Animada por combustível sustentável e Netflix, Volkswagen decide entrar na F1

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Volkswagen fez um amplo estudo e considerou uma série de fatores até, enfim, decidir entrar na F1. Após meses de especulações, foi confirmada a intenção da fabricante de competir no palco em que já estão Ferrari e Mercedes. A expectativa é de um anúncio nos próximos meses.

Em vídeo exibido a investidores, o CEO do grupo, Herbert Diess, evidenciou aspectos determinantes para a concretização do projeto que levará as marcas Audi e Porsche —pertencentes ao conglomerado alemão— ao grid do principal campeonato do automobilismo mundial a partir de 2026, ano em que a categoria passará por uma reformulação técnica.

Segundo o diretor, o avanço nas políticas de sustentabilidade da F1 e o crescimento em mercados como os Estados Unidos —país que terá três corridas a partir de 2023— e a Ásia foram cruciais para convencer o conselho da Volkswagen a aprovar o projeto como um movimento estratégico.

Foi observado ainda um crescente apelo da categoria junto ao público jovem, algo turbinado por uma série na Netflix com bastidores do Mundial.

"A F1 está se desenvolvendo de uma maneira muito positiva em todo o mundo", disse Diess. "O marketing que eles estão fazendo junto com a Netflix ajudou muito no crescimento nos Estados Unidos. A categoria também cresce na Ásia e entre as pessoas mais jovens. Se você olha para os grandes eventos esportivos do mundo, em termos de automobilismo, só existe a F1", acrescentou.

Uma pesquisa global divulgada há seis meses pela Nielsen apontou que 34% da base atual de torcedores da categoria passou a acompanhar o campeonato a partir das últimas cinco temporadas. De acordo com o estudo, houve um crescimento de 20% em alguns países importantes, como Estados Unidos, China e Brasil. E cerca de 77% desses novos fãs pertencem à faixa etária de 16 a 35 anos.

De acordo com o executivo da Volkswagen, se a fabricante não aproveitar a janela de 2026 para entrar na F1, uma nova oportunidade de ingressar na categoria de forma competitiva só deverá ocorrer em mais de uma década, uma vez que o desenvolvimento de novos motores leva, em média, de três a quatro anos.

"A decisão tem de ser tomada agora ou então será preciso esperar uns dez anos. Nossas marcas premium entendem que a F1 será muito sustentável. Além disso, os motores de 2026 terão combustível sintético e um nível muito maior de eletrificação. Então, eles entendem que será um espetáculo muito maior em 2026, 2028. Maior nos Estados Unidos. Maior na China", explicou o CEO.

A próxima geração de carros da F1 terá 100% dos combustíveis vindos de fontes renováveis. Atualmente, o percentual é de 10%. Os motores vão manter a tecnologia V6 turbo, mas o MGU-H, bateria responsável por gerar a energia elétrica dos veículos a partir do calor do escapamento dos carros, será extinto, sendo compensado pelo MGU-K, sistema semelhante ao usado pela indústria nos carros híbridos e elétricos.

Audi e Porsche devem trilhar caminhos distintos. Enquanto a primeira pretende ter uma equipe própria e negocia a compra de uma escuderia já presente no grid, a segunda deve firmar uma parceria com a Red Bull para desenvolver os motores do time do atual campeão, Max Verstappen —algo semelhante ao acordo que a equipe tinha com a fabricante de motores japonesa Honda.

Seria o retorno da Porsche à F1 após uma ausência de mais de 30 anos. Sua última aparição foi em 1991, quando forneceu motores para a extinta equipe Footwork.

Atualmente, existem quatro fornecedoras de motores na categoria: Ferrari, Mercedes, Renault e Red Bull, que passou a desenvolver sua unidade de potência após o fim da parceria com a Honda.

Segundo a agência Reuters, a Audi estaria disposta a oferecer 500 milhões de euros (R$ 2,6 bilhões) para comprar a operação da equipe McLaren, oito vezes campeã de construtores da F1. A marca do grupo Volkswagen também teria feito consultas a Williams, Aston Martin e Alfa Romeo.

A entrada das novas marcas também aumentaria a lista de marcas icônicas comercias que já estiveram e ainda estão na F1, como Ferrari, McLaren, Renault, Mercedes, Alfa Romeo, Toyota, BMW, Honda, Jaguar, Porsche e Aston Martin.

A confirmação oficial das entradas da Audi e da Porsche na categoria provavelmente será anunciada em julho, durante o GP da Áustria.

As afirmações feitas pelo CEO da Volkswagen confirmam uma vitória política do CEO da F1, Stefano Domenicali. O italiano já trabalhou para o grupo alemão por quatro anos, num período em que ele comandou a Lamborghini, outra marca do conglomerado. O executivo já conhecia bem a política dos alemães e os obstáculos que precisaria superar.

E o fez com a ajuda dos qataris.

O QIA, fundo soberano do Qatar, é o terceiro maior proprietário de ações da Volkswagen, com o controle de 17% dos votos no conselho.

Em 2021, Domenicali obteve o apoio dos qataris em seu plano de atrair a fabricante alemã. Um passo importante na aproximação foi o fechamento de um contrato de dez anos para o Qatar entrar no calendário da F1, a partir de 2023, concretizando um desejo antigo do país.

A realização desse sonho foi antecipada no ano passado, com a pandemia de Covid-19 ainda em estágio crítico, o que fez alguns países abrirem mão de suas provas —casos de Canadá, China e Japão. A cidade de Lusail, ao norte de Doha, herdou uma das janelas abertas na programação.

Agora, com uma mãozinha dos qataris, a Volkswagen parece disposta a entrar de vez na F1.

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