A análise do Brasil na Copa América - Precisamos deixar de ver a Seleção como ‘8 ou 80’

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

Por Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout

No jogo que marcou a conquista do nono título sul-americano da seleção brasileira, o time comandado por Tite mostrou evolução em alguns aspectos do ataque mais posicional que vem apresentando, mas deixou claro que ainda precisa melhorar em muitos outros, entre eles a saída de bola e a interação entre os setores quando ataca. Mesmo sem ser brilhante, o Brasil mereceu bater o Peru por 3x1, e jogou com um a menos durante metade da 2ª etapa. O desempenho na Copa América 2019 passa longe de ser excelente, mas também não é péssimo. Algo compreensível em início de ciclo. O momento é de ponderação!

Arthur dá combate no meia Flores, da seleção peruana. Foto: CBF
Arthur dá combate no meia Flores, da seleção peruana. Foto: CBF

Tite repetiu a equipe que bateu a Argentina na semifinal. O 4-1-4-1 com Coutinho e Arthur mais à frente em relação a Casemiro. Gabriel Jesus e Everton pelos lados. Firmino na referência e Alex Sandro titular da lateral-esquerda. Ricardo Gareca também repetiu o time da fase anterior, mas com uma alteração de posicionamento. Flores lado direito e Carrillo pelo esquerdo, certamente por ser mais agudo e tentar explorar uma deficiência defensiva de Daniel Alves.

Como as equipes iniciaram em campo
Como as equipes iniciaram em campo

Após cinco minutos iniciais de pressão peruana na saída brasileira, nervosismo do time de Tite, e duas finalizações perigosas de Cueva e Tapia, a Seleção foi se tranquilizando e equilibrando as ações. Apresentou o mesmo modelo para atacar, um pouco mais posicional, e não tinha um ímpeto ofensivo tão forte. Mas marcava com muita intensidade a partir da intermediária de ataque. Isso forçava ligações diretas por parte do Peru, mas Thiago Silva e Marquinhos controlavam bem Guerrero. Casemiro ganhava a ‘’segunda bola’’ na frente da área.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Na primeira jogada mais aguda, o Brasil marcou. Daniel Alves, o principal articulador do time, fez belo lançamento para Gabriel Jesus realizar jogada individual em cima do frágil Trauco e cruzar na medida para Everton. Curioso é que o fato de os dois pontas estarem bem abertos na origem do lance, algo muito criticado nesta Copa América, foi determinante para o gol. Primeiro com Jesus recebendo, e depois com Everton, que se aproveitou da condição para fechar sem marcação na segunda trave.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A vantagem no placar deu tranquilidade ao Brasil, que passou a trabalhar mais a bola e continuou sem correr riscos atrás. Bloqueava a construção peruana e era agressivo na transição defensiva. Nesse embalo foram criadas duas belas jogadas ainda no 1º tempo. Coutinho e Firmino finalizaram após longas trocas de passe e boa ocupação de espaços.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Os peruanos, porém, não se entregaram. Tentavam jogar com aproximações entre Cueva, Flores, Yotun e Tapia por dentro. Carrillo ficava um pouco mais aberto pela esquerda. Utilizando-se desta proximidade pela faixa central, progrediram com uma bela troca de passes e tiveram um pênalti marcado após a bola bater acidentalmente no braço de Thiago Silva, aos 40’. Guerrero bateu três minutos depois e empatou.

A reação brasileira foi rápida. Firmino pressionou logo ao perder uma bola, roubou de Yotun, e Arthur ficou com ela. Arrancou pela intermediária até deixar Gabriel Jesus cara a cara. A finalização saiu precisa, no canto direito, vencendo Gallese No 2º tempo, Gareca voltou a trocar os lados de Flores e Carrillo, mas não surtiu muito efeito. Quem iniciou dando as cartas foi o Brasil. Buscando ter a posse e sendo agressivo. Phillipe Coutinho quase fez um golaço ao recebe de Jesus no bico direito da grande área.

Na sequência, em mais uma pressão pós-perda bem feita, Gabriel Jesus serviu Roberto Firmino, mas o atacante do Liverpool chutou mal. O camisa 20 ainda cabeceou com perigo aos 11’, após cruzamento de Alex Sandro. O Peru tentava novamente pressionar a saída de bola da seleção brasileira, mas perdeu intensidade na abordagem e automaticamente se espaçava. Arthur saía com tranquilidade desses movimentos. Casemiro e Dani Alves, além dos zagueiros, distribuíam com sabedoria o primeiro passe. Acabava sobrando espaço para Coutinho receber entre as linhas, e Everton levar Advíncula a loucura.

O jogo parecia controlado, mas além dos muitos erros técnicos no momento de definição das jogadas, um fator contribuiria para a mudança de cenário. Gabriel Jesus se envolveu em disputa ríspida de bola com Advíncula e levou o segundo cartão amarelo aos 25’. Flores e Trauco chegaram muito perto de empatar em chutes da entrada da área na sequência.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Tite sacou Firmino e colocou Richarlison, tentando dar mais vitalidade ao contra-ataque brasileiro. Éder Militão foi a campo no lugar de Coutinho, e Daniel Alves foi adiantado. Mexidas que esfriaram o ímpeto adversário. O Brasil soube também segurar a bola no ataque, enrolar os peruanos, e conseguiu um pênalti em grande jogada de Everton nos últimos minutos. Richarlison converteu a penalidade e foi comemorar com um Maracanã em festa.

Mas o que mudou depois da Copa?

Talvez a pergunta mais correta seja: o que mudou depois das Eliminatórias? Preocupado com as defesas mais fortes que enfrentaria na Copa do Mundo de 2018, Tite buscou fazer a seleção brasileira atacar de uma forma mais ‘’posicional’’ do que acontecia antes. Esse estilo consiste em atletas dispostos em posições pré-estabelecidas no campo e com movimentação mais restrita àquele setor. Diferente do que acontecia anteriormente, quando havia mais liberdade de trocas de posição e movimentação entre os homens de frente.

Esse modelo não é tão usual no futebol brasileiro, não está tão enraizado na formação de nossos atletas, e são raros os times daqui que atuam sob tal sistema. Logicamente há um tempo de adaptação e entendimento para que possa ser bem executado. Na Copa isso já apareceu. Quem não lembra das críticas a Willian? Muito se falava que ele não saía do lado direito do campo. Mas a “culpa’’ não era dele, ele obedecia a um posicionamento definido para obedecer ao sistema. Quem não lembra das críticas a Fágner ou Danilo? Eles não chegavam ao fundo porque não queriam! Mas sim obedeciam a função de atacar ‘’por dentro’’, como Daniel Alves faz muito bem.

Dani Alves é um dos jogadores mais habituados a um ataque mais ‘posicional’ deste grupo da Seleção Brasileira. Foto: CARL DE SOUZA/AFP/Getty Images
Dani Alves é um dos jogadores mais habituados a um ataque mais ‘posicional’ deste grupo da Seleção Brasileira. Foto: CARL DE SOUZA/AFP/Getty Images

Está errado jogar assim? Não! Não existe forma errada de jogar. Existe maneira bem ou mal executada. Existe tempo de adaptação e utilização das peças corretas para a função desejada. Exemplo: Everton se enquadra melhor num estilo de “ponta posicional’’ do que David Neres. Em suma, funciona mais preso ao lado esquerdo, abrindo o campo, e recebendo a bola para partir em direção a área no duelo individual. Neres, desde o Ajax, circula mais o campo e rende assim. A relação Daniel Alves/Fágner/Danilo também se enquadra nisso. A peça certa para a função exigida.

A Copa América serviu para, além das adaptações já citadas acima, um aprimoramento deste modelo de ataque. Talvez o único tempo, desde o fim das Eliminatórias, que o Brasil atuou no antigo sistema ofensivo, foi a 2ª etapa contra o México nas oitavas de final. Como raramente tem períodos maiores de treinamento, a assimilação geral é mais lenta. E a partir dela já podemos ver evoluções de comportamento com atletas como Gabriel Jesus, Phillipe Coutinho e Roberto Firmino, por exemplo. Se tecnicamente não fizeram uma excelente competição, entenderam melhor em termos de movimentação o papel que devem desempenhar nesse contexto.

Renovação

Cobrar renovação da Seleção é salutar e necessário. Nomes como Miranda, Fernandinho e Willian, por mais que sejam muito qualificados e tenham funcionado bem em determinado momento da campanha, poderiam de fato ter dado lugar a atletas com maior necessidade de minutos com o time de Tite. Algo que deve acontecer mais naturalmente a partir de agora. Mas deixar de ponderar os motivos que levaram o treinador a fazer isso é desconhecer o universo do futebol brasileiro.

Tite, nos últimos quatro ciclos, é o treinador que menos mexeu no grupo da última Copa do Mundo
Tite, nos últimos quatro ciclos, é o treinador que menos mexeu no grupo da última Copa do Mundo

Tite sabia que se não ganhasse a Copa América corria sério risco de demissão ou tornar o ambiente insustentável para a continuidade do trabalho. Apostou nos atletas de mais experiência e intimidade com o seu trabalho. Sentiu que o momento era de colocar o resultado acima de uma possível evolução do grupo, mas até que conseguiu um crescimento interessante de algumas peças com idade para chegar bem em 2022.

Conclusão

Tite celebra o título da Copa América 2019 (AP Photo/Leo Correa)
Tite celebra o título da Copa América 2019 (AP Photo/Leo Correa)

Qualquer pessoa que consegue pensar o futebol de forma racional, sem frivolidades e emoção exacerbada, sabe que o caminho mais indicado sempre foi a manutenção de Tite no comando do time. As críticas por um desempenho melhor são justas. Mais importante que essa constatação, porém, é contextualizar e saber cobrar, elevar o debate e a crítica de forma embasada.

Tite nunca se negou a falar sobre o jogo, busca explicar os porquês do desempenho. Por vezes pode simplificar o seu discurso, torná-lo mais acessível ao grande público, mas isso passa muito longe de justificar um pedido de demissão ou troca. Não há um técnico mais capacitado que ele atualmente no cenário nacional. E alcançar um futebol melhor neste ciclo passa pela continuidade do trabalho.

Veja outras análises táticas

Siga o Yahoo Esportes: Twitter | Instagram | Facebook | Spotify | iTunes

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos