Ana Patrícia e Rebecca vão a Tóquio após trajetória improvável no vôlei

KLAUS RICHMOND
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SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Ana Patrícia Ramos, 23, lembra com clareza dos olhares atravessados e dos sussurros que escutava pelos corredores da escola em Espinosa, cidade mineira de pouco mais de 30 mil habitantes e a 700 km de Belo Horizonte. A violência psicológica tinha como alvo principal a altura atípica para uma adolescente de sua idade. "Esse bullying aconteceu comigo por anos e afetou demais a minha cabeça. Comecei a achar que eu era mesmo aquilo que me falavam, que não servia mais para nada. Tinha medo de morrer, precisei bastante de ajuda psicológica. A minha vitória sobre isso foi o esporte", ela conta à reportagem. Anos depois, já no início da carreira como atleta de vôlei de praia, os comentários que a perseguiam tinham novamente sua altura como alvo. Seu 1,94 m era visto como entrave para o desenvolvimento de uma técnica mais apurada no esporte. "Eu nem dormia, pensando no que tinha que desenvolver mais, treinar ou melhorar. Não queria ser só grande, só uma bloqueadora, como diziam." Provação também viveu a cearense Rebecca Cavalcante, 27 anos e 1,75 m. Em 2013, aos 20 anos, ela formava dupla promissora ao lado da capixaba Lili França. Tudo mudou com a notícia de que estava grávida. "Foi um susto. Sempre quis ser mãe nova, nunca escondi isso, mas ouvi muitas críticas duras. Senti muita rejeição quando dei a notícia. Falaram: 'como uma atleta de alto nível engravida? Acabou a sua carreira agora'", relata. Juntas desde 2017, elas superaram as barreiras e hoje desfrutam do seu melhor momento. Encerraram o ano na liderança do ranking nacional e já têm vaga assegurada para a primeira Olimpíada, em Tóquio, adiada para julho e agosto deste ano. Ágatha e Duda também representarão o Brasil no Japão. Ana Patrícia começou no vôlei quase por acaso. Apaixonada por futsal, ela passava nas classes da escola desafiando amigas a aceitarem a empreitada de formar um time nos jogos escolares em Janaúba, a quase 150 km de Espinosa. "Fui por quatro anos para os jogos, mas quase sempre jogando handebol. Teimava também em assistir ao vôlei. Todos queriam me indicar para testes por conta da minha altura", conta a maior atleta entre todas as participantes do circuito nacional, de acordo com relação da CBV (Confederação Brasileira de Voleibol). A relação com o vôlei de praia começou quando o delegado de uma das partidas conseguiu um teste na seleção mineira, comandada por Giuliano Sucupira. Aprovada, ela se mudou para Betim. "Não sabia nem jogar direito, mas a vontade era tão grande que convenceu." A evolução foi rápida. Ao lado de Duda, sagrou-se medalhista de ouro dos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanquim-2014 e conquistou o bicampeonato mundial sub-21 em 2016 e 2017. Rebecca cresceu no esporte incentivada pela mãe, que joga vôlei até hoje em torneios de masters. Ela começou nas quadras em São Paulo, no clube Pinheiros, mas uma lesão precoce, com apenas 13 anos, mudou inesperadamente o seu rumo para a areia. Sozinha, durante um treinamento, rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito. Com medo de novo impacto sobre o joelho recém-tratado, aceitou o convite para iniciar a recuperação na praia, em Fortaleza, sob o comando de Reis Castro, técnico medalhista olímpico que trabalhou por quase uma década com a dupla Juliana e Larissa. Nunca mais saiu, apesar do desejo constante de voltar às quadras. "Tinha gastura de areia, pavor mesmo. Caía e me limpava toda hora. Demorei muito para me desligar 100%. Até 2018, sempre fugi para brincar em alguma quadra", conta. "Hoje [a areia] já faz parte da minha vida. Está no meu carro, na minha bolsa." A maternidade foi a chave que mudou por completo a personalidade inquieta e o desejo constante de retornar aos ginásios. "Parecia que não me sentia completa. Eu penso, agora, que não me falta mais nada. Nunca planejei esperar o fim da carreira. As pessoas brincam que sou uma antes e outra depois da Isabela [a filha]." O retorno de Rebecca após ser mãe foi de altos e baixos. Ela tentou parcerias com Neide e Elize Maia, mas só alcançou o ápice com Ana Patrícia. "Eu tive umas 15 duplas, ou mais, até encontrar a Rebecca. Foi uma construção perfeita: eu precisava e ela também queria uma coisa nova, então casou a fome com a vontade de comer", afirma a mineira. "É diferente [a nossa parceria], nós temos um vínculo grande fora do esporte, também. É questão de afinidade, jogamos juntas antes, no sub-23, sem responsabilidades", diz Rebecca. A série de bons resultados recentes também é acompanhada pela construção de manias da dupla. Entre os ritos que Ana Patrícia tornou quase obrigatórios, elas mantêm a cor do biquíni que está vencendo, dormem de luz acesa para dar sorte, só entram na quadra pisando com o pé direito, sempre sentam do mesmo lado do banco e guardam credenciais de jogos durante toda uma etapa. "O que não sabemos é melhor não desafiar. Uma vez fui fazer um exame de imagem e esqueci o meu escapulário. Vim no avião lamentando por isso, falando que ia dar azar. Coincidência ou não, torci o tornozelo feio no primeiro jogo. Aí a Rebecca me pergunta: 'será que foi o escapulário?'", conta Ana Patrícia. Ao lado da sorte, a dupla espera continuar surpreendendo e vencendo barreiras até Tóquio. "Éramos a dupla que ninguém esperava que chegasse. Somos mais reservadas, vamos mudar agora? Precisamos entender a grandiosidade da Olimpíada, o que temos que esperar. É desnecessário querermos comparações", afirma Rebecca.