay é, na verdade, mais um recorte de uma questão muito maior, claro, mas isso não significa que ele não tem um impacto no dia a dia. "Os homens gays podem ter condutas machistas, como desprezo à mulheres ou a partes do corpo de mulheres, desconsideração ao que é do feminino, ocupação de cargos de liderança, remuneração 30% maior que de suas colegas mulheres e todas as demais situações", conta Isabela. 

Para a advogada, um ponto essencial, falando especificamente da questão dos homens gays em relação às mulheres, é também a falta de aliança. "Sentimos falta de termos os homens gays, em geral, como aliados na luta contra o machismo e a violência contra a mulher", diz ela. 

Já para Déborah, isso também aparece de outra maneira, caracterizando uma inibição de potencialidades. Pode-se considerar, por exemplo, a ausência de meninas e mulheres que se interessam e seguem carreira nas áreas de exatas. 

"O impacto estrutural do machismo afeta meninas e mulheres praticamente em todas as áreas ao longo de praticamente toda a sua vida", diz ela.  

A naturalização da violência é outro ponto essencial de ser colocado aqui, afinal, em um país com índices altíssimos de violência contra a mulher e lgbtqfobia,  é preciso entender a origem e até onde essa visão se estende. "Essa ideologia de gênero, que define lugares sociais a partir da determinação do sexo biológico, é muito tóxica e cultiva relações de violência, naturaliza a violência contra as pessoas, causa uma série de traumas, de exclusões e de marginalizações", completa Renan

Para onde vamos daqui? 

O primeiro passo, de acordo com o advogado e militante, é trabalhar no campo da educação e da cultura. Desconstruir os paradigmas que geraram essa visão e normalizaram comportamentos violentos, tanto físicos quanto verbais, é essencial. "Precisamos caminhar num sentido de uma maior liberdade de experiências, de vivências, de uma outra ética no campo da sexualidade, que desde de que tenha consentimento dos envolvidos e não tenha prejuízo a terceiros não é algo que cabe ao estado regular e dispor. As pessoas podem viver livremente as suas vidas sem prestar contas disso", explica. 

Isabela complementa, dizendo que não há receita de bolo para isso, uma vez que as relações humanas têm muitas nuances, mas começar assumindo o óbvio é um bom primeiro passo. "Se você é homem, você é machista", diz ela. 

A partir daí, vale sempre incentivar comportamentos que não são comuns, mas se tornam cada vez mais urgentes de serem adotados: escutar ativamente as mulheres (quer estejam longe ou à sua volta), compreender os privilégios que a sua identidade de gênero trazem e o que você pode fazer com isso para mudar os seus cenários, e humanizar mulheres, tratando-as com o mesmo respeito e consideração que tratam os homens. 

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