Qual o balanço da entrevista de Sergio Moro ao 'Roda Viva'?

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Ministro da Justiça, Sergio Moro, participa do programa "Roda Viva", da TV Cultura (Foto: Reprodução/TV Cultura)
Ministro da Justiça, Sergio Moro, participa do programa "Roda Viva", da TV Cultura (Foto: Reprodução/TV Cultura)

Sergio Moro chegou Roda Viva como o ministro mais conhecido e mais popular do governo Bolsonaro. Dos 93% entrevistados em dezembro pelo Datafolha que conheciam o ex-juiz, 53% avaliavam seu trabalho como ótimo ou bom. Outros 21% achavam seu trabalho à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública como péssimo ou ruim e 23%, como regular.

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Pelas reações à entrevista ao longo da entrevista ao programa da TV Cultura, comandado pela primeira vez pela jornalista Vera Magalhães, é possível que o ministro tenha saído com os mesmos índices de aprovação - e de desaprovação.

Como já havia feito em depoimentos a deputados e senadores após a Vaza Jato, conjunto de mensagens trocadas entre o então magistrado e procuradores da força-tarefa da Lava Jato, Moro não recuou um milímetro nos argumentos tomados para referendar suas decisões como juiz. 

Ele se negou a chamar de manipulação a seleção do que divulgava e do que não divulgava à imprensa durante as investigações. E chamou de “bobageira” as revelações publicadas pelo site The Intercept Brasil, que não teve representante na entrevista.

A convicção com que defende atitudes como a divulgação de uma conversa interceptada entre o ex-presidente Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff, lembra a de políticos ensaboados toda vez que emparedados - sem que, a exemplo do chefe, altere o tom de voz. Como bom político.

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A estratégia é a mesma de sempre: quem vê defeitos ou abusos na operação está a favor de bandido, que supostamente se refastelam na suposta tentativa de desmerecer suas decisões ou duvidar da isenção de quem condenou um protagonista das últimas eleições e aceitou a trabalhar com seu adversário.

A claque nas redes acompanhou a estratégia.

Desta vez, porém, não foi só a sua atuação como juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba que estava sob questionamento, mas também sua atuação como ministro. 

O que, em muitos casos, significa responder pelo chefe, Jair Bolsonaro, aprovado por 30% dos eleitores, segundo o Datafolha.

Durante a entrevista, Moro ficou no meio fio entre se desvencilhar da impopularidade do chefe sem quebrar a hierarquia ou colocar em jogo seus objetivos traçados no momento em que aceitou trabalhar para um governo que já nascia sob o selo da polêmica e com pré-disposição à fritura.

Ao fim da entrevista, é possível dizer que o jogo terminou empatado: quem desaprova o ministro ganhou uma razão para chamá-lo de cínico ao vê-lo dizer que Bolsonaro está dando ampla liberdade à imprensa para fazer seu trabalho -- dias após o próprio presidente mandar uma jornalista calar a boca e dizer que jornalista era uma “raça” em extinção. Para estes, a declaração soou como um ato de submissão canina.

Quem o aprova, e não necessariamente concorda com as diatribes de Bolsonaro, por sua vez, viu elegância na tentativa de fugir da polêmica sem quebrar a hierarquia. 

Quem não acha nada nada continua achando.

“Não contrario publicamente o presidente”, disse ele, a certa altura.

“Sou ministro do Executivo, existe um chefe, uma cadeia de comando”, reafirmou, em seguida.
Sobre discordâncias com o presidente, o ministro insistiu: o presidente tem seu comando, nunca escondeu suas posições, e sempre foi transparente na campanha em relação a elas -- inclusive sobre armas e excludente de ilicitude, que Moro passou a abraçar para si.

“Não vim aqui falar sobre o presidente. O que acontece é que ele tem sido criticado e muitas vezes ele reage”, disse Moro em outro momento.

Se fosse um jogo, é possível dizer que o ministro ganha ponto com seus fãs, e perde os que não tem com quem o desaprova, ao dizer que a Polícia Federal mantém sua independência ao investigar colegas de ministério, caso de Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). O que para uns é respeito ao trabalho da PF, para outros é passada de pano.

Sobre constrangimentos de ter sido colega de quem faz referência a um ministro da Propaganda Nazista em pronunciamento, ou da manutenção de um secretário da Comunicação acusado de conflito de interesse, Moro desliza: não é comentarista político e o que tem a dizer a respeito dirá diretamente ao presidente.

“Cínico”, dirão uns, lembrando de seu protagonismo em assuntos políticos quando os tempos eram outros.

“Elegante”, dirão outros, também lembrando seu protagonismo em assuntos políticos quando os tempos eram outros.

A má notícia para Bolsonaro é que cada vez que se desviava da oportunidade de se indispor com o chefe, mais cacife político Moro ganhava. Quanto mais cacife, mais jogo de cintura para manter a popularidade hoje superior à de Bolsonaro -- o que é uma contradição, porque este aliado obediente que elogia e evita se indispor com Bolsonaro ganharia de lavada do chefe se resolvesse se candidatar a presidente.

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